Depois que o mundo ocidental passou a caminhar em marcha acelerada rumo a um processo de crescente secularização, a ideia de que uma “boa” conduta no mundo terreno poderia ser recompensada com a salvação eterna no paraíso, uma das promessas da teologia cristã, começou a entrar em declínio. John Gray, polêmico filósofo britânico, acredita que essa promessa de salvação da teologia cristã foi substituída, após o século XIX, pelo que chama de “religiões políticas” (uso aspas porque tenho ressalvas ao termo, embora esteja me valendo dele pelo efeito polêmico que provoca). Essas “religiões políticas” teriam substituído, em seu entendimento, a crença na salvação através de Deus pela crença na salvação através do homem. Uma das expressões máximas dessa crença laica na salvação é representada, de acordo com Gray, por boa parte da tradição do marxismo e do pensamento utópico de esquerda que ganha força na Europa após a Revolução Francesa.

A ideia de que existe uma solução para as injustiças sociais que deve buscada através da luta política e obtida ao longo do desenrolar do processo histórico é uma das bases da esperança expressa na filosofia da história de Marx. A utopia, velha companheira de viagem dos marxistas, com sua defesa da rejeição da situação das condições históricas concretas da sociedade presente e da busca permanente de um estado de perfectibilidade a ser obtido no futuro, faz parte da mesma chave salvacionista que caracteriza a filosofia da história marxista (o que não significa que o pensamento utópico seja o único aspecto da tradição marxista). A esperança de uma salvação através da luta política é uma transfiguração laica do messianismo cristão.

Não creio no homem. Considero muito sóbria a advertência de Dostoiévski que alertou para o fato de que o homem é uma criatura volúvel e de moralidade duvidosa. Como me considero um racionalista/materialista/agnóstico convicto, a noção de salvação cristã não faz muito sentido para mim. Menos sentido ainda faz a ideia da esquerda utópica de que é possível a redenção através da luta política, e que essa luta, se travada adequadamente, criaria uma “sociedade justa e igualitária” para todos que encarnaria o “paraíso” imanente na Terra. Não sei se a natureza humana existe, mas caso ela existir, certamente os componentes que levam ao conflito, ao egoísmo, à violência, ao ódio, à desavença, são uma parte fundamental do que a constitui. Tanto a propensão à associação e à cooperação quanto a propensão ao conflito e à violência fazem parte da história desde que se tem algum registro da existência humana. Não conheço nenhum exemplo histórico de sociedade plenamente “justa e igualitária” para todos os seus membros.

Acreditar na possibilidade de uma redenção messiânica do destino humano a partir da luta política possui uma carga de irracionalidade comparável a qualquer uma das religiões que podemos encontrar no amplo inventário de povos e culturas que a história nos oferece. Nós homens somos sem dúvida animais sofisticados, dotados de linguagem e da capacidade de criar símbolos e representações, fato que seguramente nos distingue dos outros animais, contudo, essa distinção não elimina o dado primordial de nossa animalidade. De um ponto de vista estritamente materialista somos um acidente da matéria que se complexificou organicamente a ponto de desenvolver consciência e vida mental. Apenas isso, mais nada. Nenhuma nobreza de caráter, nenhum lugar privilegiado no universo e nenhuma justificativa para crer que nós humanos temos condição ou capacidade transcendente para criar um mundo “justo e igualitário” para todos. O que não significa que eu não queira um pouco mais de justiça e igualdade. É claro que eu quero. O problema é que eu não vejo nenhum sinal no horizonte futuro que me faça crer que por algum motivo os homens se mobilizarão para tal.

O Iluminismo instalou no imaginário coletivo da civilização ocidental a crença no homem, no progresso e no aperfeiçoamento crescente das sociedades humanas que supostamente conduziria a uma plenitude de justiça e igualdade no futuro. O pensamento utópico de esquerda comprou essa ideia e apoiou-se nela para sustentar e justificar o ímpeto de sua luta política. O problema com essa ideia é que a história provou no passado e tem provado no presente a impossibilidade de sua colocação em prática. Se olharmos para o passado e observarmos empiricamente o comportamento humano ao longo da história, infelizmente temos um motivo bastante razoável para rejeitar a crença de que os homens são capazes de criar um mundo “justo e igualitário”.

O século XX provou duas coisas: uma é que a história não anda para frente; a outra é que a história não está do lado de ninguém. Tudo isso me faz tentar entender o que é que faz algumas pessoas acreditarem que existe uma possibilidade de “redenção” imanente no futuro através da política e dedicarem sua vida a um ideal abstrato (não são todas as pessoas que dedicam sua vida a um ideal que acreditam em “redenção” pela política; é importante lembrar, para não parecer que essa é uma reflexão contrária ao envolvimento político das pessoas). Deve ser o medo do vazio e do nada, é uma questão psicanalítica, não é uma questão política, afinal o nosso psiquismo é estruturalmente inclinado a procurar objetos exteriores (uma ideia, uma causa, uma pessoa, um curso, etc.) dos quais se apossa para amenizar a insuportável presença do vazio. Eu que não creio na redenção pela política nem na salvação religiosa só fiquei com eles, com o vazio e com o nada.

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