por Jésus de Lisboa Gomes

A liberdade é um patrimônio cujo valor nem sempre conseguimos perceber, exceto ao perdê-la ou, pelo menos, vê-la sob forte ameaça. A democracia moderna tem suas raízes fortemente plantadas na França. Dos ideais revolucionários franceses surgiram as duas revoluções filosóficas que mudariam o mundo para sempre: a Americana, de 1776 e a Francesa, de 1789. Embora tenha ocorrido treze anos antes, a Revolução Americana tem clara inspiração nas ideias libertárias francesas.

As reações na França após o atentado à revista satírica Charlie Hebdo vêm mostrando tratar-se, de fato, de um povo com um profundo amor pela liberdade de expressão. Por aqui, no Brasil, o episódio comoveu a maioria. Mas, ouvi, também, análises que me deixaram preocupado. Por exemplo, os jornalistas e desenhistas da revista seriam provocadores, pois estariam brincando com o fogo do fundamentalismo islâmico; ou que Stéphane Charbonier, o Charb, diretor da revista, era judeu. Na França, sob o lema “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie), espalham-se por todo país, em movimentos de distintas orientações políticas, uma reação em bloco, no sentido de reafirmar a liberdade de expressão como um valor fundamental da sociedade. Não se intimidar e não recuar tem sido as principais palavras de ordem.

Aliás, na França, atribui-se valor muito elevado ao papel desempenhado por uma imprensa livre. Entre eles, desde a Revolução de 1789, chega mesmo a ocorrer um debate sobre quem melhor encarnaria o papel de representante da sociedade no contexto de uma democracia indireta de massa: o Parlamento ou a Imprensa? Entre os revolucionários, Jean-Paul Marat, por exemplo, não tinha dúvida. Essa função era mais bem desempenhada pela imprensa livre do que por um Parlamento profissional. Entre os intelectuais mais importantes da França na atualidade, Pierre Rosanvallon, com base em reflexões profundas sobre a história da democracia, tem recolocado em bom tom essa discussão.

Charlie Hebdo era o símbolo dessa imprensa livre. Uma revista pequena, sempre em dificuldades financeiras, tocada por um grupo de jornalistas e chargistas idealistas. Eles não poupavam ninguém: as mentiras do Sarkozy, a xenofobia de Marine Le Pen, os titubeios de Hollande, as crises existenciais de Ségolène. As religiões e a política eram seus temas favoritos. Por contraditório que pareça, praticava um humor ao mesmo tempo debochado e refinado.

CharlisHebdo

Ao atacar Charlie Hebdo, os jihadistas fortaleceram a extrema direita na França, já bastante fortificada pelo cambaleante Presidente François Hollande, o mais impopular da história recente do país – pelo menos desde a 5ª República. Se, como dizem, os extremos se encontram, aconteceu de novo. Jihadistas e extrema direita aliaram-se, mesmo que acidentalmente. As ações de um lado estimulam, reforçam e tornam previsíveis as reações do seu oposto. Mas, não legitima nem um, nem o outro, pois, a violência não produz legitimidade, mesmo quando os tiranos tentam transformá-la em direito.

A liberdade é um bem precioso. Por isso, a sua conquista e a sua manutenção sempre implicaram sacrifícios de pessoas com coragem acima da média. Minorias muito ativas, que ousaram desafiar todas as estruturas de poder, públicas e privadas, à esquerda e à direita. Como os libertários do passado, Charlie Hebdo, conquistou o ódio dos intolerantes e a admiração de todos que viam em suas caricaturas exageradas uma manifestação que metamorfoseava uma catarse para a extrema impotência que sentimos, ao notar que, no mundo inteiro, tem se colocado muito poder nas mãos de gente tão limitada moral e intelectualmente.

Ici, au Brésil, nous sommes aussi Charlie.

Jésus de Lisboa Gomes é administrador de empresas, Doutor em Ciências Sociais pela PUC/SP. Professor do Centro Universitário FECAP e colunista ocasional do Blog O Barômetro.

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