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Por Daniel Avancini

Em artigo publicado nesse blog no dia 23 de Outubro, sob o título de “Foram me chamar? Eu estou aqui… o que é que há?”, Juliana Inhasz fez uma crítica aos rumos atuais do País. Além disso, acrescentou previsões alarmantes acerca de aonde estaremos no futuro próximo, caso ocorra a reeleição do PT ao governo federal e permaneça a política econômica que ele realiza.

Não sou defensor do Governo nem da política econômica atual, mas minha visão é diametralmente oposta à da autora. Explico.

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro sobre qual base teórica é feita a crítica. Apesar da “nobreza” da Ciência Econômica, ela está longe de ser unânime. Há correntes de pensamento variadas, com teorias e resultados muitas vezes totalmente distintos para assuntos aparentemente comuns como Inflação, Crescimento, etc. Isso é parte do ônus de ser uma ciência social onde os resultados são dificilmente testáveis e prováveis e parte do fato de que há muitas décadas o mainstream econômico simplesmente abandonou o debate, declarando-se vencedor à revelia dos demais. [1]

Digo isso, pois no texto da autora há uma certa impressão de que exista o “certo e o errado” na economia, no sentido que há políticas econômicas comprovadamente corretas ou neutras.

No fundo, existem caminhos distintos para perseguir objetivos econômicos semelhantes e cada rota implica em impactos maiores sobre os trabalhadores ou sobre empresários, sobre os consumidores locais ou sobre a indústria nacional, e por aí vai. Ou seja, podem existir opiniões apartidárias, mas com certeza não existem opiniões apolíticas.

Ressalvas feitas, voltamos ao texto da autora.Fica evidente em sua análise de que o Brasil vai mal, muito mal. Será? Mal para quem? Todos concordamos que precisamos aumentar nossa taxa de investimento, em infraestrutura e etc. Também precisamos investir muito em Saúde e Educação, e para isso o PIB precisa crescer, não tem jeito.

No entanto, discordo de análises hipotéticas-proféticas de que o Desemprego vai aumentar, que a inflação vai disparar, a economia vai desabar e etc. As condições do mercado de trabalho ainda são robustas, mesmo que haja uma leve diminuição da taxa de participação.

De fato, a autora advoga pelo famigerado “ajuste ortodoxo”. Isto é, acredita que os motivos de que nosso investimento (e crescimento) vai mal é de que os salários estão alto demais, que o governo gasta demais e que isso está afetando as expectativas dos empresários negativamente. Como corrigir isso?

Causar um choque recessivo sobre a economia, aumentando o desemprego (que segundo ela iria apenas(?!) para 10% ao controlar a inflação) e mostrando pro Mercado o compromisso do governo com a boa política econômica, ou seja, o neoliberalismo. Nem todos os caminhos levam à Roma do crescimento e baixa inflação, mas é seguro que não existe apenas um.

A inflação atual, embora relativamente alta para padrões de países desenvolvidos, está longe de estar fora de controle. Mais do que isso, o índice de difusão (ver o gráfico abaixo) está sofrendo quedas sistemáticas nos últimos meses.

Índice de Difusão - percentual de preços contabilizados pelo IPCA-IBGE que sofreram algum aumento no mês de referência. Fonte: Banco Central do Brasil

Índice de Difusão – percentual de preços contabilizados pelo IPCA-IBGE que sofreram algum aumento no mês de referência. Fonte: Banco Central do Brasil

Ou seja, se o índice de preços sobe mas o grau de difusão diminui, isso significa que alguns preços – e não todos – estão pressionando a média para cima. O gráfico abaixo mostra que as pressões inflacionárias estão restritas cada vez mais a menos produtos, muito influenciados por questões climáticas como os alimentos (linha laranja – bens não-duráveis), ou por pressões do mercado de trabalho como nos serviços.

IPCA-IBGE - Preços por Grupos - Duráveis, Semi-duráveis, não-duráveis e serviços. Fonte: Banco Central do Brasil

IPCA-IBGE – Preços por Grupos – Duráveis, Semi-duráveis, não-duráveis e serviços. Fonte: Banco Central do Brasil

No Brasil atual, os trabalhadores vêm obtendo ganhos acima da inflação há um bom tempo enquanto a indústria não consegue repassar completamente aumentos de custos devido à competição internacional. O impacto da inflação sobre os setores e sobre a renda dos mais pobres é heterogêneo. Setores como o de serviços conseguem repassar seus preços mais facilmente e tornam-se relativamente mais caros que a indústria, contraindo as margens de lucros da última.

É bem verdade que isto pode afetar o investimento e o crescimento da produtividade no médio-prazo, mas  seguramente não é um efeito óbvio, nem inevitável.(Evidência a esse respeito podem ser encontradas aqui [2]).

Em suma, o quadro é muito mais complexo do que parece e não pode ser resumido em conclusões simplistas para sustentar políticas convencionais de ajuste.

Quanto ao cenário catastrófico de crescimento para os próximos anos, ele só será inevitável se o governo de fato seguir as recomendações de ajuste ortodoxo propostas. A crise econômica mundial não faz com que a economia mundial recue, mas modificou a tendência de crescimento dos principais países avançados, reduziu o crescimento da China e impactou no preço e volume dos produtos exportados pelo Brasil, ou seja, dependemos da dinâmica interna para retomar o crescimento. (Mais informações aqui)

Ao mesmo tempo, a política de crescimento do consumo das famílias através de ganhos salariais e crédito está chegando a sua exaustão, com as pressões de custo afetando a capacidade da indústria investir e concorrer com os demais emergentes. É o fim do mundo? Não. É culpa das expectativas? Depende.

Como mostra o gráfico abaixo, os dois únicos itens que vem sofrendo retração são o investimento (FBCF – linha azul) as importações (linha roxa) – estas últimas costumam cair em decorrência da queda do ritmo de atividade econômica. Exportações, consumo das famílias e do governo vem crescendo normalmente, com exceção de uma redução no ritmo de crescimento deste último (linha verde-claro).

Componentes do PIB (1995 = 100)

Componentes do PIB (1995 = 100)

Se estivermos falando da expectativa de vendas dos empresários, pode ser correta. Se falamos do fato de que os empresários estão receosos de investir porque acreditam que o governo faz uma política econômica heterodoxa e que irá afetar permanentemente as instituições do Brasil e o produto potencial é um nonsense.

Choques ortodoxos (com elevação da taxa de juros para conter a inflação) servem para disciplinar as pressões salariais dos trabalhadores e estabilizar o conflito distributivo com os empresários, ou seja, é uma política neoliberal de piora da distribuição de renda. Seus impactos sobre o investimento privado e sobre a produtividade são discutíveis e na maioria dos casos provavelmente negativos.[3]

O Investimento segue a necessidade das empresas de aumentar as fábricas para atender a demanda, e somente o aumento da demanda agregada tanto com uma melhora do mercado externo ou com aumento dos gastos públicos pode fazê-lo no momento. Se seguirmos uma política industrial coerente e permanente, a produtividade acompanha o crescimento da demanda e amplia os ganhos do crescimento sem pressões inflacionárias.[4]

Concluindo, Economia não é estudo de marés. É preciso tomar muito cuidado com previsões econômicas, e principalmente, não há teoria econômica neutra. Crescimento com distribuição de renda implica na redução da parcela relativa (mesmo que o montante cresça) dos lucros, e a “austeridade expansionária”, nas palavras de Paul Krugman[5], não só é ruim para o crescimento como pode sim reduzir os ganhos sociais dos últimos 20 anos.

Daniel Avancini é mestrando em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, nas áreas de Macroeconomia e Desenvolvimento. É também editor do blog O Economista Político

Fontes e Referências

[1] Para uma crítica ao mainstream, ver: http://www.boeckler.de/pdf/p_imk_wp_112_2013

[2] http://www.ie.ufrj.br/images/pesquisa/publicacoes/discussao/2014/TD_IE_012_2014_SUMMA.pdf

[3] Para evidências empíricas do investimento privado no Brasil: http://www.scielo.br/pdf/ecos/v19n3/02.pdf

[4] É a chamada Lei de Kaldoor-Verdoorn: http://en.wikipedia.org/wiki/Verdoorn’s_law

[5] http://krugman.blogs.nytimes.com/?s=expansionary+austerity

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