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Minha intenção era não falar de inflação por mais dois meses, no mínimo. A fixação brasileira com esse tema converge a um transtorno obsessivo-compulsivo.

Dessa vez, é o sistema de controle de inflação que está sob julgamento (para mais informações, referência [1] ao final). O gráfico abaixo não deixa dúvida de que o sistema de metas inflacionárias tem bastante dificuldade de manter a inflação no centro. (O valor de 2014 é uma estimativa, baseada no Relatório Focus de 25 de abril de 2014).

Fonte: Banco Central do Brasil: www.bcb.gov.br (Histórico das Metas de Inflação)

Fonte: Banco Central do Brasil: http://www.bcb.gov.br (Histórico das Metas de Inflação)

Estaria na hora de mudar a terapia? Definitivamente, não. Vejamos.

Venho argumentando há algum tempo que o problema não é o regime de metas de inflação, mas o que se exige dele. Esse esquema de controle inflacionário é útil, sempre que a inflação resulta de um aumento generalizado de demanda. Ou seja, quando quase todos os setores no Brasil, por exemplo, têm – em um dado momento – mais dinheiro na mão do que existem produtos disponíveis nos valores vigentes, em geral por excesso de moeda ou de crédito na economia.

Se esse é o caso, o regime deveria ter tido um sucesso maior do que o registrado até aqui. Porém, para que essa exigência sobre o sistema faça sentido, não pode haver nenhum choque do lado da oferta perturbando a economia. Se houver, os desequilíbrios se propagam e, como já vimos em outros posts, a inflação aumenta.

Esperar a ausência de choques não-antecipáveis de oferta em uma economia como o Brasil é ingenuidade tremenda. Há desequilíbrios oriundos de outros países, e há aqueles produzidos internamente e que tem caráter apenas parcialmente econômico. Dentre eles: o aumento no poder de barganha dos trabalhadores, a insensibilidade da “nova classe média” a aumentos na taxa de juros, os adversos repasses de oscilações cambiais aos preços dos produtos, a morosidade dos avanços em infra-estrutura e nas áreas de educação e desenvolvimento tecnológico, para citar apenas alguns. Cumpre esclarecer que esses desequilíbrios citados não estão sujeitos a um controle integral por parte do governo federal, muito menos do Banco Central, que lida apenas com o aspecto monetário da economia.

Portanto, o regime de metas de inflação não pode fazer mais do que colocar algumas barragens de contenção para mensurar as investidas das ondas de elevação de preços e devolver com sistemas de drenagem o excesso que superou as barreiras.

Porém, se o nível do mar subir (desvalorização abrupta do câmbio e/ou progressiva desindustrialização) e/ou se a dinâmica das marés se alterar (ampliação do poder dos trabalhadores e avanço acelerado das aspirações de consumo das emergentes classes de renda), os diques apenas atrasarão o desastre incontornável. Eles nada podem fazer para impedir o evento. E, como nos países baixos, não devemos remover as barragens.

O regime de metas de inflação funciona bem enquanto a inflação é baixa e suas causas são predominantemente de demanda. Isso significa que as variáveis que causam a inflação podem ser controladas, ainda que parcialmente, pelo governo. Por isso, nesse regime, os governos têm tão pouco espaço para tentar estratégias novas e ousadas no lado da oferta. Estas geralmente carregam desequilíbrios prenhes de inflação – ainda que temporária.

Também por conta dessa restrição, o sistema funciona tão bem em países que já contam com matrizes produtivas maduras, as quais sofrem mudanças apenas marginais na composição da produção.

O Brasil é um país ainda em processo de rápida mudança, com desequilíbrios sociais e políticos aflorando diariamente em conflitos por fatias da renda nacional que, juntas, superam a soma dos valores adicionados pelo esforço produtivo nacional. O problema é que, nessa dinâmica, há pressões de custo e de origem socio-política e institucional (como a indexação) que não respondem ao instrumento disponível ao Banco Central.

Carregar a mão na taxa de juros pode até segurar a média de avanço dos preços, mas à custa de reforçar desequilíbrios – e deixar outros intocados e ativos – que escapam ao nosso controle, como o influxo de capitais estrangeiros, o ritmo de crescimento da dívida pública, a desindustrialização não compensada por avanço tecnológico, bem como outras variáveis que sabemos desconhecer.

Quando a única terapia aceita pelo paciente não tem substitutos, faz pouco sentido removê-la. Por isso, vale a pena acompanhar a discussão em torno desse tema que, apesar de velho, insiste em nos desafiar.

[1] Acesse a reportagem do Valor Econômico por meio desse link de acesso irrestrito.

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