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Venho acompanhando as notícias sobre o Brasil daqui dos EUA e, claramente, a visão estrangeira é muito mais generosa do que a dos nossos comentaristas domésticos. Isso é esperado. Afinal, o mundo desenvolvido está preocupado com a crise deles, que é de demanda resfriada, desemprego elevado e crescente desigualdade. O Brasil é o lado oposto da moeda. Desemprego em baixa leva a salários em alta, com demanda superaquecida e, claro, inflação roçando o teto da meta.

Para o hemisfério norte, inflação é parte da saída, ainda que para arrepio dos alemães. Quando falo de inflação aos europeus e norte-americanos, ele sorriem sem saber muito o que dizer. A cabeça deles está em outro lugar. Mas a minha, não.

A ideia de calcular núcleos de inflação, que removam os efeitos de choques em alguns mercados é antiga. Na década de 1970, Arthur Okun, então conselheiro do Presidente Richard Nixon já havia mencionado a necessidade de tal procedimento. Desde então, os EUA e vários outros países calculam esses dois tipos de índice. É uma boa ideia em si.

Por quê, então, isso seria uma má ideia no Brasil?

Como na comédia, uma boa ideia é uma função do momento (timing, para os anglófilos)O governo vem deixando a desejar na comunicação e na estratégia fiscal. O nível de confiança de grupos poderosos no ministro da Fazenda converge, assim, a zero. Credibilidade decrescente implica expectativas deterioradas, as quais podem se traduzir em aceleração especulativa da inflação.

Assim, alterar mais uma regra, como utilizar o núcleo da inflação como meta para a autoridade monetária, pode sugerir um grau inédito de improviso por parte da equipe econômica e, mais, pode dar a entender que estamos caminhando de volta ao controle dos índices de inflação, em vez de tentar controlar a própria, como correu durante o milagre econômico. A diferença entre os dois períodos seria apenas de 10% a menos de taxa de crescimento!

Portanto, foi acertada a decisão do ministro Mantega de sepultar a ideia, mesmo que ele flertasse decididamente com a mesma nos bastidores. Uma boa ideia carece de um bom momento para se tornar uma ideia brilhante, que ilumine e promova a melhoria. Não estraguemos a ideia, ela poderá ser útil mais à frente.

Bom restante de semana a todas e a todos!

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