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No dia 12 de março de 2014, quarta-feira passada, o Instituto FHC (iFHC) promoveu um encontro com celebridades das áreas acadêmica e de políticas econômicas. O motivo era o aniversário de 20 anos do Plano Real.

Rigorosamente, a celebração se refere ao aniversário da reforma monetária, a etapa final do processo de desinflação da economia, quando mudamos a moeda (o Cruzeiro Real tornou-se o Real) e, com isso, reduziu-se abruptamente a taxa da inflação de cerca de 2.500% ao ano, em 1993, para uma inflação de um dígito já em 1995. Desde então, com exceções localizadas, a taxa de inflação vem se mantendo no intervalo de 4 a 6% ao ano.

É interessante notar que, apesar da inflação controlada, a preocupação brasileira com o fenômeno da erosão do poder de compra da moeda não perdeu sua periodicidade. A cada semana, um índice quadrissemanal vem a público, informando a inflação acumulada entre aquela semana do mês e a mesma do mês anterior. Aproximadamente 14 índices de inflação são publicados em 29 datas justapostas, isto é, próximas umas das outras, dentro de um mês. Ou seja, mesmo que não se queira pensar nisso, somos bombardeados em nossos sentidos pelas notícias a respeito da inflação. Há realmente alguma base para o medo do retorno da epidemia inflacionária?[1]

É, portanto, oportuno comentar sobre esse problema tão brasileiro a propósito da comemoração do Plano Real. Como esperado, uma analogia é adotada em nosso auxílio.

No impactante livro de Malcolm Gladwell (Ponto de Virada, ou Tipping Point), o autor faz uma análise do comportamento viral de ideias, modas, doenças etc. O propósito é analisar os fundamentos dos fenômenos de grande impacto, cujas causas passam despercebidas em nossos diagnósticos. [2]

O autor quer analisar fenômenos complexos e caóticos, buscando uma regra para a identificação e compreensão dos mesmos para, a partir destas, poder prevenir ou aperfeiçoar tais fenômenos. Por exemplo, o avanço de um boato ou a difusão da AIDS na década de 1980, ou a “viralidade” de um vídeo na internet ou a “dancinha da moda”, geralmente difundida por algum jogador de futebol no momento do triunfo sobre o oponente.

Esses fenômenos não têm uma causa particular. O que eles parecem ter em comum é a combinação de três fatores: poucos agentes transmissores ou difusores, a propriedade “adesiva” (grudenta) da comunicação e o ambiente em que se dá a difusão. Gladwell recorre à epidemiologia, a área da biologia e da medicina que cuida dos fatores responsáveis pela difusão de doenças. Nas palavras do autor, são determinantes desses fenômenos a Lei dos poucos, o fator adesão (ou grude) e o poder do contexto.

O que isso tem a ver com inflação?

A inflação é o resultado da interação das decisões de compra e venda de todos os agentes da economia: governo, consumidores e produtores. Ela resulta basicamente de todos desejarem ter mais do que a economia consegue oferecer. É o que chamamos de demandas incompatíveis com a renda nacional, ou conflito pela renda. Empresários sobem os preços para se proteger das pressões dos trabalhadores por maiores salários, enquanto o governo busca se financiar para poder gastar mais e garantir a próxima eleição. Logo, é um fenômeno complexo, que apresenta variadas causas e não apenas uma.

Seguindo os indicadores de Gladwell, convido o leitor a verificar comigo se a aplicação de seu método enriquece nossa compreensão da inflação brasileira.

A Lei dos poucos: os agentes difusores não são muitos. Preços são compostos por vários elementos, custos (insumos e mão de obra), margem de lucro e impostos e as expectativas que os agentes têm sobre o comportamento desses compostos ao longo do tempo. Tomando apenas o aspecto expectacional deles, pode-se dizer que os preços são formados com base em pressões de custo e em expectativas – tanto retrospectivas (olham para trás) quanto prospectivas (olham para frente). Analisamos aqui apenas o aspecto relacionado às expectativas, isto é, a como os agentes interpretam o cenário a partir das informações disponíveis e de suas percepções subjetivas. Podemos utilizar, a títulos de exemplo, um foco recorrente de influência sobre as expectativas. O mercado financeiro alarma o descontrole das contas públicas. A notícia ganha as manchetes da mídia impressa e digital e se espalha pela economia, difundindo o alerta. As expectativas se agitam e passam a incorporar nos preços a deterioração futura do jogo econômico. A corrida dos preços se inicia. Basta um preço subir mais do que o outro, para que os outros preços busquem subir também, para não ficarem para trás.

Todavia, essa condição apenas não dá conta de explicar o problema. Vamos ao segundo item.

Fator Grude ou Adesão: apesar de haver alguma confusão de termos nessa área, podemos dizer que os aumentos de preços são “grudentos”, isto é, uma vez que se iniciou a ideia de que se devem reajustar os preços para se proteger da inflação, o ato vira hábito e se torna propriedade do sistema (como um vírus que se aloja – dormente – em nosso corpo, à espera de uma oportunidade de se manifestar). No Brasil, temos tanto a “inflação gregoriana” (a elevação de vários preços na virada de um ano para o outro) e a indexação de contratos (como mensalidades escolares, planos de saúde, telecomunicações, dentre vários outros preços). Novamente, não basta a ação do primeiro e do segundo fatores. Vejamos o terceiro fator.

Poder do contexto: a inflação no Brasil é inaugurada com a Proclamação da República. A figura do encilhamento em 1891 é bastante instigante como ponto de partida para a compreensão dos conflitos sociais que emergiriam no século XX. O processo de substituição de importações sistematicamente conduzido no pós-Segunda Guerra Mundial até final da década de 1970 impôs transformações severas ao ambiente econômico nacional, tanto no que diz respeito às aspirações de renda da população mais pobre, quanto às possibilidades de obtenção de lucro por parte dos empresários (nacionais e estrangeiros) e de extração de renda, via tributos, da parte do governo. Os anos 1980 e seu rosário de planos de estabilização infundiram na sociedade uma desconfiança arraigada com relação à firmeza e à transparência do governo. É um ambiente econômico historicamente atribulado, dotado de uma memória inflacionária densa que cultiva renitentes temores de que alguma crise vai emergir e que, como sempre, o governo vai encontrar uma forma de “lucrar” à custa de consumidores e de empresários. Como a inflação é o resultado da competição por fatias do bolo econômico, não impressiona a obsessão nacional com esse problema. Ou seja, é um ambiente sensível, à flor da pele.

Uma sugestão de diagnóstico da epidemia inflacionária

Nos últimos anos, a inflação vem flertando com o teto da banda estabelecida pelo regime de metas de inflação. As preocupações com o descontrole inflacionário vêm ganhando vulto, em especial no radar dos analistas do mercado financeiro.

Historicamente, esse setor tem o papel de influenciar a agenda de governo de curto prazo, ou a política macroeconômica. A taxa básica de juros (SELIC), a taxa de câmbio e o resultado orçamentário do governo são os indicadores que compõem o trinômio fundamental das análises desse setor. Estas últimas são as variáveis de controle; a inflação, a variável-sintoma que se busca controlar.

Quando o governo “descuida” de alguma das variáveis de controle, os agentes do mercado (financeiro) recalibram os seus modelos e projetam a trajetória futura de inflação. Esse é o roteiro básico inescapável das discussões semanais sobre política econômica nos jornais. Pode-se adicionar uma novidade ou outra a esse esquema, mas o enredo semanal é este.

Com esse aparato teórico em mente, podemos entender melhor – espero eu – o artigo de José Serra na edição de 13 de março de 2014 do Estado de S.Paulo [3]. Serra salienta que as ações do governo Dilma na área econômica estão diminuindo a imunidade do sistema econômico, tornando-o mais propício à difusão viral do temor inflacionário, por meio da deterioração das expectativas dos agentes econômicos, tanto dentro (analistas domésticos) quanto fora do país (agências de rating). Explico-me.

A frequente alteração das “regras do jogo” eleva a reatividade dos agentes, excitando suas expectativas mais pessimistas. A deterioração da imagem brasileira aumenta o risco de um rebaixamento do Brasil por parte das agências de avaliação de crédito (rating). A realização de tal risco geraria uma fuga de capitais, levando a uma desvalorização aguda do câmbio. A elevação da taxa de câmbio faria com que exportadores ganhassem mais, reduzindo o poder de compra dos trabalhadores, os quais passariam a pagar mais caro pelos bens importados. Os trabalhadores então pressionariam por mais salários em todos os setores. Os empresários ajustariam seus preços para cobrir o aumento de custos oriundos tanto dos bens importados quanto do acréscimo nos salários. O aumento dos preços gruda na economia por meio da indexação dos contratos e da inflação gregoriana. A memória inflacionária se reforça e a inflação sobe de nível.

Como vimos acima, há inúmeras causas para a explosão de um surto epidêmico. O ambiente brasileiro é dotado de persistente memória inflacionária. Nesse regime, a economia funciona bem, com o custo da elevação da parcela de contratos e preços que se tornam indexados. Com isso, a inflação passada se torna, crescentemente, o melhor previsor da inflação futura, reforçando-se o componente de progressão automática da inflação.

Todavia, ainda que isso seja verdade, é preciso haver um choque forte o suficiente para desatar as forças da hiperinflação, como bem o indica Serra, em seu artigo. Portanto, na minha opinião, estamos relativamente bem para direcionarmos nossa energia para a construção do futuro, sem esquecer do passado.

Por fim, carrego a convicção de que um governo que busque desenvolver o país precisa mexer nas regras do jogo econômico, para levá-lo de um estágio a outro. E durante a transição, outras mudanças são necessárias. O plano Real é a prova cabal da assertiva acima. Por isso, não acredito particularmente na explicação casuística de que esse seja um problema em si. Com o esquema acima, a multiplicidade das causas convergem ao pacto em torno da agenda de mudanças, para o qual a comunicação é essencial. E nisso, hemos de concordar, o Plano Real foi exemplar e o atual governo, bem, deixa muito a desejar.

Complementos:

[1]Para uma análise da obsessão nacional pela inflação, clique aqui.

[2 Para uma resenha breve do livro de Malcolm Gladwell, acesse o link.

[3] Acesse por aqui a íntegra do artigo de José Serra.

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