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Certamente a eleição presidencial de 2014 entrará para a história como uma das disputas mais acirradas de todos os tempos. O que antes de agosto de 2014 parecia ser uma eleição definida pela reeleição da presidenta Dilma Rousseff, se tornou uma incógnita. Desde o fim do primeiro turno, a partir das pesquisas de intenção de voto, foram notadas algumas oscilações com relação a quem está na dianteira, tendo permanecido os candidatos, em boa parte do tempo, em empate técnico.

Com a retirada da candidata Marina Silva da disputa, a polarização entre petismo e anti-petismo, que já se demonstrava nas discussões do primeiro turno, se tornou ainda mais evidente no segundo. No caso do primeiro turno, o anti-petismo se dividiu especialmente entre Marina Silva e Aécio Neves. Fazendo uma análise bem rasa e grosseira – política não é minha área! – os anti-petistas do grupo do Aécio Neves parecem ser mais convictos do que os anti-petistas que votaram pró-Marina. Mesmo porque, além de anti-petistas, Marina abarcou também anti-psdbistas. Essa, aliás, era uma das bandeiras de Marina: romper com a polarização PT versus PSDB. De modo que, no segundo turno, os eleitores de Marina Silva se tornaram o nicho preferencial a ser conquistado por Dilma ou por Aécio.

Nesse jogo de conquista e flerte com o eleitorado marinista, e também dos indecisos, já se observou de tudo um pouco – terrorismo econômico, acusações e ataques pessoais, explosão de preconceitos, e até ataques à democracia representativa! -, com efeitos sobre os círculos de relações pessoais (concretas ou virtuais) dos eleitores brasileiros. A própria autora que vos fala promoveu uma grande seleção no feed de notícias de seu facebook!

Correndo o risco de ser agora bem clichê, é justamente nesses momentos de embate e polarização que nossas convicções são colocadas à prova: será que estou mesmo tomando a decisão acertada votando nessa ou naquele, ou ainda, não votando em ninguém?

Provavelmente, boa parte de vocês, leitoras e leitores, em algum momento dessas eleições, se fizeram esses questionamentos intimamente – ou até publicamente. Aproveitando-me do honroso convite de passar a escrever nesse blog, e dado o contexto ainda de embate eleitoral, conclui que dividir a minha resposta sobre esse questionamento seria um bom tema para estrear por aqui.

Inevitavelmente, somos guiados por nossas experiências e formação (familiar, profissional e acadêmica). Querendo dizer com isso que a resposta ao questionamento que esbocei anteriormente é altamente subjetiva, por mais que as conclusões finais (ou seja, em quem votar ou não votar) sejam as mesmas. E quando admitimos verdadeiramente essa dose de subjetividade, segue-se que não há verdade absoluta, ou ainda, que determinada perspectiva está estritamente certa ou estritamente errada. Essa admissão, a meu ver, é o primeiro passo para a promoção de um debate saudável e proveitoso para os seus participantes.

Começando pelo fim, já esclareço que, na presente eleição, meu voto desde o primeiro turno foi na candidata à reeleição, Dilma Rousseff. A seguir, evidencio o caminho que me fez chegar a essa definição de voto. Para isso, terei que fazer uma viagem no tempo e recorrer às minhas crenças como economista. E, sim! Economistas possuem crenças, pois, ao contrário do que alguns tentam afirmar, economia não é ciência pura e, por isso, não está isenta de ideologias.

Iniciei a graduação em Ciências Econômicas em 2001. Em 2002, tive uma espécie de crise existencial, pensei em largar a Economia e prestar vestibular em Ciências Sociais ou História. Minha crise com a Economia foi desencadeada pela grade de disciplinas obrigatórias, especialmente as microeconomias e as macroeconomias tradicionais. Afinal, do que elas me serviam? Os problemas colocados pela realidade pareciam aberrações para aquelas teorias, nas quais o mundo funcionava de maneira perfeita e equilibrada.

Por sorte, não desisti da Economia. E que bom, pois nos anos seguintes da graduação – e do mestrado e doutorado -, ficou claro que não existia apenas uma forma de fazer Economia – diga-se de passagem, uma forma importada de fazer Economia! E como eu me encantei com essas diferentes perspectivas econômicas. Por esse encantamento, recebi a pecha que assumo com muito orgulho: ser uma economista heterodoxa!

E eis que a partir do mestrado, comecei a me interessar especialmente pelas discussões teóricas relativas ao Desenvolvimento Socioeconômico. E é nessa área de pesquisa na qual me concentro até o momento. E aqui, finalmente chego ao ponto chave da minha justificativa de voto: os modelos de desenvolvimento e as políticas econômicas que lhes balizam.

Por mais críticas que possa ter com relação ao primeiro mandato da presidenta Dilma Rousseff – e também do governo de seu antecessor -, a observação da evolução positiva dos dados macroeconômicos de emprego/desemprego e dos indicadores sociais nos últimos 12 anos, mesmo tendo o mundo enfrentado a maior crise do sistema capitalista desde a crise de 1929, significa para mim, e a partir das minhas crenças teóricas, uma importante realização – inclusive, inédita na história socioeconômica do Brasil. Esses ganhos não teriam sido alcançados de maneira natural e espontânea após a estabilização econômica promovida pelo Plano Real no início dos anos 1990, pois a tendência do sistema capitalista não é promover igualdade e, sim, de perpetuar as desigualdades.

Recorrendo agora à minha formação desenvolvimentista, Michal Kalecki, Raúl Prebisch e Celso Furtado – dentre outros -, já alertavam para a necessidade de promover mudanças estruturais profundas no sistema econômico das nações subdesenvolvidas para permiti-las escapar definitivamente da armadilha do subdesenvolvimento. Não bastava, portanto, promover e sustentar altas taxas de crescimento econômico, pois o desenvolvimento envolve mudanças qualitativas. E essas mudanças qualitativas inevitavelmente rebatem na questão da desigualdade, não somente, mas inclusive de renda.

Algumas dessas mudanças estruturais, ainda que timidamente, vem sendo realizadas nos últimos doze anos. Por meio de valorização do salário mínimo, de políticas afirmativas como as cotas raciais e sociais e de programas de transferência de renda como o Bolsa Família, essas medidas têm impactado positivamente sobre a estrutura brasileira de distribuição de renda, aumentando a parcela relativa da massa de salários. Trata-se, por isso, de um resultado de inclusão social e de melhora potencial do padrão de vida, especialmente dos mais pobres. Ou seja, o início da realização do sonho de uma economista desenvolvimentista!

Não há como negar que hoje temos um problema – que não é só nosso! – de como retomar o crescimento e, a partir dele, potencializar essa tendência de melhora no padrão de vida da maior parte da população. Afinal, ainda somos um país em desenvolvimento! E aqui, novamente, reforço a minha escolha de voto.

Grosso modo, a eleição de domingo coloca em xeque duas estratégias para tentar retomar o crescimento: provocar um ajuste macroeconômico ortodoxo, à la Consenso de Washington, ou insistir na ideia de sustentar o nível de emprego e de aprofundar as políticas afirmativas com a finalidade de inclusão social? Sem pestanejar, e amparada em minhas crenças de economista “heterodoxa de linhagem keynesiano-desenvolvimentista”, permaneço convicta com a segunda opção.

 “a política econômica pode ser pior do que somente ineficaz: a inutilidade pode ser substituída abruptamente pela brutalidade, pelo desprezo ao sofrimento humano, aos direitos adquiridos (…) em suma, à “tênue e precária camada de civilização”” (Albert O. Hirschman, A estratégia do desenvolvimento econômico, 1958).

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