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Em meus primeiros anos de faculdade, sempre que escutavam que estudava economia, as pessoas me perguntavam como deviam fazer para ficar ricas. Com os lábios concavamente flexionados em relação ao queixo, respondia que não tinha a mais vaga ideia. O desconcerto logo se instalava e o silêncio típico dos frustrados, predominava.

Perto da graduação, passaram a me indagar sobre a conjuntura econômica, sobre as eleições e sobre quem seria o melhor candidato, economicamente falando, é claro! Em seguida à inquirição inicial, seguia-se: você acha que a bolsa está boa para investir agora? Com a mesma flexão labial de antes, respondia: se você gostar de risco ou se não precisar do dinheiro por algum tempo, pode entrar. A reação das pessoas persistia na mesma toada: agiam como se perante elas estivesse o mestre dos magos. (Tudo bem, para uma parcela importante dos leitores atuais, essa imagem não deve dizer muito. Reconheço que se acumulam meus aniversários!)

No mestrado, passei a ser indagado sobre os problemas do Brasil e como resolvê-los. Presenciei o anseio – e, novamente, a frustração – de quem esperava receber, acidentalmente, alguma resposta fundamental que lhe acalmasse os receios mais fugidios e que apenas apareciam quando se sentiam pressionados – sabe-se lá por quê – a parecer ter preocupação com os problemas do Brasil. “Qual é a saída para o Brasil?” – perguntavam-me. No melhor humor de Antonio Brasileiro Jobim, retrucava, sem noção alguma do que dizer seriamente: “A saída para o Brasil é o aeroporto”.

Finalmente, agora que busco obter o título de doutor nessa tristonha arte da economia, sou alçado ao posto de vidente. Busco me defender da deferência ignominiosa dizendo que minha tese é sobre história das ideias econômicas, que estudo coisas velhas, que já não afetam ninguém. Mesmo assim, sou frequentemente solicitado a prever qual será a taxa de câmbio no final do ano.

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Fruto da melhoria de vida da população ao longo dos anos 2000, a taxa de câmbio se tornou essencial à vida do brasileiro. As viagens internacionais e as vultosas somas gastas com compras no exterior perfazem o roteiro da felicidade consumista tupiniquim. Por isso, as pessoas ficam felizes quando digo que a taxa de câmbio vai cair. Para quanto? perguntam. Com ar reflexivo e buscando nas profundezas do meu ser a necessária cara-de-pau, respondo: “Bom, meu modelo prevê que estará entre 2,00 e 2,40”. Alguns conseguem notar a farsa e se riem da resposta. Fico feliz quando isso ocorre, pois conseguem inferir do contexto e da minha expressão facial que não tenho a mínima ideia e, bondosamente, perdoam-me pela ignorância.

Afinal, fazer previsão em economia, como já disse um notório econometrista, é como dar instruções para um motorista cego ao volante, olhando apenas pelo vidro de trás ou pelo retrovisor. É possível de se acertar, mas dá um baita trabalho e não pode ter nenhuma curva mais acentuada à frente.

Se nem para isso, para que serve um economista, então?

O economista não serve para fazer previsões, apesar de muito dinheiro ser movimentado com base nessa expectativa – ao meu ver – indevida. Seu papel social é muito mais importante em outra área: aprimorar a qualidade do gasto, seja este de energia, de dinheiro, de atenção, de sentimento, de tempo etc.

Ser econômico não implica necessariamente gastar pouco; significa, sim, gastar bem – e arcar com os custos desse dispêndio. A questão central consiste em se saber em quê e em que ritmo investir os recursos, em busca do melhor retorno possível. Uma viagem ao exterior pode ser um excelente gasto, se for para gerar ganho cultural e alavancar os estudos; e pode ser péssimo se o único propósito for endividar-se com bugigangas desnecessárias, apesar de muito desejadas.

Na esfera pública, temos o exemplo lamentável, relatado hoje (21/02/2014) pela rádio CBN, do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, com seu monstruoso dispêndio de cerca de R$ 1,5 milhão com alimentos para a residência oficial (para a descrição detalhada dos suntuosos gastos, clique aqui). Enquanto isso, pais em algumas escolas públicas de Brasília fazem “vaquinha” para doar condimentos para que a refeição das crianças seja um pouco mais saborosa. Acredito que o dinheiro público possa ser mais bem gasto. E o orçamento familiar também.

Portanto, é uma falácia fundamental dizer que economia é sinônimo de poupança. “O Brasil vai mal por que não poupa o suficiente. Brasileiro não sabe poupar, quer gastar tudo de uma vez. A inflação ocorre por que brasileiro é gastador, toma crédito de maneira irresponsável”, dentre outras verdades heroicas que explicam tudo sozinhas.

Particularmente, gosto das verdades combinadas em um todo dotado de coesão interna e com alguma aderência aos fatos observados. Nunca minhas “verdades” explicam tudo, apenas as partes do problema que considero relevantes. Talvez, por isso, não ganhe dinheiro vendendo certezas com elevadas e variantes variâncias. Falo apenas por mim! Prefiro servir para “pouco, muito pouco, quase nada”, a servir desmesuradamente o desassossego de muitos.

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