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O propósito deste post é altamente controverso em essência: supor que o eleitor brasileiro, quando observadas as eleições para Presidência da República, pode ser considerado estável em suas preferências. Isto é altamente controverso, já que as opiniões de vários analistas e as especulações do cidadão comum dão conta de que “brasileiro não sabe votar”. Se este é o caso, minha tarefa aqui será vã. Porém, ainda que haja um certo exagero de minha parte, assim como há exagero por parte destes analistas e cidadãos que sustentam a incapacidade do brasileiro em escolher seus representantes, vou arriscar um exercício e criar um modelo que considere o histórico das eleições desde 1994, quando o padrão PSDB-PT polarizou a disputa para o cargo no país. É um exercício, apenas, uma tentativa de projeção para outubro/2014.

Para darmos início ao exercício, assuma, inicialmente, a existência de três tipos de eleitores: o primeiro é o que gosta do PSBD; o segundo, que gosta do PT. Esses dois tipos poderiam ser considerados os eleitores ideológicos ou partidários, como queiram. Formam aquilo que alguns analistas chamam de core voters ou os eleitores fiéis de um partido. O terceiro tipo seria um eleitor mais conservador, que não gosta de mudanças. Ele tende a ser pragmático e a votar com o governo enquanto a situação econômica estiver boa. Ele não é contra o PT, nem o PSDB, mas quer garantir resultados econômicos individuais para si, usando o voto para isso. Os demais votam de acordo com as candidaturas oferecidas. São os circunstanciais. Este modelo com quatro tipos de eleitores já nos permite elaborar uma representação gráfica. Para isso, utilizarei o Diagrama de Venn, como na figura abaixo.

Venn_Diagram

Para efeitos ilustrativos, o círculo vermelho perfaz os eleitores do PT, o azul, do PSDB e o amarelo, os governistas. Os circunstanciais estão fora de todos círculos. O interessante deste diagrama é dar interpretação para as interseções: a interseção formada entre os círculos amarelo e vermelho são os eleitores que votam no PT quando este é governo, mas não votariam neste partido quando estivesse fora. A mesma interpretação é dada a interseção entre os círculos azul e amarelo. A interseção entre os círculos azul e vermelho não nos parece fazer sentido teórico, já que sempre um eleitor deve escolher um dos dois partidos e não houve situação em que apenas um deles esteve competindo. Além disso, não houve possibilidade no período considerado de que um eleitor votasse para o governo e não escolhesse, simultaneamente, um dos outros dois partidos. Isto faz com que a área do círculo amarelo que não está na interseção com outros dois círculos seja desconhecida de nós e, para todos os efeitos, igual a zero. Com estas informações, podemos preencher o diagrama acima:

Venn_Diagram_2

Notem que o valor da interseção entre os círculos amarelo e vermelho e entre os círculos amarelo e azul devem ser iguais. Isto porque, como já dito, as eleições brasileiras consideradas sempre tiveram um dos dois partidos como candidatos do governo – claro está então que considero aqui o PSDB o partido da situação na eleição de 1994, dado que FHC havia sido ministro no governo Itamar. Dito isto, vamos trabalhar com os resultados eleitorais efetivamente. A tabela abaixo dá uma visão geral dos resultados das eleições para o 1o turno desde 1994:

Tab_Resultado_El_Pres

Os valores dos votos foram corrigidos para 2010. A correção se refere à atualização dos percentuais de votos para o tamanho do eleitorado em 2010, para que o efeito do crescimento do eleitorado, que foi em média igual a 9%, não interfira na análise. As colunas “psdb”, “pt” e “gov” indicam qual o candidato de cada partido e qual deles era o candidato do governo quando a coluna contiver “1”. Essa tabela nos dará as informações para preenchimento do diagrama de Venn.

Para isso, vamos ser conservadores. O resultado observado na tabela decorre (1) da motivação dos eleitores core em não se absterem; (2) da escolha que os eleitores que estão fora dos círculos indicados acima fazem, que é circunstancial; e (3) da situação econômica de momento. Assim, como queremos saber o tamanho de cada um dos grupos, vamos olhar os menores valores dos candidatos de um determinado partido, de forma a identificar o grupo. Além disso, um pequeno cuidado: como já foi dito aqui anteriormente, a eleição de 2002 foi uma na qual o quadro econômico não era favorável ao governo. Por esta única razão, excluiremos essa eleição da análise, pois estamos assumindo que o governo foi punido.

Com isto, podemos resumir os dados assim: quando o PT não era governo, o menor número de votos que recebeu foi quase 24,5 milhões (1994); já como governo, sua menor votação foi na eleição da Dilma, com 47,7 milhões (2010). Já o PSDB, como governo, o menor número de votos que recebeu foi na reeleição de FHC, com quase 46 milhões (1998) e, como oposição foi na eleição de 2010, em que recebeu pouco mais de 33 milhões de votos. O resumo está na tabela a seguir:

Res_Ele_gov_ngov

O que é possível ver aí são basicamente 3 coisas: o número mínimo de votos recebido pelos partidos quando estão no governo é similar (47,6 milhões para o PT contra 45,9 milhões para o PSDB); o PT fora do governo recebeu uma quantidade muito menor de votos do que o PSDB (24,5 milhões contra 33,1 milhões); e o PT no governo recebe uma quantidade de votos bastante superior ao do PSDB (23,2 contra 12,8 milhões). Percebe-se aqui que o que eu chamo de fator governo (diferença entre o número mínimo de votos recebidos pelo partido quando governo e quando na oposição) foi muito maior para o PT do que o PSDB. Esse número seria o valor para o “X” no primeiro diagrama. Mantendo o conservadorismo, se há um grupo de eleitores que votam sempre com o governo, será o menor deles, e, então, X = 12,8 milhões de votos. Podemos, assim, preencher o diagrama de Venn:

Diag_Venn_Compl

Notem que eu incluí o número de eleitores que não estão contidos nestes círculos. São 65,2 milhões de eleitores, incluindo aqueles que votam branco, nulo ou não compareceram às eleições. Estes são os circunstanciais.

Em resumo, se nosso modelo está correto, o PT sai de pouco mais de 37 milhões de eleitores, enquanto o PSDB sai de 33 milhões. O PT tem atraído um contingente de cerca de 10 milhões de eleitores do grupo de eleitores chamados de circunstanciais. Restam ainda 55 milhões de eleitores. É em torno destes que Dilma, Aécio e, podendo embaralhar tudo, Eduardo Campos vão batalhar arduamente para conquistar. Daqui a 8 meses saberemos.

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