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Enquanto nos países em desenvolvimento a inflação oscila em torno de uma taxa anual média de 6%, a Europa se vê acossada pelo espectro de uma deflação (figura abaixo). O Banco Central Europeu anunciará hoje uma taxa de juros de 0,15% ao ano, com uma novidade: taxa de juros negativa para os bancos que deixarem dinheiro depositado no Banco Central.

Deflação na Europa - Vários países - Fonte: Eurostat. Publicado no The New York Times - 3 de junho de 2014.

Deflação na Europa – Vários países – Fonte: Eurostat. Publicado no The New York Times – 3 de junho de 2014.

Por quê? Bem, os bancos estão com medo de emprestar, devido à crise que se estende. Com isso, as empresas têm problemas em gerar receitas, o que aumenta a chance de elas darem um calote nos bancos. Resultado: tem um montão de dinheiro parado na conta corrente que os bancos têm no Banco Central Europeu. Para “incentivá-los” a emprestar o dinheiro, o Banco Central vai cobrar uma “taxa” sobre o dinheiro que não estiver circulando na economia; por isso, uma taxa de juros negativa. Bom, vejamos o problema mais de perto.

O que é uma deflação, afinal?

Bem, é o inverso da inflação. É quando os preços caem. Mas não basta cair uma vez. Deflação é a queda consistente e sistemática dos preços. Não há deflação de produtos específicos. Deflação é um fenômeno macroeconômico em que a média dos preços fica caindo por um bom tempo.

Para o brasileiro, esse é um “bicho” esquisito. Você pensará: “Que maravilha! Preços caindo, meu dinheiro valendo mais, tudo de bom!”. Olhemos com cuidado a questão.

É verdade que quando os preços caem o dinheiro tende a valer mais e isso gera algum efeito positivo em termos de consumo (conhecido como “efeito Pigou”). Por outro lado, a margem de lucro dos empresários cai com a queda dos preços. Na impossibilidade de reduzir os salários dos empregados, estes devem ser demitidos para reduzir custos. A redução da renda dos trabalhadores leva à queda do consumo, o que piora as receitas dos empresários. Eis um dos círculos viciosos.

Outro problema vem com os pagamentos das dívidas já contraídas. Como a dívida é contraída em valor fixo, a mesma quantidade de dinheiro deve ser paga. Se você continua ganhando a mesma coisa, você consegue pagar. No entanto, o dinheiro que você está transferindo a quem lhe emprestou agora vale mais (exatamente por que os preços estão caindo!). Portanto, você está transferindo poder de compra ao credor transferindo a mesma soma de dinheiro. Devedores perdem e credores ganham.

As coisas ficam mais sérias no caso de um empresário que vê suas receitas diminuindo por conta da falta de demanda. Isso o obriga a reduzir preços para desovar o estoque de bens produzidos. No entanto, ele continua pagando o cada vez mais rico dinheirinho na forma de juros sobre a dívida já contratada. Resultado: reforça-se a necessidade de demitir funcionários, diminuir o ritmo da produção e, talvez, fechar a empresa. Quando esse problema se alastra, a deflação se torna uma força avassaladora.

O que se pode fazer em reação a isso? O Banco Central deve baixar a taxa de juros e prometer salvar os bancos em caso de os correntistas não honrarem seus compromissos. O Banco Central injeta dinheiro nos bancos, esperando que os mesmos façam circular o dinheiro na economia, reavivando o organismo econômico. Mas, a história não acaba aqui, infelizmente.

Uma taxa de juros baixa não significa que o empresário vá investir, mesmo se ela estiver em patamares negativos. Se a expectativa de que as coisas vão mal estiver espalhada, ninguém vai querer correr o risco de investir dinheiro e, depois, ver tudo ir por água abaixo. Veja, em meio a uma recessão, os consumidores tendem a comprar menos, seja por que estão desempregados, seja por medo de serem demitidos. O empresário não tem confiança, fica desanimado perante o perigo do naufrágio. O medo vence o entusiasmo! É o que Keynes chamou de “armadilha da liquidez”.

Em resumo, é uma sinuca de bico. O Banco Central Europeu está tentando reduzir a taxa de juros para patamares negativos para que qualquer investimento que dê retorno zero seja melhor do que deixar o dinheiro no banco. É mais uma tentativa de dar um tranco na economia europeia. Vejamos no que vai dar.

 

Artigos no New York Times: o de hoje sobre a medida do Banco Central Europeu e o do dia 03 de junho de 2014.

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