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Essa eleição sem dúvida terá um peso histórico muito grande. Nossa democracia representativa é muito jovem e considero a batalha ideológica que tem sido travada nos debates que tenho visto muito positiva. Estão colocados na mesa dois projetos de país distintos.

O projeto do PSDB defende a diminuição das despesas públicas e dos investimentos em políticas sociais, a redução da participação dos bancos públicos no financiamento da economia, um alinhamento geoeconômico mais efetivo com os EUA e uma política rígida de controle da inflação (mesmo que para isso medidas impopulares como o congelamento do salário mínimo sejam necessárias).

O projeto do PT defende a manutenção dos gastos públicos com as políticas sociais (que são essenciais para que a mobilidade social seja possível), o protagonismo do Estado e dos bancos públicos como fomentadores dos investimentos na economia, uma política de valorização do salário mínimo, e um alinhamento geoeconômico que embora tenha relações comerciais importantes com os EUA e com a União Europeia, manterá uma orientação bastante voltada para as relações com os países em desenvolvimento (especialmente América Latina e África) e para os BRICS (haja vista a criação recente de um banco junto com a Rússia, China , Índia e África do Sul) como já vem ocorrendo desde o governo Lula.

Porque acredito mais no projeto do PT?

A maior parte dos países capitalistas desenvolvidos (especialmente os europeus) tornou-se desenvolvido a partir da conjugação entre crescimento econômico e promoção de bem-estar social. Isso pôde ocorrer nesses países através da concomitância entre a manutenção de taxas de crescimento econômico estáveis e a realização de grandes investimentos públicos em políticas sociais.

Em boa parte dos países desenvolvidos para os quais os eleitores do PSDB babam ovo, o Estado foi o grande promotor das condições de bem-estar social, logo, chega a ser uma incoerência, que eles votem em um partido que prega a redução do papel do Estado. Seguro-desemprego, licença-maternidade, direitos trabalhistas, altas taxas de impostos para grandes fortunas e muitas outras coisas que dão calafrios nos economistas liberais, são realidade comum em boa parte dos países desenvolvidos desde a II Guerra Mundial.

A diferença central entre tais países e o Brasil, em meu entendimento, é que nesses países o Estado assumiu o compromisso de investir pesadamente em serviços públicos. Tudo aquilo que dá dignidade para as pessoas e cria condições de cidadania efetiva foi priorizado. No caso do Brasil, o acesso aos direitos sociais (especialmente educação, saúde, emprego e moradia, que são os quatro principais em meu entendimento) é muito precário, e na maior parte dos casos em que as pessoas têm acesso efetivo a esses direitos, elas pagam por isso.

A falta do Estado em prover adequadamente esses direitos fez com que eles se tornassem mercadorias (imagine o gasto que as famílias brasileiras têm hoje com planos de saúde privados e educação privada) e com que a própria experiência de “cidadania” tivesse como pressuposto o consumo de serviços privados, e não o acesso a bens públicos universais. Uma boa parte da clivagem que existe entre o eleitorado do PT e do PSDB nessa eleição tem relação com a dependência maior ou menor do eleitor em relação aos serviços públicos.

Acredito que os três governos do PT deram passos bastante importantes para a ampliação dos gastos públicos na área social. A pobreza extrema diminuiu, os programas de transferência de renda foram bem sucedidos (até o PSDB e o Banco Mundial reconhecem isso e falam bem do Bolsa Família), o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU e Dilma conseguiu fazer o congresso aprovar 75 % dos royalties do pré-sal para a educação.

A experiência histórica recente das sociedades capitalistas mostra que onde o Estado não investiu pesadamente em serviços públicos de qualidade foi impossível gerar a conjugação efetiva de crescimento econômico com desenvolvimento social. Nenhum dos poderosos países europeus tornou-se o que é reduzindo o papel do Estado. Mais do que nunca é preciso negar o dogma tão forte professado por alguns economistas ortodoxos de que o crescimento econômico por si só é capaz de promover o desenvolvimento social (se fosse assim, a China seria próspera como a Suécia).

A situação atual do Brasil é a prova empírica mais cabal de que isso não é verdade (basta lembrar que nosso PIB é o 7º do mundo e nosso IDH é o 79º). Claro que o crescimento econômico é importante como tem apontado recorrentemente o Aécio, porém, crescimento sem justiça distributiva, não é suficiente para promover um desenvolvimento social efetivo.

O Estado brasileiro, nos três governos do PT, ao investir mais nos serviços públicos (que continuam muito distantes de serem bons, eu reconheço) e ampliar as condições de mobilidade social das pessoas (através da expansão do acesso à educação por programas como o Prouni, e da expansão do acesso a uma renda mínima através do Bolsa Família) tem enfrentado de forma efetiva a perversa estratificação social do Brasil e melhorado as condições de inclusão de milhares de pessoas.

Os eleitores do PSDB, que veem como um exemplo de “civilização” as políticas sociais dos países europeus (e que quando para lá viajam adoram sair por aí dizendo que o Brasil é um país atrasado), estranhamente acham que no caso brasileiro elas seriam sinal de “atraso” ou um simples resquício de “populismo neo-getulista”.

Se fossemos levar isso a sério, o “Welfare State” dos países europeus, que criou as condições sociais para a emergência de algumas das maiores, mais poderosas e mais competitivas economias capitalistas do mundo, como a França, a Alemanha e a Inglaterra, seria um sintoma de atraso também. Em um país em que os serviços públicos ainda são tão precários, e em que existe um déficit tão grande de acesso aos direitos sociais, defender a redução do gasto público, como faz o Aécio, me parece uma irresponsabilidade social e um retrocesso histórico.

Outra coisa que os eleitores do PSDB falam bastante é sobre corrupção. Todos os grandes partidos estão envolvidos periodicamente com corrupção, dentre os quais, o PSDB é dos mais assíduos no envolvimento. Nunca neguei que o PT estivesse envolvido em casos de corrupção. Em qualquer país do mundo que possui uma burocracia pública típica de um Estado-Nacional moderno a corrupção acontece. Se você levar a questão da corrupção às últimas consequências não poderá votar em nenhum partido grande com chances reais de vencer nunca. Definitivamente corrupção não é um argumento que algum simpatizante do PSDB pode usar contra o PT. Por isso tudo, e mais algumas outras razões, meu voto será em Dilma.

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