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Nesse artigo vou ilustrar, por meio de uma metáfora, o problema fiscal que ora nos toma a atenção. Conforme mencionado em artigo anterior, a primeira fase de um processo de mudança política ocorre com a aglutinação de forças sociais em apoio a um conjunto de políticas econômicas. Tal mobilização não se dá, todavia, sem resistência.

O debate entre as diversas visões promove, então, um confronto de narrativas. Em política econômica, o embate de ideias refere-se, em geral, a dois pontos centrais: diagnóstico do problema e proposta de resolução (ou prescrição de política econômica).

Antes de entrar nesses aspectos, vou descrever a “aparência” do problema. Sobre a última não pairam grandes disputas, pois os dados são oficiais e usados por todos os lados do debate. Tentarei ser breve sem, com isso, prejudicar a clareza. 

Um metáfora estratégica

Farei inicialmente uma simplificação das contas públicas, com o intuito de ilustrar o problema.

Orçamento-familiar_1

Imagine um orçamento familiar em que um casal ganha R$ 5.000 mensais. Seus gastos correntes somam R$ 4.500. O orçamento não financeiro dessa família é, portanto, superavitário em R$ 500, conforme a conta abaixo.

Orçamento Não Financeiro = Renda Familiar – Despesas Correntes

R$ 500                        =         R$ 5.000         –          R$ 4.500

Essa sobra de dinheiro poderia ser destinada a despesas extraordinárias, como a aquisição de algum bem longamente desejado, como um automóvel ou um novo smartphone, ou mesmo uma viagem nas férias. Alternativamente, o casal poderia investir esses recursos em aplicações financeiras, na construção de um patrimônio ou em um fundo de previdência privada, em gastos com educação ou qualificação profissional; ou ainda, em uma reforma da casa,

Entretanto, ao observamos o orçamento financeiro do casal, notamos algo preocupante: as despesas financeiras com o serviço de juros de dívidas adquiridas totalizam R$ 600, por uma dívida total de R$ 6.000. Ademais, não há receitas financeiras oriundas de aplicações financeiras, pois o casal nunca conseguiu fazer tais aplicações. Pela simples definição abaixo, nota-se que seu orçamento financeiro fica negativo em R$ 600 (= 0 – R$ 600).

Orçamento Financeiro = Receitas Financeiras – Despesas Financeiras

– R$ 600                    =          R$ 0                –                      R$ 600

Por fim, somando-se os dois orçamentos, chega-se a um déficit consolidado de R$ 100 (conta abaixo).

Orçamento Consolidado = Orçamento Não Financeiro + Orçamento Financeiro

– R$ 100                    =                     R$ 500            –                      R$ 600

Se o casal decidir impedir o crescimento de sua dívida, esta ainda aumentará em um montante de R$ 100 para o período seguinte. Dadas as taxas de juros obscenas que os bancos brasileiros cobram, cerca de R$ 610 deverão ser subtraídos do orçamento do mês seguinte para cumprir com tais obrigações.

No exemplo acima, as despesas extraordinárias ou os investimentos do casal são sacrificados em prol de manter as contas razoavelmente equilibradas. Se quiser a estabilidade da dívida, o casal precisa reduzir os seus gastos correntes em R$ 110 no próximo mês. Menos jantares fora de casa, alguns aplicativos de celular a menos, usar transporte coletivo em vez do carro são as opções que se abrem ao casal. A despeito deste incômodo, o casal resolve seu problema orçamentário em dois meses.

Moral da história: apertando o cintos por meio do adiamento de gastos que não são necessidade primária, o futuro fica mais seguro e mais equilibrado. Troca-se um presente de regalias por um futuro de tranquilidade. Será?

Questionando a metáfora

Veja que o argumento acima faz sentido e caso aquele fosse o desejo do casal, dificilmente alguém o questionaria. Mesmo assim, é válido fazer a crítica do exemplo acima.

Primeiro, o casal poderia investir o dinheiro de sobra em algum empreendimento que rendesse mais de 10% ao mês e, com esse valor, pagar os serviços de juros que crescem à mesma taxa. A dívida cresceria um pouco, mas ficaria estabilizada. Há, porém, algum risco envolvido nessa decisão. Se o empreendimento não funcionar, a dívida pode dobrar de tamanho e o problema fica ainda maior. O estado de confiança em suas ideias e na economia é, portanto, fundamental.

Orçamento-familiar_2

Segundo, vamos supor que o casal se programe para reduzir o tamanho da sua dívida de R$ 6.000. Para tanto, o casal poupa ainda mais recursos, tomando menos banhos que já são mais breves, usando menos eletricidade e aproveitando a pindaíba para entrar naquela dieta. Para ajudar nesse intuito, passam a levar um marmita e a ir a pé ao trabalho, poupando os recursos gastos com a academia; são 5 km de distância, mas a determinação do casal é implacável.

Terceiro, a vontade do casal é impressionante mas… o valor das despesas correntes começa a subir, devido ao aumento de preços dos produtos que o casal compra. A economia fica mais difícil. Consideram então mudar-se para um lugar mais modesto, mais distante do trabalho. A caminhada diária começaria a ficar desconfortável, mas o que se vai fazer? A qualidade de vida vai-se depreciando.

Por fim, apenas para não acabar de vez com o ânimo de você, leitor(a), deixo a questão: se o governo combater a inflação por meio da elevação da taxa de juros, o que acontecerá com os planos do casal de equilibrar o orçamento?

A lógica sugere que a dívida crescerá ainda mais e, a despeito dos maiores esforços do casal, seu plano de reduzir a dívida ficará ainda mais difícil de ser realizado. O que você sugeriria ao casal? Antes de aconselhá-los, saiba que acabaram de ocorrer dois fatos novo: a esposa foi demitida ontem e era ela quem garantia 60% da renda do casal. E o segundo? Ela descobriu, no mesmo dia, que estava grávida… de gêmeos.

No próximo artigo, entrarei no assunto ajuste fiscal de maneira mais direta.

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