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Por Cesar Martins Guimarães

O convite que me fez o André para escrever um texto em seu blog me pareceu um desafio interessante e uma oportunidade de revanche. O convite veio após eu escrever um longo comentário a um artigo onde o André explicitava sua opção eleitoral pela candidatura Dilma Rousseff no segundo turno das recentes eleições presidenciais.

A justificativa pela opção se dava com base em dados e proximidades teóricas com paradigmas do pensamento econômico que me fizeram recordar de minhas aulas de economia na graduação em Administração – e lá se vão quase quatro décadas -, principalmente as do professor Luiz Carlos Bresser Pereira, do qual, por coincidência, havia recentemente lido uma entrevista onde ele declarava a mesma opção eleitoral do André e por motivos semelhantes.

O desafio me pareceu interessante porque me dava a chance de continuar dialogando com vários campos diferentes do conhecimento – afinal, foi essa possibilidade que me levou a cursar Administração e posteriormente a fazer um doutorado em Psicologia – e uma oportunidade de revanche porque eu poderia trazer os economistas para brigar em meu campo, conversar com eles a partir das teorias que me são mais afeitas.

Assim, se eu “sofro” para tentar entender as complexas teorias econômicas que sustentam as argumentações dos autores que passam por aqui, convido os economistas que frequentam o blog a aceitar um contra-ataque e discutir o tema do Mercado (com eme maiúsculo) sob uma perspectiva completamente diferente, a da psicanálise em sua vertente social-histórica.

 

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O que pretendo nesse ensaio é aprofundar algumas questões que já abordei em meu comentário ao texto do André, uma tentativa de entender o que seria o Mercado como uma significação imaginária, isso é, sob o paradigma da Filosofia e da Psicanálise de Cornelius Castoriadis.

Além de filósofo e psicanalista, Castoriadis era também economista e trabalhou como tal na OCDE até 1970, o que pode estimular você a seguir em frente na leitura, mas se você parar de ler por aqui eu entenderei: não posso querer exigir de você a mesma dose de masoquismo que eu tenho.

Em meu comentário ao artigo do André postulei, provocativamente, que o que chamamos de Mercado é, na verdade, um eufemismo para “os plutocratas”. Aqui pretendo deitá-los no divã.

 

Por que no divã?

Antes de tudo um esclarecimento sobre o que visa a psicanálise. Se você acredita que a psicanálise visa o bem-estar, a alegria ou a paz de espírito, enganou-se. Aliás, a visão psicanalítica de que a espécie humana é incapaz de subsistir a não ser sob uma civilização que interdite seus impulsos ao incesto, assassinato e canibalismo não é algo que contribua exatamente para nosso bem-estar, alegria ou paz de espírito, muito pelo contrário. O que a psicanálise visa é a autonomia, a possibilidade de darmos a nós mesmos nossas próprias normas, o que não é nada confortável porque nos torna responsáveis e imputáveis.

No plano individual significa romper a alienação psíquica daqueles que seguem irrefletidamente as ordens de seu inconsciente para o qual a única questão que se coloca é a do prazer (inclusive os prazeres do incesto, assassinato e canibalismo). No plano social significa romper a alienação social daqueles que seguem irrefletidamente as normas sociais. Assim, proponho aqui uma reflexão sobre as normas ditadas pelo Mercado.

Como nos ensina Castoriadis, uma característica comum a todas as sociedades heterônomas é a de atribuir uma origem externa a suas próprias normas: agimos assim porque essa é a lei que nos foi dada por Deus, pela tradição, pela Razão ou, mais recentemente, pelo Mercado. Assim, colocar o Mercado no divã significa olhar para esse ser mítico – deus ex machina, significação e instituição imaginária social-histórica – sob a perspectiva da busca pela autonomia, do rompimento com a alienação social.  Significa colocar em questão o porquê de obedecer a seus desígnios.

Isso é uma tarefa infinita que tem sido realizada, inclusive nesse espaço d’O Barômetro, com base em diversos paradigmas econômicos. O que proponho aqui é uma singela contribuição a partir de um outro olhar. Isso vai ser uma viagem.

 

Conte-me seus sonhos

Com o que sonha o Mercado? Com muitas coisas, como qualquer um de nós e com o mesmo impulso à onipotência que há em cada um de nós. Nossos impulsos à onipotência encontram barreiras na civilização, como já me referi, mas será que os do Mercado têm encontrado as mesmas barreiras civilizatórias? Não me parece. Acredito que as recentes manifestações de alguns de seus porta-vozes pelo golpe militar, pela secessão de fronteiras variadas, pelo fim dos partidos de esquerda, das políticas sociais e dos canais de consulta popular, além do extermínio dos gays, “feminazis”, “abortistas” e “cubanos” ilustram suficientemente ao que me refiro. Claro que são casos extremos, não significa que todos os porta-vozes do Mercado sonhem com essas mesmas coisas. Só cito esses sonhos porque, como todos os picos, tornam-se mais visíveis, ajudam a intuir coisas que não se explicitam tão claramente.

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Minha intuição, – e ainda é somente uma intuição o que vou compartilhar aqui – é que esses picos nascem exatamente do mesmo magma que alimenta a defesa do Mercado, ou seja, diferem-se pela altura, não pela substância. Estou me referindo a um complexo magma de significações imaginárias ao qual chamarei de a Ideologia do Mercado. Explico o porquê de chamar de ideologia mais adiante, mas quando me refiro a um magma estou tentando construir a imagem de algo que se forma (social-historicamente) a partir de diversos componentes entrelaçados e inseparáveis e que alcança diferentes alturas em diferentes momentos da história.

Vou me deter, neste ensaio, sobre dois dos componentes desse magma: o valor da meritocracia e da competitividade. De certa forma, essa reflexão permeia minha tese de doutoramento, onde analiso as experiências emocionais da recusa ao reconhecimento intersubjetivo no trabalho e concluo que há uma forma de desrespeito social específica que emerge nas situações onde os sujeitos estão submetidos aos modelos de gestão heterônomos (porque ditados pelo Mercado) e que se legitimam a partir de uma suposta (porque ideológica) meritocracia em condição de hipercompetitividade.

Concluo ainda que o medo, a raiva, a tristeza e a vergonha compõem o tecido dessa vida emocional, o que obstaculiza a construção do autorrespeito, da autoconfiança, da autoestima e da autorrealização e, nos casos limites, induzem a psicopatologias como a depressão e a síndrome do pânico. Sim, estou jogando para o Mercado a conta dessas pandemias contemporâneas.

 

Ninguém merece a meritocracia

Algo que está implícito na afirmação “Eu mereço” – e sobre o que pensamos pouco – é que se eu afirmo que mereço algo é porque acredito que haja Outro que não o merece. Ninguém diz que merece ter um nariz, a não ser que acredite que alguém, por algum motivo, poça merecer ter seu nariz decepado ou possa ter merecido nascer sem um.

Adicionalmente, se alguém merece algo e o outro não é porque venceu alguma espécie de competição: alcançou a melhor formação, tornou-se mais inteligente, juntou a maior quantidade de dinheiro, trabalhou mais e melhor ou o que quer que seja essa competição.

Assim, o valor da meritocracia não pode ser entendido a não ser em conjunto com o valor da competitividade (mais um componente desse magma complexo). Ao acreditar nesses valores, concluímos que se há privilégios, o mérito é desses poucos privilegiados e a culpa é dos muitos outros que não merecem, portanto, acesso ao autorrespeito, à autoconfiança, à autoestima, à autorrealização ou ao seu próprio nariz, sem falar do seu autossustento.

Pior ainda são aqueles que desenvolvem quadros psicopatológicos. Esses são uns fracos, cheios de frescura, os maiores perdedores e por sua única e exclusiva culpa. Para usar um jargão anglicista contemporâneo, construímos uma sociedade que gera 1% de winners e 99% de loosers (retiro a proporção das manifestações do movimento Occupy Wall Street). É justo que perguntemos se é isso o que queremos e o que causa isso. Eu jogo para o Mercado a conta das pandemias contemporâneas e o Mercado tenta devolver para 99% de nós.

Decorre desse jogo de empurra o fato de eu apontar para a existência de uma ideologia de mercado, ideologia no sentido crítico do termo, isso é, um instrumento de dominação que age de forma normativa, por meio do convencimento, alienando a consciência.  Entretanto, minha perplexidade diante do poder de convencimento dessa ideologia não decorre simplesmente de meus próprios padrões normativos (éticos ou morais), muito distantes desses e que se sustentam fundamentalmente no princípio da democracia (autonomia e igualdade), mas decorre também da constatação de que essa outra normatividade proposta pelo Mercado é fundamentalmente hipócrita por ser proposta aos outros, mas não seguida. Paradoxal? No mínimo.

 

Faça o que eu digo, não o que eu faço

Proponho que nos debrucemos sobre três paradoxos que, a meu ver, sustentam a tese de que o Mercado não segue o que propagandeia:

  1. As pessoas devem ser recompensadas pelos seus méritos: Uma tese muito fácil de se aceitar, apesar de normalmente não haver como dimensionar o tamanho justo dessa recompensa. Mas experimente concordar com essa tese e propor ao Mercado o fim do direito de herança e a garantia à igualdade de oportunidade por meio, digamos, de uma política de cotas ou bolsas, pois, afinal de contas, para se averiguar o mérito na chegada é imprescindível que todos saiam da mesma linha de partida e que aos mais prejudicados seja dado um handicap Não, o valor da igualdade de oportunidades não faz parte do ideário do Mercado. A única saída a esse paradoxo seria acreditar que se eu nasci de pais ricos (paulistas, brancos etc.) é porque Deus acha que eu mereço (e o Outro não). Não vou discutir essa hipótese. Mantenho-me fiel ao principio da autonomia, à crença de que nós devemos dar a nós mesmos nossas próprias normas e não jogar o poder e a responsabilidade nas costas de algo ou alguém sobrenatural. Se você não compartilha desse princípio, provavelmente nem chegou até aqui na leitura, então posso me furtar a contestar essa hipótese. Ainda bem, pois a teologia não é meu forte.
  2. As pessoas devem ser punidas por seus deméritos: Não serei eu, um freudiano fervoroso, a negar que as pessoas devam assumir a responsabilidade por seus atos. Mas onde se esconde o Mercado quando as crises econômicas provocadas por suas ações especulativas querem cobrar as consequências do desastre? Por que é sempre o Estado, que antes deveria ser mínimo, que, no caos, deve fazer o máximo para pagar a conta deixada pelo Mercado? Por que o Mercado insiste em que o remuneremos por um risco que no fim é exclusivamente nosso? Será que o mercado acredita mesmo que as pessoas devem ser punidas por seus deméritos?
  3. A competição ajuda o desenvolvimento das sociedades: A tese iluminista de que a história da humanidade é um percurso ascendente na direção do desenvolvimento influenciou vários pensadores. O problema é que cada um definiu desenvolvimento de uma forma diferente. Para Hegel seria o aumento da autoconsciência, para Marx o domínio do homem sobre a natureza e a liberdade, para o Mercado, aparentemente, a máxima produção e consumo, conjugados ao mínimo preço e custo (custo financeiro, obviamente, não humano nem ecológico). Acredito serem três significações imaginárias, criações sociais que não se sustentam sobre nenhuma determinação intrínseca ao ser homem e à sua história. Os índios Guayakis, tão humanos quanto qualquer outro humano, nunca se colocaram a questão de atingir a autoconsciência, dominar a natureza ou produzir o máximo possível. Nenhuma dessas três coisas fazia parte de suas próprias significações imaginárias: isso não faz sentido para eles. Também não faz sentido perguntar se os incas deveriam visar a autonomia. É o mesmo que perguntar se eles deveriam ter sido o que não foram, apesar de nenhuma resposta ter o poder de fazer com que eles mudem retrospectivamente. A autonomia não fazia sentido para os incas, mas faz sentido para alguns de nós, pelo menos desde a criação da democracia ateniense. Entretanto, apesar de preferir me pautar pela autonomia e não pelo desenvolvimento, seja como esse desenvolvimento tenha sido definido, vou entrar na sua lógica intrínseca para explicitar este último paradoxo. Se o Mercado acredita que a competição leva ao desenvolvimento, então porque ele próprio prefere evita-la ao se organizar na forma de cartéis e oligopólios? Será que de fato o Mercado acredita que a máxima produção, máximo consumo, mínimo preço, mínimo custo é critério de desenvolvimento? Será que o mercado realmente visa o desenvolvimento como fim? Ou seria um simples meio para atingir seu real objetivo de perpetuar a dominação?

São esses três paradoxos que estão me chamando a atenção no momento. Se alguém tiver uma solução crível, por gentileza, explique-me. Acho que só um economista seria capaz.

 

Aos que chegaram até aqui

Talvez eu tenha exagerado no contra-ataque, não consigo avaliar. Em caso afirmativo, peço desculpas. Não sei se consegui ser suficientemente didático para alguém não afeito à psicanálise castoriadiana. Em minha defesa digo – acreditem em mim – que encarar a obra de Cornelius Castoriadis não é fácil. Suas digressões teóricas se desenvolvem a partir de diálogos (algumas vezes amistosos, outras nem tanto) com Marx, Aristóteles, Platão, Hegel, Kant, Weber, Freud, Lacan, Merleau Ponty, Habermas e outros pensadores de igual quilate. Como ter um repertório desses se você não é o Castoriadis? Não faço a menor ideia, não tenho a menor pretensão. Quando compartilho esses pensamentos o faço no sentido de seguir uma máxima proposta por Castoriadis e que abracei para mim: seja autônomo e contribua o quanto possas para a autonomia de todos. Espero que tenha conseguido, em alguma medida, contribuir para a reflexão de vocês em direção à autonomia individual e social, apesar de ter deixado mais perguntas do que respostas.  Quanto às respostas, espero, provocativamente, que um economista as proveja.

César Guimarães é Bacharel em Administração (EAESP-FGV), Mestre em Administração na área de Recursos Humanos (FEA-USP), Doutor em Psicologia na área de Psicologia Social (IP-USP) e professor do Centro Universitário FECAP.

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