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Olá! Eu sou Juliana Inhasz, e começo hoje minhas contribuições ao blog, feliz e honrada pela oportunidade de debater a economia na prática. Apesar de um viés claramente macroeconômico (minha formação, da graduação ao doutorado, transitou sobre a macroeconomia), faço minha estreia flertando (quem diria?!?) com a microeconomia…

Nas últimas semanas, o ministro Guido Mantega se pronunciou sobre o adiamento do reajuste dos tributos incidentes sobre as bebidas frias. O reajuste médio, adiado para meados de setembro deste ano, deve elevar o preço das bebidas em até 12% nos bares e restaurantes. A decisão de retardar o reajuste, inicialmente previsto para maio, acontece em linha com a necessidade do governo em conter os preços (já que este vê na elevação dos preços das bebidas uma importante fonte para o aumento da inflação), a manutenção do investimento e emprego no setor (as quatro maiores fabricantes do setor mostraram-se inclinadas a rever investimentos e postos de trabalho caso o reajuste aconteça de fato), além da própria Copa do Mundo.

Independente de quais sejam os verdadeiros motivos para tal decisão, me peguei imaginando nestes dias quais seriam seus efeitos neste período durante a Copa. Pensando de outra forma, será que realmente a decisão de postergar o aumento dos tributos é racional do ponto de vista econômico? Do meu ponto de vista, a resposta é não. Abaixo, listo meus motivos para crer que, economicamente, seria ótimo ajustar tais preços no momento atual. Já adianto que no rodapé encontram-se referências sobre algumas reportagens que falam sobre o assunto.

Comecemos pelo lado negativo. É fato que, caso os preços aumentassem às portas do evento, talvez a imagem da economia brasileira seria arranhada, como se estivéssemos incorrendo em um grave pecado. Não, reajustes tributários não são anomalias. Todas as economias os fazem, em maior ou menor escala, e estes são consequências da política econômica (aqui, sem juízo de valor algum, mas apenas expondo fatos).

Mas nesse caso, pontualmente, o problema não seria o ajuste das tarifas em si, e sim a contradição que isso geraria entre a imagem sólida e confiável que o país tenta passar e a realidade da política econômica brasileira, cheia de imperfeições e fraquezas. Isso, aliado às demais críticas sobre os gastos públicos brasileiros (sim, os gastos com a Copa ainda incomodam muita gente), faz o cenário propício para questionarmos até que ponto o governo tem controle na condução da economia brasileira.

Mas mais interessante ainda é pensar qual é, financeiramente, o ônus e o bônus de tal decisão. Afinal, o que o governo ganha com essa ação? E o que perde? Qual é o sinal final desta conta?

O benefício, neste caso, é relativamente claro. Com a postergação do reajuste, é possível conter uma parcela da pressão sobre os preços, segurando parte da inflação. A pressão existente sobre a condução da política econômica fica, na cabeça do governo, pra depois da Copa, e dá fôlego para que se pensem em outras justificativas para o descontrole de preços (e o debate sobre controlar ou não preços administrados eu deixo para os ministros Mantega e Mercadante fazerem em público). Entretanto, não podemos nos esquecer das tão esotéricas expectativas: diz-se que, se os agentes são racionais e conseguem antecipar as ações do governo, eles poderiam se antecipar às medidas futuras, e neste caso o aumento dos preços esperados leva ao aumento dos preços já no período atual. Hum, será que o tiro pode sair pela culatra?

O custo também parece claro. Com a decisão de postergar o reajuste, o governo abre mão de uma receita adicional que, creio eu, não seja pequena. Afinal, qual será a elasticidade-preço da demanda das bebidas? Para os turistas (domésticos ou não) que virão curtir a Copa, certamente muito baixa…  e mesmo sem dados científicos para comprovar tal tese, basta pensarmos o que ocorre quando viajamos para cidades turísticas a passeio. Quase que na totalidade das vezes nos deparamos com preços mais elevados. Nem por isso deixamos de consumidor bens e serviços locais… afinal, pra quem está na chuva é inevitável se molhar!

Portanto, postergar o reajuste só acarreta aos cofres públicos uma redução de receitas, com dúvidas pontuais sobre o real efeito do controle de preços. Os benefícios parecem muito pequenos, e extremamente desvantajosos. Atrasar o aumento para depois da Copa só faz, no meu ponto de vista, com que os brasileiros arquem com uma parte ainda maior de custos (senão sua totalidade), que pode chegar muito antes do previsto. Pode ser que as expectativas atuem no sentido de elevar os preços mesmo antes do reajuste se efetivar, e neste aspecto o resultado final pode ser um aumento de preços superior àquele previsto caso o reajuste acontecesse, de fato, em meados de maio. Mas, enquanto os preços não aumentam, o jeito é aproveitar… E aí, vai um chopp?

 

Notas:

http://exame.abril.com.br/economia/noticias/governo-aumenta-tributacao-sobre-bebidas-frias

http://www.fazenda.gov.br/divulgacao/noticias/2014-1/maio/governo-adia-recomposicao-de-tributos-sobre-bebidas-frias

 

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