Nas últimas semanas foram publicadas diversas notícias sobre a crise no setor automotivo. Alguns dizem que é pelo retorno do IPI. Outros, que é devido à obrigatoriedade de air bag e freio abs que passou a vigorar no início do ano. O que é fato é que o setor passa por uma diminuição no ritmo de vendas, acompanhada pelo aumento do estoque das fabricantes.

O Ministério da Fazenda até começa a planejar um pacote de estímulos ao setor. Não se sabe ao certo o que estão preparando, mas a imprensa cogita (i) mudanças institucionais, que facilitem a tomada da garantia pelos bancos em caso de inadimplência, e (ii) a criação de um Fundo de Garantia de Operações, o que aliviaria o impacto de operações inadimplentes nos bancos.

Não existe consenso sobre o motivo de queda nas vendas: se é por restrições de crédito da parte dos bancos, ou se é por queda na demanda dos consumidores. Mas a necessidade de apoio ao setor é quase unânime. E por quê? Por que essa indústria recebe tantos incentivos e estímulos do governo? Tentarei fazer um exercício de análise para explicar a importância dessa indústria utilizando uma das técnicas de Economia Regional: a matriz insumo-produto.

Começarei a análise pelo resultado: para cada carro popular produzido e vendido no Brasil (vamos considerar aqui um carro no valor de R$ 30.000), gera-se um produto adicional na economia de R$ 72.000, ou seja, mais do que o dobro do seu valor inicial. Mas, já que a técnica nos permite, vamos tentar ir um pouco mais além. Em número de pessoas empregadas, cada carro popular vendido garante o emprego de mais de 1 milhão de trabalhadores. Se lembrarmos que a PEA (população economicamente ativa) está em torno de 24 milhões, já conseguimos ter uma ideia do quão importante é a indústria automotiva para a economia brasileira.

E o que está sendo considerado nesses números? Esses resultados nos fornecem os efeitos da demanda adicional de um carro popular sobre todos os setores da economia brasileira. Se um carro a mais é vendido na economia, a fábrica de carros irá demandar 5 pneus a mais (não vamos esquecer o estepe) da indústria de pneus. A indústria de pneus, por sua vez, vai demandar borracha de uma outra indústria para utilizá-la como insumo na sua produção; e assim por diante. Todo esse encadeamento produtivo é levado em consideração na técnica de insumo-produto. E porque dizemos que essa é uma ferramenta de análise da Economia Regional se estou apenas considerando a desagregação setorial? Por que podemos usar a mesma ferramenta desagregada regionalmente. Nesse caso poderíamos calcular quanto a fabricação de um carro em Minas Gerais gera de produto adicional para o estado de São Paulo, por exemplo.

Quando desenvolveu as aplicações de insumo-produto, o economista Wassily Leontief queria ter uma visão prática da economia. Segundo Leontief: “A análise de insumo-produto é uma extensão prática da teoria clássica de interdependência geral que vê a economia total de uma região, país, ou mesmo do mundo todo, como um sistema simples, e parte para descrever e para interpretar a sua operação em termos de relações estruturais básicas observáveis” (1987)

O que Leontief fez foi construir uma estrutura que evidencia como os setores estão relacionados entre si, ou seja, quais setores suprem os outros de serviços e produtos e quais setores compram de quem. O resultado foi uma visão única e compreensível de como a economia funciona – como cada setor se torna mais ou menos dependente dos outros. Por isso as aplicações dessa técnica nos trazem resultados tão interessantes – porque podemos descobrir não só quanto vale uma indústria individualmente, mas também como ela afeta toda a estrutura produtiva do país.

As matrizes de insumo-produto são usualmente apresentadas pelos órgãos estatísticos (no nosso caso o IBGE). Mas como as últimas matrizes divulgadas pelo IBGE são de 2005, utilizei aqui as matrizes estimadas pelo professor Joaquim J.M. Guilhoto (disponíveis em http://guilhotojjmg.wordpress.com/ ), que são computadas com base nas Contas Nacionais publicadas em 2011.

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