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No último post, o texto de autoria de um professor amigo tratava das questões teóricas que fazem as história se mover adotando abordagem que na Economia está bem próximo da visão Nova Economia Institucional. Basicamente, são apontados naquele post cinco aspectos que precisam ser considerados neste tipo de análise: o comportamento individual (típico e usualmente foco exclusivo da avaliação econômica), as ideias, os grupos, as instituições e o ambiente. Este escopo mais amplo altera bastante o tipo de preocupação que o economista deve ter quando busca trazer explicações sobre os fenômenos de interesse. Ainda mais quando se passa a analise perspectivas históricas de amplo alcance, como é comum no Desenvolvimento Econômico.

Para se compreender a importância desta alteração de perspectiva, vamos lançar mão de um exemplo. O Brasil abole definitivamente a escravidão em 1888 e esta medida terá impactos econômicos significativos no desempenho econômico do país no século seguinte. O PIB per capita do Brasil em 1900 é estimado em U$ 729, aproximadamente, e atinge em 2006 U$ 8.880, 20% da renda per capita dos EUA. Apesar disto, a taxa de crescimento é impressionante, da ordem de 2,39% ao ano. Se aceitarmos que há impacto positivo e significativo da abolição da escravidão nos acontecimentos econômicos que a sucedem, é de se pensar: por que não aboliram a escravidão antes? Uma grosseira avaliação nos dá a dimensão desta ação: apesar das enormes dificuldades, estima-se que a taxa de crescimento da renda per capita no Brasil durante o Império ficou entre 0,20% e 0,50% ao ano. Adotando esta última como a taxa real, a renda média do brasileiro em 1822 era de U$ 494. Se o país tivesse abolido a escravidão nesta época e a taxa de crescimento da renda per capita a partir de então fosse os mesmos extraordinários 2,39% a.a., o PIB per capita do Brasil em 2006 seria U$ 38.121, 86% do norte americano! Ainda que fôssemos mais modestos, e imaginássemos que o crescimento em todo o período fosse menor, igual ao crescimento do PIB per capita argentino no século XX, 1,88% a.a., o PIB per capita do Brasil atingiria pouco mais de U$ 15 mil, bastante próximo ao chileno, batido exemplo a ser seguido pelo Brasil. Ou seja, a pergunta se torna quase fundamental: por que o Brasil não aboliu a escravidão antes?

Uma resposta possível dada pela Nova Economia Institucional é avaliar as ideias presentes à época e o ambiente político e econômico na qual as elites brasileiras tomaram suas decisões. É quase senso-comum ouvir que a resposta a esta pergunta é a de que não fazia sentido a esta elite à época pensar em abolir a escravidão, já que o fruto de seus ganhos dependiam dela e que não havia pressão forte o suficiente para fazer com que uma decisão diferente fosse tomada. Ou seja, tudo permaneceria como estava, ainda que hoje nos parece que estavam equivocados. Os economistas neoclássicos falariam da utilidade destes tomadores de decisão, mas o que parece estar claro nesta discussão aqui é que tal utilidade é socialmente condicionada. Como as tentativas de torna-la endógena não tem ganhado muitos adeptos, a Nova Economia Institucional passa a ser a melhor resposta que temos.

Qual a importância destas colocações? Considerando o contexto econômico do Brasil atual, as reduções da desigualdade de renda podem trazer uma significativa alteração do quadro estrutural da economia brasileira. Não ouso aqui defender que seria semelhante ao impacto da abolição da escravidão, mas, sim, que seria uma alteração estrutural bastante profunda. As consequências destas alterações não podem ser previstas, mas retomando aqueles cinco aspectos iniciais apresentados aqui, certamente elas provocam alterações no ambiente e certamente permitirão novas ideias surgirem. É possível que estas mudanças estejam na base do futuro do desempenho econômico do Brasil nos próximos anos. Infelizmente, para os Economistas, a previsão neste tipo de cenário é praticamente impossível.

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