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Estudantes do mundo inteiro entraram em polvorosa a partir da crise de 2008, exigindo uma ciência mais atrelada aos problemas reais da economia. O movimento ganha força e exige uma reformulação do currículo do curso e tem sido amplamente divulgado na imprensa mundial. Vejamos o que se passa.

A ciência econômica convencional tem algo de triste. Ela fala de escassez e de escolhas repletas de custos revelados e escondidos. Trabalha com taxas “naturais” e restrições macroeconômicas. Exige que se conheça estatística e muita matemática. Juntando as duas, exige ainda econometria para tentar verificar se a teoria utilizada explica o que se observa.

Os cursos modernos de economia ensinam basicamente ciência econômica convencional e disciplinas acessórias e afins. Ciência econômica é constituída basicamente por micro e macroeconomia e ferramentas econométricas. As disciplinas acessórias cobrem desde a sociologia econômica, passando por história econômica geral e do Brasil, história das ideias e, por vezes, uma leitura dirigida dos clássicos fundadores da economia.

Qual é o problema, então?

Como em toda profissão, existem divisões internas quanto ao que se deve priorizar em termos de objetos de estudo e, particularmente, como se deve estudar esse objeto. A ciência econômica utiliza uma abordagem específica, formalmente matematizada e deriva as conclusões gerais a partir de axiomas (pontos de partida lógicos indiscutíveis) sobre o comportamento dos indivíduos e como eles tomam suas decisões. Na franja da profissão, estão os economistas que acreditam na centralidade da história, na precedência lógica e histórica da regras sociais sobre o comportamento dos agentes, na noção de que os agentes não são racionais a todo o momento e que imaginar que eles otimizam é atribuir-lhes capacidades cognitivas heróicas.

O que se chama de “corrente principal” (mainstream, em inglês) envolve um conjunto de pesquisadores que partem da pressuposição de que os agentes são racionais e escolhem com base nas restrições que enfrentam na vida, como por exemplo, limitações de dinheiro, de habilidade profissional, de tempo etc. O objetivo é explicar os resultados sociais partindo do comportamento dos indivíduos (em metodologia econômica, damos a isso o nome de individualismo metodológico).

Dois exemplos simplificados da abordagem principal

1) O desemprego atual dos EUA e da Europa é explicado com base na escolha do trabalhador, que busca otimizar a combinação entre lazer e trabalho. Como trabalho é um “incômodo”, um “pedágio” que se paga para poder desfrutar de lazer, o desemprego é logicamente explicado pela decisão do trabalhador de que vale mais a pena ficar em casa do que trabalhar por um salário tão baixo. O lazer vale mais do que o salário. O trabalhador fica em casa. O desemprego cresce.

2) Parte-se da hipótese de que os mercados são mecanismos eficientes de coordenação dos agentes. Logo, quanto menor for intervenção governamental no livre jogo das negociações, mais eficiente é o resultado. É claro que há situações em que o governo pode ser convocado a melhorar o resultado social (por exemplo, oferta de bens públicos como corpo de bombeiros, exército profissional, iluminação pública etc.), mas trata-se de exceções que provam a regra: a supremacia do mercado. Apesar de provada logicamente pelos teoremas do bem-estar, essa hipótese exige condições bastante específicas para a obtenção de sua validade. Porém, quero ressaltar que essa abordagem foi amplamente utilizada ao longo do processo de desregulamentação dos mercados financeiros. Tal processo deixou os bancos de investimento e as corretoras de valores livres para criar mecanismos financeiros de alto risco. Apesar de reiteradas advertências vindas da “franja” da profissão, alegava-se sempre que o mercado daria conta de diluir o risco, afinal se alguém está vendendo um contrato, alguém está comprando. Portanto, o sistema está apenas alojando risco. No final, daria tudo certo. Não deu.

E agora, José?

O movimento prega a inclusão das abordagens da “franja”, aglutinados sobre o rótulo de “heterodoxos”, ou seja, os que diferem da corrente principal. Abordagens pós-keynesiana, marxista, neoricardiana, institucionalista, austríaca, dentre outras, partem de pressupostos diferentes e chegam, portanto, a conclusões diferentes sobre como funciona a economia e sobre quais medidas de intervenção (ou não) devem ser tomadas. (Detalhes ficam para um post futuro).

Todas as abordagens são teóricas e reduzem a realidade a um conjunto simplificado e limitado de conexões lógicas. A questão é: o seu ponto de partida importa? O movimento alega: Sim, importa, e muito!

Todavia, é preciso entender cuidadosamente o significado do movimento. Ao que tudo indica, o pleito é por mais pluralismo e não por extinção do mainstream. Ou seja, busca-se inserir outras abordagens na matriz de disciplinas obrigatórias. O problema é que o curso já é extenso e com elevada carga teórica. Escolhas deverão ser feitas.

Sobre o Brasil

Como sempre, aqui no Brasil, as coisas são diferentes. Há um espaço grande concedido aos economistas heterodoxos com redutos em centros relevantes como a USP (minoria), a UNICAMP e a UFRJ. Ainda não sei exatamente se a participação do Brasil no movimento tem um motivação interna ou vai na corrente mundial da tentativa de transformação.

Deixo aqui, portanto, a pergunta aos estudantes de economia e quem quiser comentar: qual a sua opinião sobre a formação atual do economista? Precisa de mudança radical ou está bom desse jeito?

– Artigos relacionados ao movimento, com mais detalhes e informações:

1) No Brasil, aqui. Sugestões do Prof. Mauro Rodrigues da FEA-USP no blog Economista X, sobre possíveis mudanças na grade curricular do curso.

2) Na mídia internacional, aqui e aqui.

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