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Com a súbita morte de Eduardo Campos, as eleições caminharam para uma trajetória de aflitiva e surpreendente imprevisibilidade. A ascensão de Marina Silva nas pesquisas de intenção de voto tem renovado a esperança de muitos que esperam uma renovação da política. Não me é claro o que isso quer dizer. Porém, o característico messianismo tupiniquim exige uma boa dose de “frases de efeito” com substância dispersa.

Ao gosto do “cada um entenda o que quiser entender”, esperam-se os milagres das transformações sociais e políticas sem custo e sem dor. Política é terreno de coalizão; é também seara de combate. Polarizações não refletem necessariamente retrocessos, da mesma maneira que a seta da história não está obrigatoriamente carregando aqueles que se auto-intitulam “sínteses” de opostos.

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O fenômeno Marina Silva tem roupagem nova, mas é bem antigo. “Padins Ciço”, Getúlios, Juscelinos, Tancredos, Collors e Lulas refletem uma cultura da cordialidade extremada baseada numa visão religiosa bem peculiar da mudança social. O ex-ministro da Fazenda Pedro Malan sintetizou bem essa mentalidade quando disse que todo problema complexo geralmente encontra, nesse contexto, uma solução simples, errada e que tem alguma coisa a ver com vontade política.

A vagueza dos discursos políticos infelizmente ainda encontra ressonância na mente de muitos brasileiros politicamente infantilizados pela cultura pop de telenovelas, futebol, notícias rápidas (e desconexas) e jogos virtuais.

É interessante notar que há poucas situações em que direita e esquerda concordam com algo. Por meio de editoriais e colunistas, tais lados do espectro político vêm manifestando preocupação com a escalada meteórica de Marina Silva. Obviamente, há interesses envolvidos nessas análises. Até aí, há interesses embutidos em todas as análises.

Da minha parte, gosto do que Marina representa como ideia, como indicação de rumo. Sua trajetória política é admirável. Infelizmente, ao descer do plano das ideias, a consistência de suas apregoações se esboroa.

A política tem por hábito fertilizar com boas ideias os interesses de grupos sociais. Nesse caminho, concessões exigem ajustes no discurso. O programa do candidato vai se construindo. As belas ideias tornam-se reais: repletas de remendos e correções textuais. O ideal se transmuta em concreto; o etéreo em matéria imperfeita.

Repito, gosto da Marina Silva e respeito muito toda a sua trajetória. Acredito que ela ainda pode contribuir muito para o avanço do Brasil. Minha impressão é de que assumir a presidência pode impedi-la de cumprir tal missão.

No próximo artigo, prometo falar de coisas que desconheço menos.

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