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A pergunta que motiva esse post tem tanto origens acadêmicas em razão a textos recentes com os quais tive contato, como também em razão de um tema recorrente nas discussões políticas sobre o viés que a mídia possui ao escolher determinadas pautas, o que já foi tema em outro texto aqui. De que maneira pode-se falar de que um fato qualquer sobre a realidade é objetivo?

Para discutir esta questão, é preciso considerar a seguinte situação. Um indivíduo tem preferência partidária clara pelo partido A, mas este não ocupa o governo. O líder do Executivo é seu oponente, do partido B. Suponha, ainda, que a economia deste país vai bem segundo alguns dados, como níveis de desemprego, por exemplo. Você seria capaz de admitir isto? E ainda, você seria capaz de atribuir ao governo atual tais resultados ou apenas a fatores externos? Tilley e Hobolt fazem uma pesquisa que pretende avaliar este aspecto e seus resultados são interessantes: na Inglaterra, onde o estudo é realizado, a preferência partidária afeta a atribuição de responsabilidade, mas tem poucos efeitos sobre a performance. Ou seja, o inglês perceberia que o país está melhor, mas a responsabilização por estes resultados seria afetada pela preferência a um partido. Um resultado um pouco diferente foi encontrado por Larry Bartels nos EUA. O autor mostra que apesar da desigualdade de renda ter aumentado nos anos 1990 nos EUA, notadamente no Governo Bush, os eleitores de mais extrema direita, que tendem a ser republicanos, não ‘percebem’ este fato; a desigualdade simplesmente não teria aumentado. Haveria aqui, então, dificuldade em identificar o fato. Seja como for, o que estes estudos estão mostrando é que há uma lente através da qual os indivíduos avaliam ou interpretam o que, a rigor, poderiam ser entendidos como fatos, como ocorrências concretas.

Pode-se supor, portanto, que a formação da ideologia de cada indivíduo o auxilia na seleção de fatos e na compreensão destes. O que convence um indivíduo não é o mesmo que convence outro. Na reação a notícias, isso é quase auto-evidente. Um exemplo bastante presente na vida de todos nós é o aquecimento global. Com o calor atual, isso nos parece indiscutível, mas as notícias de fraude sobre os dados que justificam o fato objetivo são inúmeras. Ainda assim, continuamos a falar disso, a nos preocupar, a nos alarmar com o que seria um fato. Sobre aspectos políticos, não há dúvidas da existência desse viés. Nem me parece ser preciso falar sobre quem é mais tolerante às falhas da polícia e metrô paulistas e quem é mais condescendente com as falhas do governo federal.

A existência deste filtro é inevitável em todos nós. Selecionamos as situações, damos peso maior àquilo que contraria o que entendemos como correto, ou que reafirma nossas convicções. Há um todo que constrói essa nossa forma de enxergar o mundo e, assim, motiva nossas ações. A mim, sem muita certeza, me parece que um fato social será tão mais objetivo quanto maior o número de pessoas que entenderem assim. O objetivo seria também uma construção social.

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