Um professor de economia de Harvard perguntou a 5.000 norte-americanos como eles pensavam que era a distribuição de renda do país. O professor também perguntou para cada entrevistado qual seria a distribuição de renda ideal. E apesar de ser uma das economias mais desenvolvidas do mundo, a percepção das pessoas em relação à distribuição de renda ainda é muito distante do que elas julgam ser a distribuição ideal. Mas esse não foi o ponto mais surpreendente da pesquisa. O que espanta é que a verdadeira distribuição de renda do país é muito mais distorcida do que os norte-americanos julgam. O 1% da população mais rica de fato concentra mais renda do que os 20% mais ricos deveriam acumular no conceito de distribuição de renda ideal concebido pelos próprios norte-americanos.

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Essa pesquisa é apresentada em um vídeo com infográficos didáticos e de certa forma bem chocantes (vale a pena conferir – o link está ao final do texto). E porque resolvi trazer esse tema ao blog? Para tentar melhorar a nossa percepção sobre a distribuição de renda na cidade de São Paulo.

Recentemente, durante uma reunião, escutei de pessoas com boa formação, mas não tão ligadas à realidade, que grande parte das pessoas que viviam nas favelas de São Paulo tinham renda de pelo menos R$ 5.000 por mês. Fiquei indignada ao escutar essa declaração, e me lembrei dessa pesquisa feita nos Estados Unidos. Vamos então analisar qual é a realidade da distribuição da renda das pessoas que vivem na cidade de São Paulo.

O Centro de Estudos da Metrópole, uma instituição de pesquisa avançada em ciências sociais, desenvolveu um projeto chamado “Mapa da vulnerabilidade social e do déficit de atenção a crianças e adolescentes no Município de São Paulo”. Eles usaram como base de dados o Censo de 2000, e reduziram os 13.193 setores censitários da cidade em quatro tipos, classificados de acordo com a dimensão socioeconômica das famílias. Para quem ainda não está familiarizado com dados econômicos desagregados regionalmente, o setor censitário é a menor unidade de coleta de dados que o IBGE utiliza para obter informações a respeito das pessoas. Em cada um deles moram em média 250 famílias, aproximadamente 1.000 pessoas.

O mapa abaixo apresenta a distribuição do fator de privação socioeconômica do Município de São Paulo. Os setores censitários que possuem alta dimensão de privação possuem, simultaneamente, baixos níveis médios de renda e educação, alta proporção de famílias muito pobres, alto número médio de habitantes por domicílio, alta proporção de mulheres com pouca escolaridade como responsáveis pelo domicílio, além de alta proporção de adolescentes.

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Nota-se claramente que não é necessário se afastar muito do centro expandido da capital para atingir níveis de média a alta privação socioeconômica. E para ter uma idéia do que isso representa em termos de renda, mais de 40% dos chefes de família no grupo de média privação tem renda de até 3 salários mínimos. Nos grupos de alta privação, esse percentual pode chegar a 75%.

A maioria dos leitores deste blog certamente tem uma percepção melhor do que alguns dos meus colegas sobre a distribuição de renda na cidade de São Paulo. Mas assim como foi constatado dos norte-americanos, e assim como aconteceu comigo, a nossa percepção de como é a distribuição de renda onde vivemos costuma ser melhor do que de fato é verificado nos dados. E esse mapa desenvolvido pelo Centro de Estudos da Metrópole certamente nos ajuda a elucidar que a realidade socioeconômica das pessoas que vivem nessa cidade pode ser muito mais dura do que imaginamos.

Vídeo da pesquisa feita nos EUA

Mapa da Vulnerabilidade Social – CEM

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