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Lembro-me de ter escutado de uma turista espanhol, em 2010, que havia ficado feliz com a escolha do Brasil para sediar a copa, pois o país precisa mais dela do que a Europa e os Estados Unidos já que seríamos, na visão dela, um país pobre. Fiquei quieto pois achei desnecessário estragar a visita a um belo museu com esse debate. Quatro anos depois, às vésperas do início da Copa do Mundo, o Brasil está em polvorosa! É comum a ansiedade e a angústia que precedem eventos vultosos. Mas, não vejo motivo para culpar esse evento em si.

A Copa do Mundo será um evento eletrizante. Não será nos padrões europeus, por que nossas cidades e nosso povo são diferentes. Não terá a assepsia dos estádios alemães nem o maravilhoso sistema de transporte coletivo deles (que atrasa bastante, diga-se de passagem). Não será um período fácil de lidar: trânsito mais denso, transporte coletivo lotado em dias de jogo, internet caindo por excesso de movimentação; enfim, traços do nosso estágio de desenvolvimento socioeconômico.

Mas, no fim, brasileiro adora futebol – nem que seja para observar os que realmente amam o esporte – e o evento estará bem perto geograficamente (e, dados os astronômicos preços dos ingressos, muito distantes economicamente). Estará na atmosfera local. E não adianta espernear.

(Se você não gosta de futebol, há bibliotecas públicas com inúmeros livros, documentários e revistas disponíveis. Eles serão o refúgio do bombardeio midiático e virtual de informações sobre a Copa.)

O país respirará futebol e inevitavelmente a Copa vai contagiar até mesmo os que se esgueiram pelos arbustos da crítica política de ocasião. A Copa é um bode expiatório de várias insatisfações e não vejo problema algum em setores pressionarem por aumentos de salário bem próximo ao evento. As empresas envolvidas na construção da infraestrutura para o evento vem exercendo a mesma pressão há 7 anos, só que de forma menos visível. A Copa faz parte da política nacional. É um resultado de nossas instituições. Somos brasileiros e aqui as coisas funcionam dessa forma, para o bem e para o mal!

A política do futebol é como qualquer outro agrupamento humano em torno de um objeto ou uma prática específica. Ela é repleta de descaminhos, de meias verdades, de hierarquias obscuras e jogos de poder nos bastidores. Entramos no jogo em 2007 e, pelo que me lembro, ficamos um tanto contentes com a ideia.

Mas “ideia” está, como diz o nome, no plano ideal. Tudo é possível no reino da imaginação. É a conversão para a realidade que se mostra árdua. E trilhamos um caminho importante de autoconhecimento como Nação. E acredito que aprendemos muito. Se vamos fazer uso desse aprendizado, apenas o tempo poderá dizer.

O Brasil não vai fracassar na organização do evento. Por quê não? Por que não é mais possível que isso ocorra. Há muito em jogo para o Governo, cartolas e empresas envolvidos nos bilionários esquemas de atraso calculado nas obras para forçar liberação excepcional de verbas públicas ou de empréstimos do BNDES.

Esse é o nosso Brasil, terra da cordialidade e do respeito manso às hierarquias seculares. É o país do “atalho” e do “jeitinho” que permuta esforço por simpatia, mérito por laços pessoais. A Copa terá nossa cara: repleta de todos os estereótipos necessários para a devido consumo internacional do evento.

Somos o país do futebol, infelizmente. Pessoas de outros países me perguntam se isso é verdade. É possível ler em suas expressões faciais o receio de que eu fique ofendido com a pergunta. Será projeção do sentimento deles sobre mim? Talvez ficassem ofendidos se o mesmo fosse pensado sobre o país deles.

Não fico ofendido. O Brasil é muito mais. Que a Copa nos faça refletir sobre isso.

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