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Por Glauco Peres da Silva

Depois de um longo inverno, volto a escrever n’O Barômetro. Nem sei se os leitores ainda se lembram de mim. Talvez, seja melhor assim…

Acompanhei as discussões feitas aqui sobre a campanha para a última eleição presidencial. Nas discussões que permearam os temas econômicos nesta última eleição, houve uma forte disputa em torno da forma como o governo atingiria certos objetivos.

As discussões entre economistas em torno do Programa Bolsa Família, por exemplo, continham um debate sobre os pressupostos de como atingir certos níveis de igualdade de renda entre os brasileiros. De um lado, alguns economistas diziam que a organização em torno do mercado era fundamental para, inclusive, sustentar este tipo de programa e atingir os resultados esperados, enquanto outros entendiam que a prioridade deveria se dar ao programa em si, ainda que trouxesse algum prejuízo ao funcionamento do mercado.

A disputa em torno da paternidade do Bolsa Família passava por isso: se foi iniciado ainda no governo FHC, era uma evidência concreta não só da preocupação com este tipo de programa, mas de que só era possível por conta da estabilidade monetária.

Porém, nas discussões em torno do tema, há pelo menos duas dimensões distintas aí que ficaram subentendidas e por vezes negligenciadas nos argumentos apresentados: 1) como as pessoas votam; e 2) a ideologia na ciência, em geral, e na econômica em particular. Por vezes, as diferenças residiam aí, mas não estavam expostas. O debate ocorrido n’O Barômetro é um exemplo disto, a meu ver. Entendo assim como uma contribuição chamar atenção a estas colocações.

Primeiro, o papel da ideologia no conhecimento científico. Para muitos economistas, notadamente àqueles mais vinculados à Economia Neoclássica, essa mesma que alicerça os manuais de economia, o debate citado acima chegava a ser claramente angustiante na medida em que a decisão técnica a ser aplicada por um governo é clara. Não há quase espaço para um debate político a ser feito.

As escolhas são evidentes; não há razão para divergir. O problema desta visão é ignorar ensinamentos da própria Ciência Econômica. Já desde Arrow, Buchanan e Tullock, argumenta-se que as decisões de governo não são técnicas; são políticas.

Não se deve ignorar a técnica, é verdade, mas a decisão não decorre dos modelos somente. Até porque, está aí Piketty que não nos deixa enganar: o pressuposto geral do modelo neoclássico básico é a ideia de trickle-down: os ganhos de um fator de produção se transbordarão para o outro, gerando um equilíbrio em que a igualdade decorre. Mas apesar desta afirmação, ela não acontece no mundo real por diversos fatores conhecidos dos economistas.

O modelo de crescimento capitalista, nos alerta Piketty, é concentrador de renda e aí reside um problema político relevante. Se não se está convencido de que é necessariamente concentrador, entendo que os economistas deveriam dar o benefício da dúvida.

Sendo assim, não basta a aplicação imediata dos modelos que a vida de todos estará melhor. É preciso algum tipo de intervenção e regulação, até porque os mercados falham. Ou seja, o livre mercado não resolveria todos os problemas naturalmente.

Além disto, este posicionamento defensor da técnica carrega em si algo que se pretende evitar: ele também é ideológico. Sem querer com isso menosprezar, porque não é o caso, é preciso entender que ao enunciar que as decisões deveriam ser técnicas adota-se uma visão particular sobre como o mundo é ou como deveria ser. Isto é ideologia por carregar normatividade.

Não se pode negar este caráter da Economia também. Não há mal nenhum nisso; a compreensão desta dimensão ajuda a entender melhor o mundo, eu acho, e a explicar porque os demais não concordam com os economistas integralmente ou porque os economistas divergem entre si.

 

Na outra dimensão da discussão, estão os critérios que as pessoas utilizam para votar. Ainda que se atribua ao governo federal a responsabilidade pelo desempenho econômico do país, esse não é o único critério para se escolher um representante qualquer. E ainda que fosse, o indivíduo precisa ser capaz de entender qual a relação entre um indicador econômico qualquer, inflação, por exemplo, e sua vida cotidiana. Para alguns, a relação é imediata; mas não para outros.

O índice de desemprego pode crescer, mas enquanto eu estiver empregado, posso achar que o governo é bom. Como disse Bernard Manin, o processo de seleção de representantes via eleição implica uma distinção entre os indivíduos: os candidatos precisam ser reconhecidamente diferentes dos demais.

O problema é que não há critério capaz de definir a priori o critério desta distinção. Eu me lembro de minha avó, em 1989, dizendo que votaria no Collor porque ele era ‘bonitão’! Ou seja, sabemos que os candidatos devem possuir alguma característica que o eleitorado valorize e entenda como distintiva do cidadão médio. Mas não há meios de definir qual é esta característica. Pode ser a aparência física, a capacidade intelectual, a oratória ou a capacidade de gestão, ou outra qualquer. Certamente, Collor, FHC, Lula e Dilma não são iguais entre si e não despertaram no eleitor o mesmo tipo de distinção.

 

Assim, parte da discussão feita notadamente entre economistas me pareceu focando aspectos equivocados ou negligenciaram a limitação dos argumentos apresentados. Não sou capaz aqui também de resumir todas as diferenças, evidentemente. Mas estas duas dimensões me parecem cruciais para entender os debates.

A avaliação sobre o desempenho da economia é um critério importante para a decisão de voto, entendo eu, mas é apenas um; não o último. A compreensão de que existem não só caminhos diferentes para se chegar ao mesmo objetivo, mas uma diferença de prioridades entre as alternativas e outros tantos critérios subjetivos favorece o entendimento de porque Dilma venceu essa eleição tão disputada.

 

 

Glauco Peres da Silva é Economista, blogueiro (entrementes.blog.br), professor e pesquisador. Formado pela USP em Economia, tem doutorado em Administração Pública e Governo pela FGV-SP, com estágio doutoral no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Foi coordenador de graduação dos cursos de Economia e Relações Internacionais da FECAP por sete anos. Atualmente, é professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo.

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