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Minha experiência foi refinando a percepção de que político sem pressão social é como a mente vazia; é a oficina do diabo! 

“Eu não gosto de política. Para mim, político não presta e seria bom explodirmos tudo aquilo de uma vez”, escuto com frequência. Se você é dessa opinião, vamos refletir sobre isso um pouco.

Quem não gosta de política apresenta apreço involuntário pela inconsciência sistêmica. Está sempre a mercê de forças desconhecidas e de experiências avaliadas pela sensação do momento.

O conhecimento do ambiente em que se vive é fundamental para nele executar as tarefas necessárias para uma boa vida. Conhecer as forças que atuam sobre as nossas decisões e sobre os nossos hábitos é fundamental para compreender o destino que nossas vidas tomam.

A literatura da análise de sistemas nos ensina o conceito de “consciência sistêmica”. Segundo essa ideia, nossa mente está projetada para entender cadeias de raciocínio mais imediatas entre causa e efeito.

É comum a reclamação de que, no calor, cada esforço gera um gasto de energia tremendo e, ao final do dia, estamos exaustos. Certa vez, fui visitar um amigo de infância que, à época, morava em Dakar, no Senegal. Meus traços europeus eram salientados pela mancha que o suor avançava sobre minhas roupas. O calor era intenso e, ao final do dia, a sensação de cansaço era grande. A decisão é imediata: procurar abrigo refrigerado.

A cadeia de raciocínio é simples e a decisão, acessível: muito calor -> baixa pressão sanguínea -> cansaço -> buscar atividades em ambientes protegidos do sol (e, de preferência, resfriados pelo ar condicionado).

Por outro lado, é mais difícil agir a partir de argumentos mais amplos, como o aquecimento global, o problema do narcotráfico e o projeto de desenvolvimento de um país. Por quê? Nossas mentes atuam a partir de percepções locais, mediadas fundamentalmente pelos sentidos. O escultor Issac Cordal captou bem a ideia na escultura apresentada em Berlim (na foto abaixo), em que políticos discutem o aquecimento global, enquanto um dos efeitos deste os submerge.

Politicians discussing global warming." by Issac Cordal, Berlin.

Politicians discussing global warming.” by Issac Cordal, Berlin.

Quanto maior a escala das mudanças, mais emaranhadas são as redes de interesses que impedem a transformação. É do próprio jogo político de uma sociedade cada vez mais complexa.

Portanto, é fácil notar que o transporte coletivo “está em crise”, numa cidade como São Paulo, em que a oferta de um quilômetro a mais de metrô gera uma demanda muitas vezes maior por aquele serviço. (Quem utilizou a linha amarela antes da abertura da estação República saberá apreciar a verdade embutida na afirmação anterior.)

A resolução tardia desse problema dá chance a uma série de fenômenos como o desrespeito aos direitos dos idosos, gestantes e deficientes no uso preferencial dos assentos, bem como o avanço dos “encochadores” e potenciais “estupradores” do transporte metropolitano. A verdade mais profunda é que o modelo urbano brasileiro está em crise. O transporte coletivo é apenas uma manifestação localizada desse problema maior.

Assim, quanto menor for a consciência sistêmica, menor é a relação percebida entre o ato individual e seu impacto no ambiente social e natural, e vice-versa. Além disso, fica mais difícil atuar sobre as causas reais dos problemas. Ficamos agindo sobre os efeitos. É como tentar segurar o rio no seu encontro com o mar. Tarde demais!

Como resolver o problema? As propostas são vagas e desordenadas. Padecem de um plano e geralmente vêm embrulhadas pelo nome de “investimento público” ou “educação”

Políticos são executores de ideias sensíveis às vontades explícitas de seus eleitores. Quanto mais claras forem as demandas, mais concentrados são os esforços dos políticos. A passagem de ônibus e metrô em São Paulo e em outras cidades voltaram ao preço anterior às manifestações das ruas no início de 2013. Vontade explicitamente comunicada.

Se os eleitores não têm clareza sobre o que querem e a ordem de prioridades, os políticos seguem seu próprio entendimento, por que ficam livres da pressão direta. O esvaziamento do impacto político das manifestações no Brasil é também sintomático dessa noção.

Por isso, não pode ser tão entediante para as pessoas discutir política. Quem está acostumado a “comprar” a solução para os seus problemas tem pouca paciência para compreender as dificuldades em lidar com os problemas coletivos. Não economizam palavras para criticar os políticos, tampouco fazem a autocrítica de que a ação dos mesmos é resultado indireto de sua omissão.

Diferentemente do calor senegalês, há formas de reclamar por melhorias sociais. É preciso, no entanto, ir além dos problemas privados e compreender a dimensão pública das questões. É imediatamente privado querer retaliação instantânea ao assalto dos larápios. Esta é a esfera dos direitos cidadãos, sempre tão alardeados nos debates políticos superficiais que fazemos à mesa do jantar ou nas conversas de botequim.

Entretanto, é mediatamente social – e, portanto, política – a resolução permanente das causas dos problemas. Eis a esfera do dever. Esta geralmente esvazia a discussão. Afinal, todos são pós-graduados em reclamar, mas poucos se alfabetizaram em propor.

Fica a questão: por onde começar? Pelo aumento/redução do gasto público? Pela redução de impostos? Pelo investimento aumentado em educação e saúde? De onde sai o dinheiro? Aliás, como gastam os seus governos municipal, estadual e federal? [1] (Segue link ao final, em que se discute a composição dos gastos públicos)

Salvemos o país dos políticos por meio da nossa participação fundamentada, mesmo que indiretamente, educando politicamente os que herdarão o Brasil. Para ensinar, no entanto, é preciso se esclarecer. Comecemos hoje mesmo, nem que seja criando o hábito de ler jornais. Só não vale ser apenas a seção de esportes ou a de cultura!

[1] Gasto Público: leia com frequência o blog do Mansueto de Almeida, para ficar antenada(o) sobre as finanças federais e também o portal oficial do Senado Federal apenas para acompanhamento da população.

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