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Uma ONG inglesa, a Oxfam, acaba de divulgar um relatório para ser apresentado no Fórum Econômico Mundial, em Davos, no qual apresenta o tamanho da desigualdade mundial: os 85 indivíduos mais ricos do planeta possuem riqueza igual a da metade da população mundial. Há outras importantes evidências: o 1% mais rico possui quase metade da riqueza mundial; nos EUA, o 1% mais rico da população capturou 95% do crescimento da economia após a crise financeira de 2009, enquanto os 90% mais pobres se tornaram ainda mais pobres. Ainda que haja diferença entre estoque (riqueza) e fluxo (renda), a pergunta que segue a estas constatações para muitas pessoas é “e daí?”.

Algumas pessoas podem ter pensado: “bom, se estas pessoas foram mais produtivas, mais competentes, é justo que ganhem mais”. A diferença de apropriação da renda ou de riqueza seria, então, decorrente das diferentes capacidades dos indivíduos em produzir esta renda, em gerar bens ou serviços. Ou seja, está relacionada a sua produtividade. Todo mundo seria livre para usar seu tempo como quiser e se alguém for mais efetivo em gerar renda, enquanto for através de atividades legais, não há problemas. A renda é a recompensa pelo esforço. Resumindo, em uma palavra: meritocracia.

O que normalmente não se diz é que a ideia de meritocracia é uma ideologia, sem nenhum demérito à expressão, dentre outras. Quero apenas dizer que se refere a um conjunto de ideias e ideais que estão interligados, compartilhando um conjunto de valores. Nesta ideologia, precisaríamos ser iguais em nossas condições de mostrar nossos méritos. Assim, a desigualdade dos chamados “pontos de partida” deveria ser evitada. Então, por exemplo, pessoas que recebam riqueza excessiva de seus pais ou, ao contrário, que por conta de sua pobreza elevada não tenha condições de receber uma educação adequada apresentam pontos de partida muito distintos, o que é uma desigualdade inaceitável. Esta precisaria ser corrigida, o que poderia justificar uma intervenção governamental, como educação gratuita para crianças. 

É interessante notar que Paul Krugman, em um artigo publicado dia 20/01 na versão online da Folha de São Paulo, critica o uso dessa argumentação sobre meritocracia para justificar a expansão recente da desigualdade nos EUA em particular. Diz ele: “Pode-se discutir se essas pessoas [o 0,1% mais rico da população americana] merecem ou não ser tão bem pagas, mas uma coisa é clara: elas não chegaram a essa posição simplesmente por serem prudentes, limpinhas e sóbrias.” Nem é preciso dizer que, estando correto, há um problema sério na situação em que a economia americana se encontra. Mas se a ideologia da meritocracia não explica o que acontece nas economias pós-crise de 2009, ela ainda tem relevância que merece discussão.

Os três economistas que estão lendo este post conhecem bem uma explicação teórica para essa justificativa da desigualdade de renda entre as pessoas. A expressão “Salário é função da produtividade” é repetida a exaustão nas graduações em Economia, quase como um mantra. O vínculo aqui com a ideologia da meritocracia está claro: quanto mais produtivo for o indivíduo, maior seu salário. O que sempre fica escondido é o juízo de valor implícito por de trás de algo que é dito científico. Entendo que deva haver clareza entre o que há de normativo nesta afirmação e naquilo que a ciência entende como explicação da realidade.

E é neste momento que reside um problema: se Krugman tiver razão e a realidade das economias atuais não for aquela em que os salários igualam as produtividades dos sujeitos, então a Ciência Econômica está equivocada. Agora, se por outro lado, Krugman estiver equivocado e os salários se igualaram à produtividade dos indivíduos, a crítica cabível é normativa. Neste caso, quem está correto é quem se incomodou com os números do relatório da Oxfam…

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