Olá, Fernando. Tudo bem? Voltei! (rs)

Bom, de cara, devo agradecer a sua resposta e a forma saudável como você recebeu minhas críticas.

Para não tornar nossos textos exponencialmente longos, vou comentar os trechos que você destacou no seu texto, mas somente nos pontos onde nossas divergências são mais gritantes. Vamos lá!

Trecho 1: sobre a “distância” entre os projetos apresentados atualmente por PT e PSDB

Meus comentários:

  1. Estabilidade macroeconômica:

Tenho séria dificuldade de aceitar que o programa do PT prioriza a “estabilidade macroeconômica”. Até aceito que no papel é isso que eles pregam, mas certamente não foi por esse caminho que eles seguiram nos últimos quatro anos.

Em minha opinião, o primeiro Governo Lula foi exemplar nesse sentido. Palocci e Cia assumiram um Governo desacreditado nessa área e não só mantiveram como reforçaram o tripé macroeconômico (sei que para alguns petistas radicais isso é até um insulto, tanto que muitos abandonaram o barco nessa época). Com a crise de 2008/2009, a aposta do Governo foi pela “proteção” da economia nacional via crescimento da demanda interna. O risco era alto, mas em alguma medida a estratégia foi bem sucedida durante algum tempo.

O problema é que no primeiro Governo Dilma esse “remédio” deixou de ter o efeito desejado e a decisão do Governo foi simplesmente “aumentar a dose” do mesmo. Essa relutância em aceitar o fracasso da política econômica aliada à tentativa inócua de crescimento em “marcha forçada” (que o PT chama de Política Industrial) desestruturou todo o setor produtivo nacional nos últimos anos e gerou sérias distorções na alocação de recursos (o que economistas de renome têm chamado de “bolsa empresário”).

O resultado disso tudo levou Mantega e Cia a flertar com uma inflação persistentemente acima da meta (não existe “alcançar o teto da meta” num regime de metas inflacionárias) e a permitir um descontrole dos gastos públicos (o que obrigou o Governo a recorrer a tal “Contabilidade Criativa”).

Por tudo isso, me desculpe, não se pode afirmar que o atual Governo priorize a “estabilidade macroeconômica”. Tal estabilidade representa uma conquista da sociedade brasileira (iniciada a duras penas na década de 90) e a atual equipe econômica, chefiada pelo futuro ex-ministro da fazenda (qualquer que seja o resultado domingo), só tem colocado tudo a perder.

  1. Políticas sociais:

Fernando, acho que você está cometendo um equívoco que tem sido recorrente no atual debate eleitoral, mas que me parece muito grave para um cientista social.

Não se pode fazer Estática Comparativa entre “FHC e Dilma”! Como já disse para outros debatedores, esse tipo de retórica chega a parecer má fé do interlocutor (e não me parece ser o seu caso).

Vamos pegar você como exemplo. Pense em você hoje e pense em você 12 anos atrás. Me responda:

(i) É possível afirmar que hoje você gasta seu tempo estudando coisas muito mais avançadas do que aquelas que você estudava há 12 anos?

(ii) Pense no que você está aprendendo hoje, seria possível aprender isso sem todo o conhecimento que você acumulou nesses últimos 12 anos?

(iii) Então, é justo fazer uma Estática Comparativa de “você hoje” com “você 12 anos atrás” e afirmar que hoje você é uma pessoa melhor e que isso não tem nada haver com o que você conquistou de conhecimento no passado?

Uma sociedade é um organismo vivo, em constante evolução (ou retrocesso) como todos nós seres humanos. E o Brasil pós-estabilidade econômica (1994) é uma sociedade que começou a dar seus primeiros passos no desenvolvimento econômico moderno e no combate a desigualdade. O FHC foi o primeiro presidente pós-hiperinflação (depois dele mesmo ter sido o principal responsável pelo Plano Real). Naquela época, o Brasil estava desacreditado internacionalmente, suas instituições eram pífias e a casa estava “totalmente desarrumada”. Era preciso primeiro colocar a casa em ordem, garantir ESTABILIDADE MACROECONÔMICA, fortalecer as instituições democráticas do país, equacionar a dívida pública, recuperar a confiança do investidor, etc.

O Plano Real foi um dos principais propulsores da redução de desigualdade do país, pois acabou com o imposto mais perverso que há sobre a renda dos mais pobres, a INFLAÇÃO! Não haveria condições de implantar qualquer política de redistribuição de renda sem a tal “estabilidade econômica” (acho que já concordamos sobre esse ponto). Tanto que foi ainda no Governo FHC que as políticas de redistribuição de renda começaram a ser desenhadas (e tenho certeza que isso você não vai negar!).

Dizer que os Governos subsequentes gastaram mais em políticas sociais é o mesmo que dizer que você hoje aprende coisas mais avançadas do que aprendia no começo da sua formação. É óbvio e natural que seja assim! O PT tem seu mérito, claro, mas não esqueça que pegou a casa já muito mais arrumada, com muito melhor “estabilidade macroeconômica” e as sementes das políticas sociais já plantadas.

Além disso, pelo mesmo motivo, é obvio que o padrão de consumo e o acesso a serviços públicos também melhoraram. Você melhorou, eu melhorei… é uma evolução natural da sociedade depois do ambiente de “terra arrasada” que vivenciamos até a primeira metade da década de 90.

E não, não foram “as diferenças de projeto governamental” que geraram isso, pois o projeto era o mesmo. O Governo Lula, para minha grata surpresa, foi uma continuação quase literal do Governo FHC. Como eu disse antes, a ruptura só veio no segundo Governo Lula, quando se iniciou uma intervenção desmedida do Governo na economia, inicialmente motivada pela crise econômica.

  1. Crescimento Econômico:

Aqui vou tentar ser mais rápido: não há crescimento econômico sem “estabilidade” (acho que já concordamos com isso e sempre podemos olhar para o exemplo do Governo Dilma). O crescimento do período Lula também foi um reflexo da “faxina” do FHC, assim como da evolução do mercado internacional de commodities. Como eu disse antes, o Lula tem seus méritos sim, mas não podemos admitir que cientistas sociais ignorem os méritos do Governo FHC ao promoverem descabidas Estáticas Comparativas.

Trecho 2: gasto público vs políticas sociais

Bom, sobre esse ponto, na prática, só me restaria reescrever tudo o que eu já disse no meu último post. Não acho que você tenha discordado de nenhum dos meus argumentos. De qualquer forma, você reforça sua preocupação (legítima) de que “choque de gestão” e “ajuste fiscal” sejam outras formas de dizer “menos políticas sociais”. Vou discordar deste seu ponto de vista usando sua própria afirmação:

Inclusive, há algum tempo atrás em um debate, para defender o Bolsa Família, eu usei o argumento de que as reduções de juros que o BNDES dá nos empréstimos para grupos muitos seletos de empresas custam mais aos cofres públicos do que o Bolsa Família

É isso, Fernando! Matou a charada!!!

Não precisamos mexer com políticas sociais para fazermos um “ajuste fiscal” nas contas do Governo. E mais, o tal “ajuste fiscal” é essencial para a manutenção da “estabilidade econômica” (conforme exaustivamente argumentei no meu último post). E digo mais ainda, não vejo espaço político para o Aécio mexer com as políticas sociais. Seria um tiro no pé de um partido que nem de direita é.

Trecho 3: mercado financeiro

Eric, os investidores do sistema financeiro compram os títulos da dívida pública porque eles são rentáveis, não porque tenham algum desejo altruísta de financiar o Estado brasileiro. Se de um lado o Estado brasileiro garante uma parte de sua arrecadação a partir da venda dos títulos da dívida pública, de outro, a sociedade inteira tem pagado os juros abusivos dessa dívida através do montante de recursos públicos que ela suga. O mundo não é tão simples, não é feito da benevolência do sistema financeiro de um lado e da ineficiência do Estado de outro, como creem alguns liberais.

Fernando, confesso que não entendi esse trecho. Eu não conheço um único pensador (liberal ou não) que ache que o sistema financeiro é feito da “benevolência” dos investidores. E certamente eu não disse isso no meu texto. Eu não acho nem os consumidores benevolentes (rs).

Quando disse ao Davidson sobre a importância de fazer uma auditoria dessa dívida, em nenhum momento defendi o calote dela nem o corte de relações com o sistema financeiro, mas sim uma destinação de um montante de recursos menor do que o que tem sido gasto com ela.

Como você faria isso sem fuga de capitais ou descontrole da inflação? Me parece que a conta não fecharia. De qualquer forma, conheço uma lista enorme de países interessados em saber sua receita, pois tentaram algo parecido e fracassaram (olha a Argentina aí de novo).

“Existem indícios de irregularidades nessa dívida (como a cobrança de juro sobre juro) que precisam ser investigados. Se o mercado financeiro entrará em pânico caso essa auditoria seja feita, eu sinto muito. O preço das mudanças necessárias às vezes é alto. A sociedade tem o direito de saber publicamente tudo o que tem sido gasto com essa dívida. Vocês liberais só defendem a transparência quando apenas o Estado está envolvido, quando o mercado entra no meio, aí o discurso da transparência some.”

Vamos fazer o seguinte. Economize o dinheiro da auditoria e eu te respondo: existe sim o “monstro” da cobrança de juros sobre juros… e digo mais, não há irregularidade nisso. Outra, a sociedade sabe exatamente o que está sendo gasto com essa dívida. Poucas coisas no Brasil são mais transparentes do que o gasto público com juros da dívida. Esse gasto não é baixo, mas é o próprio Governo quem define (e sem a “benevolência” do mercado).

Por fim, por favor, defina o seu conceito de “liberal” e eu terei o prazer de te dizer se sou ou não.

Mas você acha mesmo que será possível atingir o equilíbrio orçamentário do qual falam os tucanos sem cortar nada na área social?”

Sim, sinceramente, eu acho. E mesmo que não seja o suficiente, é melhor economizar o que dá do que não economizar nada.

“E o custo de um eventual corte de gastos sociais, não é altíssimo também?”

Sim! Mas depende também do preço a pagar. Sem querer ser repetitivo, sem estabilidade e crescimento econômico os gastos sociais são os primeiros a subirem no telhado e os mais pobres são os primeiros a sofrerem com a inflação.

Trecho 4: sobre temas diversos (rs)

“Sobre o papel dos bancos públicos, o que te leva a crer que um eventual maior controle dos bancos privados sobre o financiamento da economia evitará que os interesses políticos interfiram? É uma visão inocente achar que existe um setor privado imaculado, “puro” e plenamente resguardado de interesses políticos, quando os bancos privados já exercem um papel de protagonismo, por exemplo, no financiamento das campanhas. Novamente a falácia ideológica liberal da dicotomia entre um setor privado puramente neutro e orientado pela essência das relações de mercado e um Estado “balofo”, ineficiente e avesso às regras da concorrência econômica se reproduz aqui. Só queria recordá-lo que o Armínio Fraga trabalha em um banco privado. Você acha mesmo que se o Aécio ganhar esse banco privado não será favorecido por interesses políticos do governo?”

Não é falácia, Fernando. É teoria econômica simples! Meu ponto de vista não se refere a qualquer utopia sobre a benevolência dos agentes privados (pode ficar tranquilo sobre isso). É apenas uma questão de incentivos econômicos. Os bancos privados são mais seletivos no empréstimo de recursos a empresários simplesmente porque serão eles que levarão o calote caso o projeto em tela seja inviável. Já no que se refere aos bancos públicos, quem leva o calote é a sociedade (e o gestor público não é cobrado diretamente por isso). Não tem nada haver com interesses políticos partidários. É lógica, não é ideologia.

Sobre a inflação, claro que ela penaliza os mais pobres, e ela não está nem próxima dos níveis que foram vividos nos anos 1980, por isso, acho esse pânico infundado.”

Cara, para debater isso eu teria que argumentar sobre todo o processo gerador de inflação e sobre a perversa progressão geométrica que o acompanha. Mas vou resumir assim: não queira esperar a inflação chegar “próxima dos níveis que foram vividos nos anos 1980” para combatê-la, pois aí já era! É como o combate a uma epidemia (vide o Ebola). Tem que exterminar na raiz, pois, se perder o controle no início, o alastro é muito rápido. Além disso, a estabilidade monetária foi uma conquista muito suada da sociedade brasileira para se colocar tudo a perder em menos de três décadas.

“Armínio Fraga já até sugeriu que o salário mínimo estava muito alto e que isso poderia desencadear a inflação, o que você pensa disso?“

Bom, aqui vou te dar a minha “opinião pessoal”: ganho real de salário sem contrapartida na produtividade é insustentável. É preciso que o ganho real de salário esteja alinhado com o aumento da produtividade do trabalhador. Ou seja, o ideal é que a valorização da mão de obra se dê via aumento da produtividade, e o aumento salarial seja uma consequência disso. Dá uma olhada nos dados de produtividade da mão de obra no Brasil nos últimos anos (se quiser, veja a produtividade da indústria também). Com a produtividade caindo, mais cedo ou mais tarde a valorização salarial vai estourar. O mundo não é tão simples, lembra?!

(pulei o Trecho 5 porque, de certa forma, tudo já foi dito sobre o tema)

Trecho 6: distribuição de renda

“Considero o problema da má distribuição de renda mais grave do que o do PIB percapita não tão alto. Tenho prioridades políticas diferentes das suas Eric, simples assim.”

Não acho que tenhamos “prioridades políticas diferentes”, Fernando. Acho que temos visões diferentes sobre como atingir os mesmos objetivos finais. Não sou liberal (ao menos não pela definição clássica de liberal, mas não sei qual é a sua definição), acho que o combate à desigualdade social deve ser uma prioridade (mas um combate inteligente, que não ponha tudo a perder) e não vejo problemas em sobretaxar fortunas. Por tudo isso, pasme, votei na Dilma no segundo turno da eleição passada (até porque no Serra não dava, né!).

O problema agora (além da corrupção e da completa desonestidade intelectual) é que de lá pra cá ela fez tudo errado e está entregando um país muito pior do que pegou. Sem falar que a alternância de poder é sempre salutar para a democracia, como foi com o próprio Lula. Tem muito “sanguessuga” encostado no Governo e isso é culpa do próprio PT (como você mesmo admitiu ao falar da estratégia de governabilidade adotada pelo partido).

Abraço!

Eric

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