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Pela primeira vez, postarei diretamente um texto que não é meu. Este texto é de autoria de um professor da Fecap e do Insper, Vinícius Müller, com quem converso bastante sobre conjuntura política e econômica. Ele postou esse texto em sua página do Facebook e para mim, sintetiza um aspecto importante da forma como a História Econômica pode contribuir para a maneira em que a Economia é pensada. Certamente, haverá outros posts meus relacionados a esse. A discussão promete! Divirtam-se!

“Acabo de ver num canal de esporte um balanço do campeonato brasileiro 2013 e, principalmente, uma análise sobre as diversas brigas e cenas inacreditáveis de violência que, nesse ano, tomaram os estádios e suas redondezas. Pensei imediatamente em uma aula que ministro; na verdade, a primeira aula do curso. Nela, a grande discussão é sobre ‘quem faz a história se movimentar?’. O tema tem uma especial importância, pois além de me dar a oportunidade de discutir minimamente Teoria e Filosofia da História com alunos de Economia e Administração, ele parece-me essencial para estudantes que têm definida, como arcabouço teórico dominante na instituição onde estudam, a abordagem cuja resposta à minha questão-tema seria ‘os agentes individuais que buscam, por meio da racionalidade que possuem, maximizar suas posições’. Longe de discordar deles, cito Marshall Sahlins que diz que ‘as ações individuais são importantes a não ser que consigamos imaginar que o nazismo ocorreria sem a existência de Hitler’.

Digo a eles, alunos, que não só os agentes individuais fazem a História andar, mas, no mínimo, outros quatro atores importantíssimos: as ideias; os grupos; as instituições; e o ambiente. Na verdade, penso honestamente que é a aproximação entre todos os cinco ou a possibilidade de pensarmos em todos eles juntos é que, de fato, nos dá a possibilidade de entender a História e seu andamento com o mínimo de sofisticação.

Pois bem, as ideias: quando assumimos que é esperado e razoavelmente justo que hierarquizemos nossas identificações, podemos justificar absurdos como ter minha identidade ligada majoritariamente a uma agremiação que, independentemente de minhas particularidades, me define como ator. Não, não torço para uma nação nem para uma república. Torço pra um time de futebol. Torcer e lutar por uma república é separatismo vulgar; é defender a saída daquele grupo do jogo por acreditar que ele está cima das composições e regras que o regulam. (Ou marketing barato, tanto faz!)

Como está claro, penso não precisar falar muito sobre o segundo item, já que as ideias são as forças mais poderosas na formação de grupos, o segundo ator. Pois bem, os grupos quando criados a partir de uma possível identificação entre seus membros e justificados por uma ideia de homogeneidade entre eles, legitimam comportamentos que, mesmo desprezando a individualidade – seja ela física, social ou moral – tendem a ter orgulho de seus meios por acharem que eles os levam ao resultado que almejam. Lembrando que, muitas vezes, o resultado almejado é o separatismo ou, no mínimo, a supremacia ante qualquer individualidade. Ler Albert Camus, nesse caso, pode ser útil.

O terceiro item, as instituições, também são partes dessa História; afinal, formalizamos as ‘regras do jogo’ a partir de eventos e de ideais. Ou seja, criamos as leis conforme retiramos ‘lições’ das experiências e conforme projetamos aquilo que seria desejável. Depois autorizamos alguns a serem os zeladores dessas leis. Culpar a polícia é mirar em uma parte do problema, não no problema. A questão é que aquilo que consideramos desejável é construído informalmente e reproduzido ao longo do tempo. Ou seja, é fruto de nossas ideias. E se, nesse caso, voltarmos à questão anterior, de que a ideia que me movimenta ou que me dá a sensação de ter alguma identidade – com o que ou quem quer que seja – é aquela que justifica que eu faça parte ou seja simpatizante de um grupo que almeja a separação ou o não reconhecimento das individualidades e das diferenças, ficamos presos em um ambiente de pouca capacidade de resolução de conflitos que não por meio da violência (repito, seja ela física, moral ou social). Nesse caso, ficar preso define o ambiente. Em outras palavras, mesmo que a ascensão do nazismo não seja crível sem a figura de Hitler, será que só a figura de Hitler em outro contexto, em outro ambiente, seria suficiente para o que ocorreu na Alemanha dos anos 30?

Parece-me que não; então concluo: o ambiente quem faz somos todos nós. A pessoa que acha que mesmo sendo pacífica, responsável, trabalhadora, pode, quando em meio ao seu grupo de identificação (que tenta a todo custo retirar a particularidade daquele indivíduo em nome do grupo), não ser nada disso e promover o mal, está sendo cúmplice (Hannah Arendt, por favor!!); pior ainda se justificar seus atos por não ser capaz de manter sua individualidade se essa for contrária ao ideal do grupo (algo como, ‘lá, no meio da galera, eu me transformo!’). E mais grave (se ainda há coisa pior), por achar que se é assim mesmo, então serei assim também. (todos são, afinal, há 500 anos que é assim! Então, vou me adaptar!). Por fim, quantos de nós legitima, mesmo que indiretamente, o comportamento das torcidas? Quantos, em momentos mais triviais, não falamos que a Gaviões é legal, que é da Independente ou que a Mancha é bacana? O ambiente fazemos todos nós. Sem moralismos, sem hipocrisia, mas também somos culpados. Não culpe os marginais que brigaram em SC e sim lembre-se de quantas vezes você ficou tentando ‘tirar do sério’ alguém que torce pra um outro time que não o seu? (e/ou, em tempos recentes, torce pra outro partido que não o seu?) E, quando conseguiu, o culpou por ‘perder’ a esportividade, afinal, era tudo brincadeira! Não, não era. Ele só reagiu, vc planejou! Crimes de lógica; crimes de paixão! (olha o Camus aí de novo!)

Se o Corinthians perde, aumenta a taxa de crimes na cidade; o Morumbi está vazio porque os são paulinos estão na Parada Gay; e assim por diante…Tudo brincadeira? Ok, se vivêssemos nos anos 50. Só que não, não vivemos, mesmo que muitos insistam nisso (é só ver o debate sobre privatizações no Brasil: é ou não o debate dos anos 50?) O ambiente fazemos todos nós.”

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