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Dilma tem seu segundo mandato ameaçado antes mesmo de começar a campanha eleitoral. Sua aprovação vem piorando de forma consistente, como mostra o gráfico abaixo.

Datafolha-Rejeicao-11-16jul2014

Nesse artigo, ofereço um esquema teórico bem simples para entender como a presidente e o seu partido podem se tornar vítimas de seu alardeado “sucesso”, por conta de um esgotamento de seu “projeto” de mudança social. Ao atuar na elevação do padrão de vida de milhões de brasileiros, os três mandatos do partido mexeram num terreno áspero. É um crime sem culpados, pois faz parte do ciclo normal da política, dentro da trajetória mais ampla do desenvolvimento econômico.

Quanto mais se melhora a vida do povo, mais demandas surgem. Se o ritmo de realização não estiver no compasso dos anseios, gera-se uma dissonância indesejada e desconfortável. Podemos organizar essa máxima na seguinte fórmula:

formula insatisfacao popular Se a média dos anseios da população (numerador) é maior do que a percepção de atendimento das mesmas (denominador), a insatisfação é maior do que zero. Quando o Estado se antecipa aos anseios da população, o denominador da expressão aumenta, diminuindo a insatisfação popular. Com isso, aumenta-se a (ou reduz-se o ritmo de queda da) aprovação do governo do momento.

É importante saber o que determina o nível médio de anseio, para tentar se antecipar ao seu crescimento por meio de políticas eficazes e amplamente divulgadas. Porém, tal conhecimento em nada serve a um governo se este não dispuser da possibilidade (ou capacidade) de efetivar as realizações exigidas em qualidade e quantidade necessárias.

Por isso, a publicidade das ações do governo é tão importante. Quanto mais estiverem no ouvido do povo, maior é a percepção de que o governo realiza as demandas populares. (O fenômeno “propaganda” ocorre quando tais realizações são vazias e servem apenas para inflar artificialmente a aprovação do governo.)

O caso de Dilma é interessante porque revela as intricadas relações entre o numerador e o denominador da expressão matemática desenhada acima. Mas, para melhor entender seu dilema, voltemos um pouco no tempo.

FHC é eleito no primeiro turno das eleições de 1994 e ganha novamente em 1998. As reformas estruturais dos anos 1990 reprimiram a expressão dos anseios por meio da elevação do desemprego (o numerador não subiu), enquanto o Plano Real aumentava o poder de compra de todos os brasileiros (denominador cresceu). Com o passar dos anos, todavia, a mesma “estabilidade” monetária fez os anseios crescerem enquanto reduziu-se o ritmo de realizações “percebidas”. Serra perde, então, para Lula em 2002.

Lula é ajudado pela bonança do setor externo (que nos afoga em dólares) e empreende uma política econômica convencional (taxa de juros e superávit fiscal elevados), enquanto gradualmente promove gastos sociais polpudos. A percepção de realização é tão alta que a população não se deixa levar muito pelo escândalo da compra de votos no Congresso (o mensalão petiste) e o reelege em 2006. A crise de 2008 afeta negativamente a aprovação do segundo mandato de Lula, mas não impede a eleição de sua sucessora.

Dilma assume o governo no final de um ciclo de expansão das “realizações” (denominador da fórmula). Nesse estágio, observa-se um aumento dos anseios: tanto da população mais carente quanto das classes mais abastadas que se veem como “financiadoras” das políticas “bem-sucedidas” do governo (eleva-se o numerador); ganha força a noção de que se paga muito imposto e se tem muito pouco em troca (celebrada, dentre outras, nas manifestações de junho de 2013).

A Copa do Mundo mostrou realizações do governo (denominador), mas aumentou em maior proporção a demanda por serviços públicos no “padrão FIFA” (numerador). Com isso, Dilma cai ainda mais no conceito geral da nação.

Dilma entrou numa fase difícil e não tem tido sucesso em comunicar suas realizações à nação. Motivo: o coro dos insatisfeitos é cada vez mais volumoso. De certa forma, o PT é vítima de seu amplamente divulgado “sucesso” anterior.

Como nos esportes de alto rendimento, um governo que apresenta resultados de vulto (por vezes, exagerado), é instado a manter-se produzindo-os copiosamente. Esta é o desafio que acompanha o poder e os esportes populares. Não basta chegar ao poder ou ser o melhor. É preciso saber manter-se lá.

Não se pode ignorar a máxima do Marquês de Talleyrand, notório conselheiro de Napoleão Bonaparte e sobrevivente político do regime que naufragou com a Revolução Francesa: “O poder despreza aqueles que não sabem ocupá-lo”.

 

Texto adicional:

[1] Texto do Prof. Cláudio Gonçalves Couto sobre a dimensão política dos debates estimulados pelo Copa do Mundo, aqui.

[2] Texto do Prof. Glauco Peres Silva sobre o efeito do resultado da Copa do Mundo no blog Entrementes.

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