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É hora de apertar os cintos. A tesoura do Ministro Joaquim Levy está chegando. O ajuste Levyano – a ironia é por conta do acaso – vai pegar pesado. E ninguém está imune a ele. Será?

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Uma pessoa de origem social simples me abordou na semana passada e confrontou-me: “você está vendo o que a ‘sua’ Dilma está fazendo conosco”? Ignorando a ilação equivocada, indaguei: “o que foi que ela fez dessa vez?”. Ela me respondeu: “olha a inflação como está, está tudo tão caro”.

Ao concordar com ela que a inflação está incômoda, perguntei se estava-lhe faltando algo. Ela me disse: “é, estou tendo que cortar gastos, não posso mais comprar como antes”. Mostrou-me o extrato do banco, em que o cheque especial e o crédito rotativo subtraem, mensalmente, preciosos e “módicos” valores de seus modestos vencimentos. Segundo ela, se a inflação fosse mais baixa, sobraria mais dinheiro para pagar suas dívidas. E arrematou: “se eu tenho que cortar na carne, o governo também tem”.

Em seguida, ponderou que o reajuste de seu rendimento havia sido, nos últimos anos, o dobro da inflação. Reconheceu estar ganhando mais, melhorando de vida. Onde mora falta água frequentemente, mas ela chega ao trabalho mais rapidamente do que antes.

Por fim, abandonando o tom inquisitivo, ela me perguntou: “Então, por que fico ouvindo em todo lugar que as coisas estão tão ruins? Parece que tudo vai ficar ainda mais difícil!”

Numa tentativa de honesta simplificação, respondi que as coisas estavam difíceis mesmo para todo mundo (e não só no Brasil: veja aqui). O pessimismo contagia os brasileiros e as brasileiras; tempos difíceis por vir.

Na minha visão, o problema estava, parcialmente, sendo agravado propositalmente por meio do ajuste Levyano. Quem influencia a maior parte da produção e divulgação das notícias está com raiva do governo do PT, pois a eleição passada foi muito acirrada, turbinada pelos escândalos de corrupção na Petrobrás. Com isso, reduz-se a tolerância para com o governo e, em face do recuo da Presidente Dilma, o bombardeio de notícias negativas preenche nossos dias.

Assim, tudo o que o governo faz irrita esse pessoal, para quem o problema é o PT. Temo, por vezes, que a crise econômica que se espraia torna-se até aceitável para os setores mais abastados, se o resultado for remover o PT do poder. Foi um(a) amig@ anti-petista (auto-definição del@) que me alegou tal preferência.

Evidenciar que a imprensa influencia esse processo não significa sugerir que a correção do desequilíbrio fiscal seja dispensável. Ao contrário, é indiscutível a necessidade de equilibrar as contas públicas. Isso parece ser tema pacífico dentre os economistas mais moderados de diversas vertentes teóricas.

Nessa primeira aproximação, quis revelar apenas uma das facetas do ajuste fiscal: a construção social, via imprensa, de sua necessidade e premência. Mas por que isso é importante?

A construção das narrativas sobre um problema coletivo visa arregimentar o apoio político de frações da sociedade (segue um exemplo apresentado aqui neste blog). Sob o pretexto da inevitabilidade das circunstâncias, tais narrativas acabam incluindo até mesmo os grupos sociais que serão penalizados pelas medidas que são convencidos a defender. Por isso, conhecer como são construídas é fundamental para entender os interesses, nem sempre claros, que as motivam.

A premissa central que orienta a parcializada “aceitação social” do presente ajuste fiscal é: “o PT quebrou o país, agora deve consertá-lo. Inevitável cortar gastos, pois mais impostos ninguém aguenta”.

Como o assunto é complexo, avançaremos em doses homeopáticas. Nos próximos artigos, buscarei mostrar algumas das inconsistências (teóricas e históricas) que percebo nessa premissa, no argumento que dele se deriva e no plano de ajuste que dos últimos se extrai.

Enquanto isso, vá procurando onde segurar. O barco vai chacoalhar.

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