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Durante boa parte da história humana, antes das rupturas características da modernidade ocidental, as sociedades viveram e se reproduziram orientadas para a tradição. A tradição, como sabemos, é uma forma de evocação do passado a partir de sua reativação na experiência do presente. A modernidade fez emergir um tipo de sociedade excepcional do ponto de vista da relação com o passado. Na modernidade o passado é uma referência, mas uma referência a ser superada em prol da busca pelo futuro. No lugar da repetição ritualística do culto ao passado encarnado na tradição, a modernidade colocou a crença na aceleração e na mudança.

A afirmação da mentalidade voltada para a superação do passado e dos vínculos com a tradição, a dominação da natureza proporcionada pela ciência e a emergência de uma racionalidade secular, sem dúvida proporcionaram ganhos civilizatórios reais para a humanidade. Contudo, esses ganhos também trouxeram outras tendências que se contrapuseram à eufórica afirmação da razão e da crença no homem que está na base do Iluminismo e no cerne do espírito da modernidade.

Freud no início do século XX, em seu clássico “O Mal Estar na Civilização”, propôs a desconcertante ideia de que mesmo tendo um controle tão perfeito sobre as forças da natureza como nunca antes na história e meios técnicos tão formidáveis como o trem e o telégrafo, os homens modernos permaneciam infelizes. O domínio da natureza é um progresso civilizatório inegável, porém, o progresso não necessariamente nos torna melhores e mais felizes. O progresso técnico nos ensinou a criar vacinas e curar doenças, mas também a tornar a violência cada vez mais precisa através das bombas atômicas. Não existe juízo de valor possível sobre a natureza do progresso científico e tecnológico e sobre a modernidade em geral que não incorpore esse paradoxo fundamental.

O flanco aberto pelo diagnóstico de Freud a respeito do progresso material nos coloca frente a um paradoxo essencial da modernidade (marcado por dois polos que vulgarmente poderíamos chamar de lado “claro” e lado “escuro”) que pode ser utilizado como pano de fundo para analisar outros tipos de fenômenos históricos distintos da realidade estritamente material. Na esfera comportamental, a modernidade inaugurou algo que Anthony Giddens chamou de “democratização radical da esfera pessoal”. Essa democratização foi possível por que antes da modernidade, o enquadramento das instituições sociais sobre os indivíduos era tão implacável, que a própria ideia de uma conduta individual específica que se distinguisse dos papeis sociais previamente designados pelas instituições era inconcebível. A modernidade alçou a individualidade à categoria de valor máximo na estruturação da vida social.

Essa libertação da individualidade em relação aos enquadramentos institucionais da tradição, que se intensificou a partir, sobretudo, da segunda metade do século XX (num período já bastante tardio da modernidade), fez com que pudéssemos escolher segundo as nossas próprias idiossincrasias nossa religião, nossas crenças políticas, nosso comportamento sexual, nossos valores morais, entre outras coisas. O distanciamento da tradição nos proporcionou liberdade, mas nos deixou soltos em meio ao vazio de ter que inventar a própria identidade. A busca do “eu” foi jogada para os ombros do indivíduo e retirada da responsabilidade das instituições sociais.

Zygmunt Bauman disse recentemente em uma entrevista que os homens precisam de duas coisas para viver: liberdade e segurança. Antes das revoluções que inauguraram a modernidade (especialmente após o século XVIII) e da democratização da esfera pessoal que marcou a segunda metade do século XX, os homens eram muito menos livres do ponto de vista comportamental, e muito mais seguros a respeito do que eram. A tradição, com sua imposição de condutas cristalizadas e sua definição rígida de papeis sociais, tem um caráter opressor aos nossos olhos contemporâneos, no entanto, ela evitava que o peso de inventar um próprio “eu” caísse sobre os ombros do indivíduo. Nós trocamos a segurança pela liberdade. Como diz o título do romance mais conhecido de Milan Kundera, a leveza, proporcionada pela abundância de liberdade comportamental pode ser insustentável, quando levada às últimas consequências a ponto de solapar a segurança.

Essa problemática sócio-histórica relacionada às transformações de longa duração que edificaram a modernidade ocidental, embora possa ser explicada a partir de tendências gerais encarnadas nos paradoxos explicitados acima, também pode ser visualizada a partir de nossa experiência cotidiana banal. Um dos mais difíceis movimentos epistemológicos das ciências humanas é justamente a articulação entre as tendências sócio-históricas de longa duração e a experiência cotidiana imediata.

Você que vive em uma metrópole caótica como eu, com certeza conhece dezenas de pessoas se gabam de beber em excesso, de transar com muitas pessoas, de consumir muito mais do que necessitam, e que esfregam na cara dos outros o tempo todo o quanto são livres. Toda vez que você conhecer alguém assim, ou mesmo se você é um pouco assim (não quero condená-lo moralmente por isso), não se esqueça de que os paradoxos que valem para as tendências sócio-históricas mais amplas da modernidade valem também para a experiência subjetiva e que a propensão hedonista ao excesso, faceta mais explícita da forma de afirmação da liberdade prevalecente atualmente e traço marcante da psicologia dos indivíduos contemporâneos, vem acompanhada de um enorme sentimento de vazio, de melancolia e até de desespero.

O paradoxo entre a necessidade de afirmação da liberdade e a enorme desorientação provocada por tal afirmação, tão característico de séculos de modernização social, agora volta ao indivíduo, que isolado, agoniza em meio ao sentimento de onipotência engendrado pela embriaguez de liberdade. A liberdade comportamental virou uma espécie de obrigação totalitária ratificada pela força do imaginário social. As pessoas sentem culpa por não serem suficientemente livres tal como a incitação da cultura hegemônica preconiza. Quem diria que um dia a liberdade pudesse conter, na sutileza de sua ubiquidade no mundo social, o germe mais perigoso de uma força totalitária e a face mais evidente de um tipo muito particular de escravidão psíquica.

É importante para finalizar a nossa reflexão, salientar que o estoque de liberdade disponível na esfera comportamental atualmente, embora seja bastante significativo, coexiste com um tipo de constrangimento à liberdade que decorre da ordem de reprodução material das sociedades humanas. O capitalismo sem dúvida tem tendências civilizatórias inegáveis, mas também tem dimensões despóticas bastante claras.

Embora nós possamos construir nossas identidades como queiramos hoje em dia, é necessário que uma grande parte de nós passe bastante tempo de nossa vida cotidiana vendendo força de trabalho para a sobrevivência. Pouco importa se você é homossexual, ateu, cristão, punk ou muçulmano. Nada disso é obstáculo para a reprodução das relações econômicas. A liberação na esfera comportamental existe em perfeita consonância com a reposição dos pressupostos homogeneizantes da forma de reprodução material capitalista das sociedades.

Os ardorosos militantes de esquerda (e aqui penso principalmente no movimento feminista e no movimento LGBT) que acreditam que a afirmação de comportamentos distintos dos comportamentos “tradicionais” supostamente carrega alguma subversão (palavra anacrônica eu sei!), padecem da ilusão de não perceberem que a reprodução material capitalista se repõe independentemente dessa heterogeneidade comportamental e que esses comportamentos são plenamente integráveis à ordem. O debate sobre a liberdade não pode ficar restrito à esfera comportamental e deve abarcar, amparado nas melhores tradições do marxismo, a reflexão sobre as limitações materiais para a realização da liberdade humana.

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