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Na semana que se seguiu à confirmação de sua reeleição, a presidente Dilma Roussef voltou atrás em seus compromissos de campanha e, numa guinada abrupta, cedeu às pressões de alguns setores da sociedade por um ajuste fiscal em meio a uma desaceleração que já se desenhava ao longo de 2014, fruto do atribulado ambiente eleitoral.

O tímido ajuste fiscal iniciado nesse ano agravou os já deteriorados sentimentos do mercado financeiro. Após espernear repetidamente pela sua execução, o “mercado” agora dissimula suas pretensões anteriores, conforme os indicadores econômicos mergulham, e finge não ter pedido por isso. A tabela abaixo mostra a queda nos rendimentos reais por setor: note como aqueles sem carteira assinada são os mais expostos às deprimidas condições de demanda agregada.

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O ajuste das contas do governo é necessário, há de se admitir; o problema é como e em qual ritmo ele é feito. Ao recuar de uma proposta progressista de consolidação fiscal poucos dias após sua reeleição, Dilma conseguiu irritar parcela expressiva de seu eleitorado e redobrar os sentimentos raivosos de quem já desprezava e odiava o seu partido.

A economia haveria de sofrer as repercussões de tão exaltado estado de ânimos. A tabela abaixo revela o desânimo disseminado pelo empresariado nacional e pelo consumidor.

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Quanto mais o governo tenta atingir o superávit primário sem quaisquer motores que produzam mais arrecadação via crescimento econômico, o ajuste fiscal vai minguando na vã tentativa de enxugar gelo. A insatisfação popular fortalece a oposição ao governo, enquanto esboroa-se a própria base de apoio do último (por exemplo, as proclamações de independência, ontem, do PTB e do PDT em relação à liderança da base governista na Câmara dos Deputados).

Dois eventos mais recentes são dignos de nota. O primeiro é o aumento da rejeição do governo Dilma, que amarga 71% de “péssimo e ruim” (Leia a reportagem na íntegra aqui). Não apenas tal índice superou a rejeição de Collor em 1992, como mais de 60% dos entrevistados apóiam a abertura do processo de impeachment por parte do Poder Legislativo.

Leia a reportagem na íntegra aqui.

Segundo, cumpre salientar a aprovação, com requintes de crueldade fiscal, pela Câmara hoje, nas primeiras horas da madrugada, de novos gastos com a máquina pública (o atrelamento dos salários de categorias do Judiciário aos vencimentos dos Ministros do Supremo Tribunal Federal), os quais somarão R$ 2,45 bilhões aos gastos de custeio da máquina.

Conforme tais conflitos distributivos vão se acirrando em meio a uma estagnação prolongada, a única salvação do Brasil é a taxa de câmbio. Compartilhamos com o caso Grego, guardadas as enormes diferenças históricas e estruturais, um espaço nulo de política fiscal e uma política monetária cada vez mais ineficaz, dado o alto patamar de nossa taxa básica de juros.

Contudo, diferentemente da economia helênica, temos a possibilidade de utilizar a taxa de câmbio para turbinar o comércio exterior e, com isso, reativar o motor do crescimento econômico via exportações. Para isso, a recente depreciação da taxa de câmbio pode ser um auxílio providencial.

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Fonte: ValorData, link aqui.

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Quando corrigimos o índice para encontrar seu valor efetivo em termos de comércio internacional, há indicações – ainda preliminares – de uma elevação do câmbio, como podemos observar nas duas figuras abaixo.

É difícil saber se o crescimento econômico resgatará a confiança em Dilma. Se o desgaste avançar por mais tempo, pode se formar uma irremediável crise de governabilidade para cuja resolução restará apenas a renúncia “voluntária” ou o impedimento da presidente pelo Legislativo.

A fala de Michel Temer quanto a ser necessário alguma figura política que aglutine forças em torno de uma defesa dos rumos do país é por demais sugestiva para ser um deslize semântico, em particular no contexto de aproximação entre setores do PMDB e o PSDB.

O câmbio depreciado talvez abrevie o sofrimento previsto para a economia brasileira. O fim da agonia da Presidente não parece, todavia, gozar de prognóstico similar.

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