Timidamente, volto a escrever meus textos (por vezes polêmicos) aqui. Escolho, para a minha reestreia, o debate à atual política fiscal.

No dia em que o mercado previa um PIB em -0,5% para o ano de 2015 (há 10 dias), o ministro Joaquim Levy falava, em um evento repleto de empresários, que não há nada de problemático na atual economia brasileira, já que, segundo o próprio, vamos crescer com poupança e capital humano. A frase, como era de se esperar, causou estranheza. Inúmeros alunos e amigos questionaram a afirmação. Afinal, vivemos na mesma economia que o Dr. Levy?

Nosso produto está em queda, a inflação em uma alta cheia de fôlego, as contas do governo sabidamente descontroladas, e o câmbio provando que não há limites para as desvalorizações do Real frente ao dólar. Quer mais? Os cortes do governo atingiram setores tidos como fundamentais nos últimos 12 anos: saúde, educação, moradia. A taxa de desemprego, usada como trunfo para comprovar a alavancada atividade econômica brasileira está cada dia mais artificial. A Petrobrás já está sendo considerada um investimento puramente especulativo. A qual economia o ministro se referia?

É claro que o ministro visualizava a economia imune aos efeitos perversos das políticas (desastrosas, julgo) dos últimos anos; sim, aquela economia que reage aos ajustes econômicos efetuados recentemente. Com uma plateia seleta, e inúmeros empresários (potenciais investidores), quem seria louco de cometer o “sincericídio” de dizer que sua economia vai mal? De mais a mais, do ponto de vista do gestor público, os ajustes foram feitos, e a receita para fazer o bolo crescer deve funcionar no médio prazo: volta o CIDE, aumenta mais alguns impostos aqui, reduz gastos ali, tempera com um pouquinho de juros lá, e basta esperar para colhermos os frutos do crescimento econômico baseado na poupança e no capital humano. Tudo assim, rápido, imediato, sem grandes transtornos, uma economia projetada no papel.

E sim, é fato que os ajustes fiscais propostos e praticados recentemente devem, tudo o mais constante, elevar poupança, financiando aumentos de investimento. Pena que a economia não reage assim tão rápido quanto a velocidade do pensamento do respeitado Levy. A espera para os frutos do ajuste, como bem sabemos, é custosa para o contribuinte, para o cidadão, para a sociedade. Enquanto o ministro vê, do alto de sua experiência, a economia se ajustando como nas curvas dos manuais macroeconômicos, os efeitos reais de curto prazo estão sendo sentidos, de fato, em todas as esferas. E a pergunta que me surge aqui é: como fazer poupança com inflação acumulada de 12 meses em 7,7% (aumentos superiores às correções salariais), tributos cada vez maiores, produtividade baixa, desemprego se elevando, perspectivas ruins para os próximos meses, entre outros?

E o que se dizer do capital humano? A produtividade é, sim, uma das chaves para a melhoria da economia. Mas ela não nasce por abiogênese. A produtividade passa, necessariamente, por outros estímulos que não apenas as reformas fiscais. São necessários ajustes mais abrangentes, que possibilitem que as empresas melhorem suas condições de concorrência, aumentando eficiência e lucro. Novamente, o ministro apela à simplicidade ao colocar sua solução (sem deixar claro quais seriam as ações para tal), mas não nos conta que, até chegar lá, teremos caminhos um pouco árduos a percorrer.

A repercussão do mercado à eminente tentativa do ministro Joaquim Levy de acalmar os ânimos foi grande, tão quanto a tensão econômica os últimos dias. Muito se comentou sobre a frase ‘apaziguadora’. E, apesar da primeira impressão ser aquela que tínhamos nas falas de Mantega, Joaquim Levy tem se mostrado um gestor muito firme: impôs políticas restritivas, sinalizou ao mercado o comprometimento com as políticas de ajuste, reconheceu a falta de direcionamento das políticas feitas por seu antecessor e, de quebra, ainda prepara a economia para uma recuperação posterior (onde, aí sim, cresceremos às custas da poupança e do capital humano… E viva o resultado dos modelos de manuais de macro!).

No fundo, o ministro Joaquim Levy joga com sua clara credibilidade, apostando todas as suas fichas na eficácia das políticas econômicas. Tem sido firme: não se acanhou mesmo após as críticas públicas feitas pela presidente, e de quebra, dizem que rolou até uma ameaça de demissão caso suas recomendações não fossem seguidas por questões políticas.

Dentro do cenário aqui proposto, caso os ajustes confirmem os resultados previstos, Levy dará um novo sentido ao modo de conduzir e gerir a política econômica na era PT. A confiança do ministro parece levar a este cenário. Entretanto, Levy não deve se esquecer de que, em se tratando do ambiente institucional brasileiro (onde as regras do jogo podem mudar a toda hora), qualquer certeza é, por natureza, incerta.

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