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Dizem que quando dois economistas se reúnem para discutir um problema, no mínimo três opiniões aparecem. O acalorado debate eleitoral produziu muita inimizade, muito desapontamento interpessoal e profissional.

No entanto, dentre argumentos mortos e feridos, a discussão pós-eleição persiste, sem a pressão da disputa polarizadora. Os argumentos começam, portanto, a se distribuir ao longo de um espectro, com mais nuanças e mais detalhes.

Ocorreu ontem em São Paulo, o 9o Seminário Internacional da ACREFI, associação representativa das instituições de crédito e financiamento. Compareci ao evento, com a disposição de ouvir mais de perto o que meus colegas economistas com mais tempo de estrada estão esperando para 2015. O evento contou com a presença de Alexandre Schwartzman, Luiz Carlos Mendonça de Barros e Delfim Netto, dentre outros participantes.

Essencialmente, Schwartzman está pessimista (grande novidade!), Mendonça de Barros vê oportunidades de se migrar para uma política econômica focada no longo prazo, para concluir a transição sócio-demográfica e Delfim Netto defende a re-industrialização liderada por exportações, como motor do crescimento econômico com distribuição.

Este artigo tem o propósito de resumir os principais diagnósticos apresentados. Obviamente, um resumo não faz jus ao raciocínio completo de todos. Por esse motivo, a ACREFI disponibiliza aqui os vídeos com as apresentações.

Como este post é relativamente longo, deixo a discussão dessas ideias para uma outra oportunidade. O artigo é dividido em subseções, para facilitar a digestão das ideias.

 

O extremo pessimista: a necessidade imediata de ajuste econômico

Alexandre Schwartzman fez uma apresentação que ecoou o coro dos inconformados com a vitória de Dilma e pintou o cenário menos otimista com os próximos anos de governo Dilma. Schwartzman ressaltou que a desaceleração do crescimento brasileiro se deve a fatores internos, como queda da produtividade (devido à interrupção do “esforço reformista” iniciado com Collor e findado em 2005) e leve tendência de queda da População em Idade Ativa (PEA) e, mais recentemente queda brusca da População Economicamente Ativa (PEA). Ressaltou que a taxa de desemprego para jovens de 18 a 24 anos é bem mais alta do que a média, o que indica que o jovem está permanecendo fora do mercado de trabalho por motivos de (1) estar estudando mais tempo; e (2) aumento da renda familiar que possibilita o não-trabalho dos jovens. Em termos de política macroeconômica ressaltou a taxa de juros em patamar historicamente baixo, cenário fiscal preocupante, intervenções exageradas do Banco Central no mercado de câmbio e as perspectivas negativas que brotam de uma possível retomada da elevação da taxa de juros norte-americana, em resposta a uma melhoria nos indicadores de crescimento e emprego nos EUA. Enfim, o extremos pessimista do espectro. Brincou, por fim, que em face de um possível desemprego, ele poderia recorrer ao PRONATEC, já que é economista e tem mais de 50 anos.

 

Centro do espectro: senso de oportunidade com sensibilidade social

Luiz Carlos Mendonça de Barros (LCMB) fez uma apresentação forte e repleta de “papo reto”. Foi direto ao ponto. Para ele, o capitalismo apresenta “natureza ciclotímica” que alterna períodos de bonança e de recessão, de euforia e de desânimo. Usando a análise dos ciclos, ele vem argumentando na imprensa que os erros do governo Dilma resultam da incompreensão quanto ao que foram os “milagrosos” anos Lula.

Entre 2003 e 2008, o grande avanço da produtividade se deveu a uma grande capacidade ociosa na indústria, cujo uso foi impulsionado pelos efeitos multiplicadores advindos de um esplendoroso crescimento na demanda externa por bens primários. Exportações crescendo levaram a um aumento nas vagas de emprego. Lula aproveitou o momento positivo e executou uma política de elevação do salario mínimo consistente com um controle rígido da inflação (colocou Henrique Meirelles no Banco Central, para dar credibilidade à política econômica) e uma política fiscal austera de produção de elevados superávits primários. O resultado foi um efervescente processo de transformação social, em que os integrantes das classes de renda A, B e C passaram a representar 2/3, enquanto aqueles ainda nas classes D e E ocupam 1/3 (vinte anos atrás, essas proporções estavam invertidas).

Para LCMB, esse sucesso acabou inebriando o governo Dilma e anuviou o seu julgamento sobre as causas do bom resultado, impedindo-lhe de perceber que o ciclo de crescimento estava esgotado. Como reação, o governo lançou mão das ferramentas de aumento dos gastos públicos, desonerações pontuais, redução da taxa de juros, expansão do crédito seletivo via bancos públicos etc.

Mas, como interpretar esse momento do Brasil?

Assim, Mendonça de Barros assinalou que o Brasil passa por um momento especial, em que a população está notando lentamente que mais anos de estudos geram diferenciais de rendimento para os mesmos postos de trabalho. Sua releitura (como urubu técnico) dos dados apresentados por Schwartzman é a de que o povo pode estar atrasando sua entrada no mercado de trabalho para poder competir em melhores condições.

LCMB tem uma fluidez retórica cativante e foi acidamente cômico e irônico em vários momentos de sua apresentação. Em minha opinião, a melhor sacada foi quando ele disse algo nessa linha: “O Edmar Bacha disse recentemente que o Plano Real foi um fracasso por que não conseguimos levar o Brasil para o primeiro mundo. Mas, antes, temos que saber se o brasileiro quer estar no primeiro mundo. Bom, o brasileiro quer as coisas boas do primeiro mundo, como bens de consumo. Porém, não quer fazer o esforço necessário para ser primeiro mundo. Quer apenas a nossa moleza aqui do Brasil!”.

Por fim, ele fez uma sinalização de que o diagnóstico que deve informar as novas ações é o de que a sociedade brasileira quer aumentar a sua “taxa de conforto”, com mais emprego, mais salário e mais endividamento. Tais demandas emergem de uma ampla mudança na estrutura social que é benéfica ao país e que deve ser apoiada e mantida.

Segundo LCMB, essa mudança já gera efeitos na orientação política de parte do eleitorado. Em pesquisa do Datafolha, notou-se que no espaço de dois anos 10% dos eleitores que se diziam de centro-esquerda já migraram para o espaço da centro-direita. Isso se deve ao fato de que conforme as pessoas melhoram de vida, passam a notar o quanto pagam de imposto e passam a medir os sua posição social com base no seu esforço e passam a demandar reformas que promovam a liberdade de iniciativa e a redução da dependência com relação a políticas de Estado, bem como a demandar melhor qualidade de bens públicos. Por isso, tomar decisões com base em avaliações como a do Alexandre Schwartzman pode ser muito perigoso política e economicamente, por desconsiderar as enormes oportunidades abertas por esse novo momento do Brasil.

– Reportagem no Valor, comentando a palestra de Mendonça de Barros.

 

O extremo otimista: ajuste expansionista e arranque do desenvolvimento

Delfim Netto já chegou dizendo que apreciou bastante as apresentações que lhe antecederam e que as duas se anularam mutuamente, de forma que ele poderia se concentrar no que é relevante para o país.

Segundo ele, o Brasil quer uma sociedade republicana e democrática, na qual o lugar em que você nasceu não determine a sua posição social; ou seja, a sociedade deseja uma persistente expansão das oportunidades.

Para Delfim, isso requer a reativação dos motores do crescimento econômico. Mas não basta qualquer tipo de crescimento. Para ele, a saída está no crescimento liderado pela indústria, a qual deve ser dinamizada pelo comércio exterior; ou seja, para resgatar o crescimento, é preciso abrir mais a economia brasileira de forma inteligente e bem planejada.

No que tange ao diagnóstico, Delfim notou que o Brasil se descolou do crescimento mundial e as causas estariam ligadas a questões internas. Porém, diferentemente dos palestrantes no painel, a causa remonta a 1984, quando a taxa de crescimento da produtividade da indústria reverte sua tendência de ascensão (entre 1950-1980) e passa a cair vegetativamente a 1,5% na média anual para o período pós 1984. São alguns os motivos, a saber:

  • prioridade do gastos público em custeio em vez de investimento em infraestrutura;
    1. excessiva burocracia pública que aumenta o risco das concessões de utilidades públicas;
    2. intervenções nas regras do jogo econômico que afetam a previsibilidade dos investimentos, o que leva à piora do ambiente de negócios;
  • Falta de apoio às exportações
    1. Falta de uma política cambial previsível;
    2. Abandono de taxas de câmbio competitivas, de tarifas efetivas, de absoluta desoneração tributária das exportações, bem como de crédito a taxas de juros internacionais para os exportadores;
  • Falta de uma política industrial que considere que 2/3 do comércio internacionais ocorre dentro das 500 maiores empresas multinacionais, das quais 4/5 estão em território brasileiro. Além disso, é preciso considerar que as importações são importante fator de produção para o crescimento econômico, pois reduzem os custos das exportações e aumentam a produtividade dos fatores, além de transferir tecnologia para a matriz produtiva interna.
  • Governo perdeu credibilidade com o financiamento questionável via BNDES e CEF, contabilidade criativa na área fiscal, intervenções mal sucedidas no setor elétrico e portuário, desarranjo na Petrobrás, ampliação da incerteza no marco regulatório e acirramento da desconfiança entre governo e setor privado.

Nesse sentido, Delfim acredita que as reformas são fundamentais para poder avançar no oferecimento de oportunidades mais amplas para a sociedade. Adiciona que os ajustes conclamados pela oposição durante as eleições não cabe mais no momento histórico do Brasil. Relembra que Robert Lucas pregava o poder didático da queda de salário em colocar o trabalhador no seu devido lugar, mas que tal abordagem encontra severas resistências em um ambiente democrático com sufrágio universal, de maneira que o desemprego necessário para efetuar tal ajuste seria socialmente insuportável. Na decomposição do crescimento do PIB, sugere a seguinte fórmula:

variação do PIB = variação do emprego + variação da produtividade

A variação do emprego se deve ao crescimento da população e na taxa de participação. Quanto ao aumento de salários, relembra que os maiores aumentos ocorreram nas ocupações com rendimentos até 2 salários mínimos, o que gera efeitos mais do que saudáveis sobre a distribuição de renda.

No caso da produtividade do trabalho, educação e saúde são os primeiros fatores explicativos, seguidos por uma melhoria no estoque de capital por trabalhador (infraestrutura + capital privado) com uma qualidade mais sofisticada e a presença de grandes economias de escala oriundas da indústria.

Por fim, Delfim sustenta que o crescimento do PIB virá com a combinação de investimentos públicos e privados impulsionados e preservados pela expansão das exportações, no oferecimento de demanda complementar para a escala mínima necessária para tornar lucrativos os empreendimentos industriais necessários para a retomada do crescimento da produtividade da economia brasileira.

– Reportagem no Valor, comentando a palestra de Delfim Netto.

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