Os ânimos andam exaltados. Apesar da ausência nas últimas semanas, estou acompanhando a movimentação de ideias e ideais por aqui. Mas acho que a disputa está desigual… Depois de ver dois posts seguidos apoiando Dona Dilma, me senti ‘chamada pra briga’. Não, eu não podia ficar de fora!

Estas eleições me tornaram uma pessoa mais interessada em política, e a motivação, claro, foi a economia. Num primeiro momento, esperava ouvir a discussão de agendas políticas que, particularmente, considero essenciais: a reforma previdenciária, a reforma fiscal, a retomada do crescimento econômico, a política de incentivo ao investimento, a retomada da trajetória de sustentabilidade. Tantos desejos, tantas ilusões… ninguém falou nada! O que vimos, e continuamos vendo, são embates pessoais, regados a inúmeras falácias. E onde ficamos nós, que podemos (e devemos) fazer nosso papel social? Onde, afinal, reside nosso papel social?

Acho ultrajante ter estudado economia, esta ciência tão nobre, e hoje escutar, calada, a tantas inverdades (que eu chamaria de mentiras se não estivéssemos em um momento político onde a liberdade de expressão vive na corda bamba). Eu não sou leviana a ponto de crer que um lado está correto e o outro está errado: não há essa dualidade… cada lado, como bem argumentou nosso querido André Roncaglia de Carvalho, na sequência da amiga Fernanda Cardoso, tem seus prós e contras. Aqui argumento, então, o meu ponto de vista.

Começo invocando meu papel como uma das signatárias do manifesto [1] apartidário (sim, apartidário) lançado na semana passada, onde defendemos a desconstrução de inúmeras falácias que estão sendo ditas nesta campanha eleitoral. O objetivo principal de tal documento é mostrar de que maneira a economia tem sido usada de forma desleal, enganando a população e criando mitos que não existem. A leitura atenta do documento de poucas páginas (cuja leitura é obrigatória a todos que desejam debater política econômica, concordando ou não) deixa claro que o instrumental econômico tem sido utilizado de maneira leviana, na tentativa de justificar o injustificável: o Brasil vai mal.

Vai mal porque nosso investimento é ridiculamente pequeno pros nossos objetivos de crescimento. Vai mal porque nosso sistema de saúde e educação são falhos, e ao invés de resolvermos o problema, usamos paliativos (que logo não resolverão mais o problema). Vai mal porque nossa produtividade é baixa, e a substituição de investimento por trabalho não faz mais efeito no crescimento econômico (e aí está uma das chaves para entender esse baixíssimo desemprego e o crescimento ultrajante que temos atualmente). Vai mal porque o mundo se recuperou (ou se recupera) das turbulências dos últimos anos, enquanto nós financiamos portos em Cuba e ainda culpamos a tal ‘crise mundial’ como motivo do nosso fracasso econômico. Ok, não fracassamos ainda. Ainda…

Neste nosso cenário recessivo (e isso ninguém pode negar, estamos em recessão), a semente do desemprego começa a germinar. O desemprego virá com ou sem ajuste ortodoxo. Se o ajuste acontecer, o desemprego acontece como sua decorrência, até a queda da inflação possibilitar a retomada do crescimento. Se o ajuste não acontecer, o desemprego ocorrerá porque o poder de compra será massacrado com o descontrole inflacionário, e o produto continuará pressionado, forçando a economia a um estado recessivo mais profundo e duradouro. Não há como escapar de um futuro próximo não muito animador.

Junta-se aos fatos já expostos a falta de transparência pela qual passamos. Escândalo após escândalo, dados são ‘milagrosamente’ alterados [2] (erros providenciais sempre ajudam um só lado), resultados negativos são escondidos debaixo do tapete [3], mentiras são ditas de forma descarada [4], sem contar a contabilidade criativa, uma marca tão constante da falta de transparência (e há quem diga, falta de bom senso) deste atual governo [5]. Como confiar em um governo que parece não se preocupar com transparência, uma vez que expectativas são fundamentais para a boa condução da política econômica? Quais expectativas formar de um governo que esconde o jogo?

Acho que o pior ponto, no entanto, ainda não foi citado. A política econômica estabanada do Dr. Mantega dá sinais completamente contraditórios, e mais uma vez há um problema na formação de expectativas. Quando o mercado espera o controle da inflação, lá vem o ministro falando em reduzir compulsórios e aumentar o crédito imobiliário [6]. Quando esperamos um sinal de que a inflação é importante e deve ser controlada, lá vem Dona Dilma praticamente admitindo que a meta de inflação é secundária (e mesmo depois tentando arrumar, a emenda ficou pior que o soneto… para isso, não deixe de ver o vídeo! [7]). Pra piorar, ainda tem esse discurso do medo que eles insistem em espalhar, dizendo por exemplo que a redução da inflação levaria o desemprego à assustadora marca de 15%, quando as estimações da curva de Phillips para o curto prazo indicam aumento para 10%.

Será que precisamos de mais fatos para parar e pensar se realmente a continuidade é a melhor alternativa? E antes que falem dos avanços sociais e de todos os programas de inclusão, eles não são um presente do governo, são uma obrigação. Nós pagamos por isso. Além do que, a manutenção do atual quadro econômico certamente levará pro buraco todo e qualquer avanço visto nas últimas décadas (sim, nossa ‘justiça social’ começou em 1994, e não em 2002). Quer inimigo maior da igualdade social e da distribuição de renda do que a inflação? Sim, não me faltam motivos para não votar na Dona Dilma…

(Obs.: logo mais pretendo voltar, falando da alternativa, que apesar de não ser tão boa assim, ainda me parece mais coerente.)

NOTAS:

[1] Você pode acessar ao Manifesto de Professores Universitários de Economia através do link https://sites.google.com/site/manifestoeconomistas/

[2] http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/09/19/ibge-erra-crescimento-populacional-de-sete-estados-e-pede-desculpas.htm

[3] http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1536703-governo-segura-divulgacao-de-dados-que-podem-afetar-campanha-de-dilma.shtml

[4] http://www.portalaz.com.br/noticia/geral/310722_beneficiaria_do_bolsa_familia_recebe_mensagem_que_aecio_acabara_o_programa.html

[5] http://oglobo.globo.com/opiniao/contabilidade-criativa-retarda-gastos-publicos-13726140

[6] http://www.infomoney.com.br/mercados/noticia/3531946/medidas-mantega-mostram-desespero-irao-pressionar-inflacao-diz-economista

[7] http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-da-globo/v/declaracao-de-dilma-sobre-inflacao-ofusca-encontro-dos-brics/2484778/

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