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Recentemente, surgiu uma discussão nas redes sociais sobre o nível exacerbado que algumas manifestações públicas tem tomado. Sejam nas próprias redes, sejam até em veículos de imprensa, alguns depoimentos tem causado forte repercussão. Podemos tomar um caso emblemático como exemplo: o episódio em que um suposto ladrão no bairro do Flamengo, Rio de Janeiro, teria sido preso a um poste pelo pescoço com uma trava de bicicleta. O ocorrido teria sido protagonizado por um grupo de jovens tido como justiceiros. Esse caso provocou as mais diversas manifestações exaltadas na maior parte das vezes. Tomarei duas publicações que serviram de apoio para quem se escandalizou com o caso ou de apoio para quem entendeu como correta a ação dos justiceiros. Sobre este grupo, a manifestação de uma repórter do SBT, Rachel Sheherazade, virou notícia. O link para o depoimento está abaixo:

http://www.sbt.com.br/sbtvideos/media/78cf99c94c944d84b854f6b925d908a1/Rachel-fala-sobre-o-adolescente-vitima-de-justiceiros-no-Rio.html

Sobre o primeiro grupo, ainda que neste caso seja bastante sutil a colocação, é o texto do sociólogo José Martins de Souza publicado no Jornal Folha de São Paulo. O link segue abaixo:

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,eu-nao-meu-senhor,1128202,0.htm

Os desdobramentos deste episódio são significativos do estado de coisas no país.  Ainda que não excluam as pessoas em dois grupos completamente antagônicos, estes links mostram a maneira como o debate público no Brasil se polarizou. A jornalista foi bastante hostilizada nas redes sociais por um determinado grupo de pessoas que, no geral, entendo que concordaria com o segundo texto. Um outro grupo que se não concorda com a fala da jornalista (o link para o youtube deste mesmo vídeo mostra várias mensagens de apoio como “Rachel me representa”) defendeu seu direito de emitir opiniões. Já o segundo link, aponta para não só uma compreensão sociológica do fato, mas é para muitos leitores uma denúncia da violência cotidiana a que parte da sociedade brasileira está sujeita. Já os apoiadores de Rachel, provavelmente, denunciaram este grupo de pessoas como os defensores de direitos civis de bandidos. Chama atenção, porém, é que os tons de raiva com que um grupo se refere ao outro está longe de exemplificar aquilo que se esperaria de um exercício democrático liberal como vigente no país hoje.

De um lado, há razão para se argumentar que a repórter pode ter liberdade de expressão. Isto é verdade. Podemos não concordar com suas colocações, mas o direito a manifestar-se existe. Se ela poderia fazer isso como âncora de um jornal de televisão é passível de discussão, mas me parece um ponto menor frente à hostilização que ela sofreu. Ela tem o direito, como indivíduo, de se manifestar. Porém, o direito de liberdade de expressão, se incitador de ódio, deve ser de alguma maneira coibido. Se ela for capaz de usar de sua posição para mobilizar as massas, incitando-as a ações violentas, por exemplo, sua liberdade precisaria ser reconsiderada. Há um conflito evidente neste aspecto no qual uma sociedade que se diz democrática deve ser capaz de solucionar. Por outro lado, o segundo texto demonstra uma total incapacidade de parcelas da sociedade de reclamar para si seus próprios direitos. Os outros falam por ela. Quando notamos que alguém de determinada classe social se refere aos direitos da outra, quando esta mesma não os reivindica, temos um problema social importante. Me parece que só poderemos falar de uma democracia liberal quando todos os indivíduos forem capazes de reivindicar seus direitos, e quando estes estiverem garantidos por todos os demais. Há, neste tipo de texto, uma certa defesa pelo direito de outro que este nem parece saber possuir!

O brasileiro é conhecido, desde talvez a imagem do homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda, como um indivíduo que evita o conflito. Dá voltas para dar uma negativa, evita a fala direta se achar que pode criar um constrangimento pequeno que seja, e por aí vai. É uma auto-imagem, até, do brasileiro. Mas os conflitos sociais com os quais convivemos tem exacerbado as posições da pessoas e as repercussões tem ganhado uma proporção significativa. Aparentemente, somos levados a nos colocar, a nos posicionar diante dos fatos, e sempre com muita veemência. E o conflito daí é inevitável. Nas redes sociais, em que há um tanto de impessoalidade ou de distanciamento, torna-se ainda mais agressiva a defesa dos pontos de vista. O pior é notar que não é apenas nas redes sociais em que há essa exaltação. Mas, ainda assim, não me parece residir aí o problema maior.

Me parece que estamos enfrentando um momento em que a alternativa política para a resolução de conflitos está sendo colocada a prova por duas grandes dimensões simultâneas que estão se modificando: a primeira é o estreitamento das diferenças econômicas e sociais entre as pessoas. Boa parte do conflito que observamos, como o caso dos “rolêzinhos”, tem clara origem sócio-econômica. É preocupante que assim seja, mas aparentemente é como se algo fundamental da sociedade brasileira se alterasse. Não se encontram empregados domésticos; pessoas que não possuem “glamour” frequentam aeroportos; garotos pobres querem passear, se divertir (quando for só esse o caso) em shoppings centers. Isto provoca em muitos um clima ruim em que uma completa falta de identificação com o outro exacerba uma reação contrária, com alguma sensação de perda acontecesse em razão da conquista do outro.

A segunda grande dimensão é a percepção de que o estado é incapaz de dar conta dos conflitos. Essa descrença nas instituições democráticas formais tira do domínio político, do locus político o centro para a resolução de conflitos. Esta seria a forma natural em um sistema democrático liberal de direito, como o vigente no país. Mas prefere-se ir às ruas, protestar contra o atual estado de coisas, sem que se tenha ao certo, em muitas vezes, uma pauta clara.

É possível ver no episódio do Flamengo a ilustração de ambas as dimensões atuando ao mesmo tempo. Se escandalizar com o ocorrido não é defender um ou o outro lado do problema, afirmando que se tinha ou não se tinha o direito de agir como agiu, seja lá quem for o ator envolvido no caso. O escândalo está em não nos reconhecermos como iguais, como brasileiros, com deveres comuns, sujeitos a um Estado que nos garanta nossos direitos básicos. Precisamos criar condições de levar os conflitos para a arena política e que esta seja capaz de dar voz e lugar ao debate, exacerbado ou não, mas válido igualmente para todos.

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