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Acabo de ler na Folha um texto interessante de Vinicius Torres Freire sobre programas do governo federal que atingem a população nos confins do Brasil. Basicamente, o autor comenta um sem-número de programas que são desconhecidos dos paulistanos como ele, pois estão focados para uma população que está muito distante. Duas afirmações são interessantes. A primeira é:

“Daqui do centro rico de São Paulo, o Brasil, esse país longínquo, e muitas ações do governo parecem invisíveis. Quase ninguém “daqui” dá muita bola para programas populares dos governos do PT até que o povo miúdo apareça satisfeito em pesquisas eleitorais. Juntos, tais programas afetam a vida de dezenas de milhões de pessoas, tanto faz a qualidade dessas políticas, umas melhores, outras nem tanto, embora nenhuma delas seja nem de longe tão ruim quanto a política econômica.”

E a segunda, que fecha o texto:

“A gente “daqui” precisa visitar mais o Brasil.”

Estas colocações do autor parecem querer justificar porquê nós, paulistanos, não entendemos as grandes chances de reeleição para a Presidenta Dilma, dada a péssima qualidade da política econômica. Ok, então, como os programas do governo não nos atinge, em maioria, temos esta dificuldade de percepção. Mas a frase que fecha o texto, que nos convida a visitar o país, significa o que? Visitar o país nos serviria para entender a abrangência dos programas, nos dando condições para avalia-los e dirimir nossa dúvida quanto às razões dos elevados índices de aprovação do governo federal. Mas isto, nos é relativamente claro pelas diversas análise e notícias que, ainda que não aponte todos os programas do governo federal, sempre divulgam os resultados ao menos do mais famoso destes programas, o Bolsa Família. Se isto não nos bastaria, precisaríamos visitar mais o Brasil para outra coisa?

Me ocorre que o autor nos sugere que ao visitarmos o Brasil, veríamos esses programas e, com isso, talvez, nos impressionássemos com o enorme efeito político e social apontados pelo autor e passássemos nós a aprovar o governo federal também. Se for este o caso (e me parece uma hipótese plausível), o autor nos remete à discussão sobre como escolhemos nossos representantes.

Ao votarmos, escolhemos um representante por alguma característica que o distingua dos demais. No caso de um candidato que busca a reeleição, ainda temos a possibilidade de premiar o governo realizado a partir de nossa percepção sobre ele. E aí mora um enorme detalhe: se um governo é popular porque realiza políticas públicas para indivíduos de determinadas faixas de renda ou de uma determinada região do país, isto deve ser considerado pelos indivíduos das outras faixas de renda ou das outras regiões às quais estas políticas não estão direcionadas? Para ficar em um exemplo bastante paulistano: as pessoas que utilizam automóveis devem premiar o Haddad com seus votos em uma suposta tentativa de reeleição porque tem conhecimento de suas políticas para melhorar as condições de transporte dos demais paulistanos? Não quero entrar no mérito dos impactos indiretos que uma política específica possui sobre todos. O governo ao priorizar faixas da população ou certas regiões do país está, de certa forma, correndo riscos de perder os votos daqueles para quem essas políticas não são direcionadas. É evidente que alguém, ainda que não se sinta diretamente beneficiado pelas ações do governo, pode valorizar estas políticas por questões de princípios e mudar seu voto. Mas me parece fazer bastante sentido que da mesma forma que as pessoas que são dos confins do país apoiem o governo federal em razão das políticas direcionadas a elas, os paulistanos que veriam apenas a política econômica, que é reconhecidamente ruim, escolham algum outro representante. Visitar o país substituiria um trabalho menor de apenas se atualizar sobre quais são as políticas do governo federal e seus possíveis resultados.

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