Li a cuidadosa discordância do Eric Brasil em relação à minha defesa da candidatura Dilma e desde já agradeço à paciência de analisar cada trecho de meu texto. Sem dúvida alguma que nós temos prioridades políticas um pouco diferentes. Vou analisar alguns trechos do texto do Eric nos mesmos moldes em que ele analisou meu texto. Meu intuito de forma alguma é afirmar que existe algum tipo de falsidade em seus argumentos. São crenças políticas diferentes que estão aqui em jogo e não existe nenhum “Deus” acima delas que possa arbitrar a respeito da crença mais ou menos “correta”. Simplesmente minha intenção é clarificar o máximo possível nossos motivos de divergência. Vou citar alguns trechos escolhidos e comentar embaixo o que penso de algumas coisas ditas pelo Eric.

Trecho 1

“Essa eleição sem dúvida terá um peso histórico muito grande. Nossa democracia representativa é muito jovem e considero a batalha ideológica que tem sido travada nos debates que tenho visto muito positiva. Estão colocados na mesa dois projetos de país distintos.” (Trecho escrito por mim comentado pelo Eric)
“Até aqui concordo, embora eu não consiga enxergar “projetos de país” assim tão distintos. Pra mim, são farinhas de sacos muito próximos.”(Comentário do Eric)

Resposta:

Eric cita o meu trecho e logo em seguida refuta a ideia de que são dois projetos de país distintos. Até concordo que o projeto do PT e o do PSDB tenham algumas semelhanças, como a priorização da estabilidade macroeconômica e a manutenção dos traços mais gerais da nossa estrutura social. Contudo, acredito que o projeto do PT dá uma prioridade mais efetiva para a inclusão social que não foi dada em nenhum dos governos do FHC. O PT gastou mais em políticas sociais que promovem a inclusão do que o governo do PSDB gastou, e essas mudanças, em um país com uma estratificação social tão perversa como o nosso, caracterizam sim diferenças substanciais de projeto em meu entendimento. Eric, se você não acredita que existem diferenças entre os governos do PT e do PSDB, pense, por exemplo, no padrão de consumo que a classe média baixa e parte dos pobres tinham na época do governo FHC e no padrão que têm hoje. Pense também no acesso ao ensino superior nos anos 1990 e hoje. Foram as diferenças de projeto governamental somadas a um contexto de crescimento econômico estável (nos dois mandatos do Lula) que criaram esse aumento no padrão de vida.

Trecho 2

“Eu, sinceramente, não consigo entender onde tanta gente que apoia o PT encontra subsídios para afirmar que a candidatura do Aécio defende a diminuição dos investimentos em políticas sociais. Não se encontra isso em lugar nenhum do programa de governo tucano, e nem nas suas cartas de intenções.”
“Da mesma forma, existem várias outras torneiras por onde jorram recursos públicos federais além das torneiras das políticas sociais. Poderíamos falar, por exemplo, da óbvia ineficiência de gastos do atual Governo, da “contabilidade criativa” que ele nos enfia goela abaixo ou da extremamente inchada máquina pública. Mas para não entrar em terreno visto por alguns como “subjetivo”, podemos falar dos arbitrários subsídios concedidos a alguns setores “privilegiados” da economia ou dos investimentos públicos em projetos absolutamente inviáveis (no nível do utópico “trem bala”, p. ex.).
O Governo atual não oferece recursos financeiros somente aos contemplados pelos seus programas sociais. Oferece muito mais a empresários (grandes empresários e inclusive alguns estrangeiros) via recursos subsidiados. Recursos cujo critério de destinação segue muito mais a lógica do lobby do que a lógica do retorno social.”

(Trechos do texto do Eric)

Resposta:

Eric, além da matéria citada em minha resposta ao Davidson sobre a defesa de redução do gasto público, em várias ocasiões vi o Aécio usar eufemismos como “choque de gestão” e “ajuste fiscal” para defender a redução de gasto público. Embora o Aécio não tenha dito literalmente redução de gasto público em políticas sociais (afinal, ele não pode dizer isso publicamente, por que pode custar uma derrota nas urnas), dada a experiência recente com os governos do PSDB aqui em São Paulo, em que, por exemplo, um professor da rede pública ganha 9 reais por aula, qualquer defesa de redução do gasto público vinda desse partido deve ser sinal de alerta em meu entendimento. Os gastos públicos do PSDB aqui em São Paulo com serviços essenciais são muito abaixo do necessário e isso tem um custo social ELEVADÍSSIMO. Eu lecionei dois anos em escola pública estadual e posso afirmar sem nenhuma dúvida que no caso da educação, que é um dos serviços públicos mais essenciais, a falta de investimento público do PSDB teve um efeito catastrófico.

Sobre os subsídios que o governo do PT dá para setores privilegiados da economia brasileira (inclusive através de gordos empréstimos a juros baixos pelo BNDES) eu concordo com você. O capitalismo brasileiro é muito oligopolizado. Quando existem oligopólios controlando setores estratégicos da economia, a tendência de que eles consigam cooptar o poder político é muito grande. Isso é uma das coisas com as quais eu sempre discordei do PT. O problema é que os financiamentos de campanha e as alianças do PT no congresso para conseguir governar acabaram amarrando o partido a esses interesses espúrios (por isso defendo uma reforma política com mudança no modelo de financiamento de campanha). Inclusive, há algum tempo atrás em um debate, para defender o Bolsa Família, eu usei o argumento de que as reduções de juros que o BNDES dá nos empréstimos para grupos muitos seletos de empresas custam mais aos cofres públicos do que o Bolsa Família.

Como o meu texto é um texto de defesa da candidatura Dilma, eu acabei enfatizando só o que concordo com o PT e deixando de lado as minhas discordâncias (que não são poucas). Posso ter passado a errônea impressão de que concordo com tudo que o PT defende. Definitivamente não. Eu iria mais longe e diria que o que ocorre é que eu discordo menos do PT do que do PSDB.

Trecho 3

“E sabe de onde vêm esses recursos? Do Tesouro! E sabe onde o Tesouro busca a maior parte desses recursos? No mercado financeiro! Sim, lá mesmo Fernando, onde você disse ao Davidson que está sua receita para mantermos os gastos públicos. Sim, são esses caras que financiam boa parte da gastança desse Governo e não faz o menor sentido você dizer que para manter a gastança é preciso cortar relações com eles (ou fazer “auditorias”), pois, por pura questão matemática, é o financiamento deles que mantém essa equação de pé. O mundo não é tão simples!
Davidson, eu responderia sua pergunta de outra forma. O preço que o Brasil vai pagar se mantiver a atual política de gastos públicos será ALTÍSSIMO. O Brasil já fez algo parecido no passado e o resultado nos levou ao abismo econômico da década de 80. Não estou prevendo que o resultado será o mesmo, mas estou afirmando que temos os mesmo ingredientes sobre a mesa e a equipe econômica atual está seguindo a receita ‘direitinho’.”

(Trechos do texto de Eric)

Resposta:

Eric, os investidores do sistema financeiro compram os títulos da dívida pública porque eles são rentáveis, não porque tenham algum desejo altruísta de financiar o Estado brasileiro. Se de um lado o Estado brasileiro garante uma parte de sua arrecadação a partir da venda dos títulos da dívida pública, de outro, a sociedade inteira tem pagado os juros abusivos dessa dívida através do montante de recursos públicos que ela suga. O mundo não é tão simples, não é feito da benevolência do sistema financeiro de um lado e da ineficiência do Estado de outro, como creem alguns liberais. Quando disse ao Davidson sobre a importância de fazer uma auditoria dessa dívida, em nenhum momento defendi o calote dela nem o corte de relações com o sistema financeiro, mas sim uma destinação de um montante de recursos menor do que o que tem sido gasto com ela. Existem indícios de irregularidades nessa dívida (como a cobrança de juro sobre juro) que precisam ser investigados. Se o mercado financeiro entrará em pânico caso essa auditoria seja feita, eu sinto muito. O preço das mudanças necessárias às vezes é alto. A sociedade tem o direito de saber publicamente tudo o que tem sido gasto com essa dívida. Vocês liberais só defendem a transparência quando apenas o Estado está envolvido, quando o mercado entra no meio, aí o discurso da transparência some.
Em um momento de baixo crescimento econômico como o atual, a melhor forma de manter os gastos públicos e evitar que o orçamento público arrebente, é através de uma revisão do sistema tributário com introdução de maiores taxações sobre grandes fortunas. A solução para manter os gastos públicos está aí. Só para salientar, a Dilma não defende nem a auditoria da dívida pública nem um aumento de impostos sobre as grandes fortunas. Essas posições são minhas.

Você diz que o Brasil pagará um preço altíssimo por manter os gastos públicos no nível em que estão. Já concordei com você a respeito de gastos públicos sem retorno social direto (como os empréstimos preferenciais do BNDES). Mas você acha mesmo que será possível atingir o equilíbrio orçamentário do qual falam os tucanos sem cortar nada na área social? E o custo de um eventual corte de gastos sociais, não é altíssimo também?

Trecho 4

“1. Também defendo a redução da participação dos bancos públicos no financiamento da economia, sobretudo no que se refere ao financiamento subsidiado de grandes empresários (alguns dos quais bem incompetentes). Isso não significa acabar com bancos públicos, mas focar sua atuação nos nichos de mercado onde não há atuação privada e com gestão técnica e respeito à meritocracia (ou seja, sem “politicagem”).
2. Também defendo um “alinhamento geoeconômico” mais efetivo com os EUA e com os países desenvolvidos em geral. Afinal, ser parceiro de Argentina, Venezuela e Cuba ninguém, nem os petistas, merecem.
3. Com poucas aulas de introdução à economia é possível verificarmos que os maiores prejudicados com a inflação são justamente os assalariados. Não há política de ganho real de salários que resista a um processo de aceleração inflacionária (vide o próprio Brasil). Por isso, de novo, controlar a inflação é defender, principalmente, os mais pobres.”

(Trechos do texto de Eric)

Resposta:

Disse anteriormente que sou contrário ao financiamento subsidiado para grandes empresários e que condeno o PT por isso (e expliquei as razões do modo de funcionamento do sistema político que estão por trás disso). Sobre o papel dos bancos públicos, o que te leva a crer que um eventual maior controle dos bancos privados sobre o financiamento da economia evitará que os interesses políticos interfiram? É uma visão inocente achar que existe um setor privado imaculado, “puro” e plenamente resguardado de interesses políticos, quando os bancos privados já exercem um papel de protagonismo, por exemplo, no financiamento das campanhas. Novamente a falácia ideológica liberal da dicotomia entre um setor privado puramente neutro e orientado pela essência das relações de mercado e um Estado “balofo”, ineficiente e avesso às regras da concorrência econômica se reproduz aqui. Só queria recordá-lo que o Armínio Fraga trabalha em um banco privado. Você acha mesmo que se o Aécio ganhar esse banco privado não será favorecido por interesses políticos do governo?

O alinhamento geoeconômico tem que se dar com os países em que o Brasil tira mais ganhos nas relações comerciais, e concorrer no mercado da África e da América Latina é muito mais fácil para as empresas brasileiras do que no europeu e norte-americano. Aliás, empresas como a Odebrecht já entenderam isso. Por outro lado, nada disso elimina a possibilidade de continuar tendo relações comerciais com os EUA e a União Europeia.

Sobre a inflação, claro que ela penaliza os mais pobres, e ela não está nem próxima dos níveis que foram vividos nos anos 1980, por isso, acho esse pânico infundado. Você disse corretamente que não há política de valorização dos salários que resista à inflação. Mas aí eu te pergunto, o que o PSDB vai propor para manter a valorização do salário mínimo além de controlar a inflação?  Salário mínimo decente não é só uma questão econômica, é uma questão moral. Armínio Fraga já até sugeriu que o salário mínimo estava muito alto e que isso poderia desencadear a inflação, o que você pensa disso? Eu me lembro do valor obsceno do salário mínimo na era FHC, em que as pessoas nessa faixa de renda não conseguiam nem encher um carrinho no supermercado com o que ganhavam.

A respeito dos bancos públicos ainda, o Guido Mantega alegou, e eu concordo com ele, que se não fosse o envolvimento ativo deles no financiamento da economia após a crise mundial de 2008, o Brasil poderia ter entrado em uma recessão.

Trecho 5

“A maior parte dos países capitalistas desenvolvidos (especialmente os europeus) tornou-se desenvolvido a partir da conjugação entre crescimento econômico e promoção de bem-estar social. Isso pôde ocorrer nesses países através da concomitância entre a manutenção de taxas de crescimento econômico estáveis e a realização de grandes investimentos públicos em políticas sociais.”(Trecho escrito por mim citado pelo Eric).

“Beleza, Fernando! E cadê a parte da “manutenção de taxas de crescimento econômico estáveis” no caso do Governo atual?” (Comentário do Eric)

Resposta:

Aqui o Eric cita um trecho de meu texto e logo em seguida comenta. Concordo que nos últimos anos do governo Dilma o crescimento econômico brasileiro tem deixado a desejar, e defendo que a manutenção dos gastos públicos nesse contexto desfavorável deve ser financiada com a taxação das grandes fortunas e a redução dos gastos com a dívida pública como já disse em outro trecho. A Dilma não defende isso, e aqui discordo do Eric e dela.

Trecho 6

“A situação atual do Brasil é a prova empírica mais cabal de que isso não é verdade (basta lembrar que nosso PIB é o 7º do mundo e nosso IDH é o 79º). Claro que o crescimento econômico é importante como tem apontado recorrentemente o Aécio, porém, crescimento sem justiça distributiva, não é suficiente para promover um desenvolvimento social efetivo.”(Trecho escrito por mim citado pelo Eric)

“A comparação correta é com o PIB per capita, Fernando. Faz a comparação correta e você vai ver que a sua prova empírica não tem nada de ‘cabal’ ”(Comentário do Eric)

Resposta:

Aqui o Eric cita novamente um trecho do texto e comenta embaixo. Sim, o PIB percapita do Brasil não é dois mais altos, mas mesmo com esse indicador não sendo tão elevado, se nós tivéssemos uma distribuição de renda mais adequada, que fosse mais próxima do que o cálculo do PIB percapita atribui de renda a cada indivíduo, nós teríamos condições de dignidade material bem melhores do que as atuais para a maioria da população. Considero o problema da má distribuição de renda mais grave do que o do PIB percapita não tão alto. Tenho prioridades políticas diferentes das suas Eric, simples assim.

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