O Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, fez um excelente pronunciamento no final da tarde desse último domingo. Todos os “revoltados” que saíram às ruas deveriam ouvir o que ele disse sobre as medidas que devem ser tomadas para o combate à corrupção. A mais importante delas, de acordo com o ministro, é a mudança no modelo de financiamento de campanha, que é a causa principal da maioria esmagadora dos casos de corrupção. Toda vez que uma doação empresarial é feita a uma campanha, posteriormente é inevitável que quem é eleito retribua o favor (essa retribuição se dá através de favorecimento em contratos de licitações de obras públicas, superfaturamento de obras que as empresas privadas são contratadas para realizar, privilegiamento de determinadas empresas na escolha de prestadores de serviços para o Estado e por aí vai). Não vi nenhum dos “revoltados” que defendem impeachment pedir mudança no modelo de financiamento de campanha. Também não vi ninguém dizer “fora Odebrecht, fora Camargo Corrêa, fora Itaú, e etc.” Por que vocês acreditam que os problemas do sistema político brasileiro têm causas estritamente políticas e não econômicas? Acreditar nisso é pura ingenuidade ou simplesmente indolência intelectual voluntária.

A autonomização da compreensão da esfera política em relação às determinações econômicas criou uma espécie senso comum que faz as pessoas acreditarem que um problema estrutural do funcionamento do sistema político brasileiro, como é o caso da corrupção, tem como causa principal apenas a deficiência ética dos agentes individuais, e não os imperativos sistêmicos que historicamente regeram e que ainda regem a relação entre capital privado e Estado. Sou a favor da economia de mercado e do capitalismo, no entanto, acredito que em virtude da volumosa concentração de capitais nas mãos de um número pequeno de grupos empresariais e da tendência à oligopolização que caracteriza uma série de setores importantíssimos da economia brasileira (como, por exemplo, o agronegócio, a construção civil, a indústria alimentícia e o capital bancário, só para mencionar alguns), as regras de financiamento de campanha deveriam ter os seus parâmetros legais revistos.
Pessoas jurídicas (empresas especialmente, pois são elas que estão sempre envolvidas nos principais casos de corrupção, é só ver o que aconteceu na Lava Jato) não deveriam ter o direito de fazer doações de campanha.

Essas práticas de financiamento constituem a forma mais espúria de privatização do Estado brasileiro e de submissão das instituições públicas aos interesses de um conjunto restrito de grupos econômicos. O PMDB e o PSDB têm feito de tudo para transformar o debate sobre reforma política em uma discussão asséptica sobre se haverá ou não voto distrital e reeleição, e têm se esquivado da mais importante questão, que é a mudança no modelo de financiamento de campanha. O PT (que é um partido com um milhão de problemas e com uma cultura política marcada por um fisiologismo fortíssimo, eu reconheço!) foi o único partido grande que defendeu reforma política com mudança no modelo de financiamento de campanha. O partido no qual votaram a maioria das pessoas que saíram às ruas “revoltadas” contra a corrupção está tentando de todas as formas manter o modelo de financiamento de campanha que possibilitará a perpetuação da corrupção. O PT está envolvido com corrupção e isso é indiscutível. Porém, diferentemente do PSDB e do PMDB, ao menos propôs uma reforma política substancial para atacar as causas da corrupção e não apenas as consequências. Pelo que tem acontecido no congresso brasileiro, ao que tudo indica, essa reforma política substancial será impedida pelo PMDB e pelo PSDB. Só espero que quando isso acontecer (e tudo indica que vai), os “revoltados” do dia 15/03 também se lembrem de ir às ruas.

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