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O espectro da perda do grau de investimento ronda nossa economia. Todos os rumores e notícias a respeito desse assunto têm a ver com a confiança dos investidores estrangeiros em nossa capacidade de pagar nossas dívidas. A organização das contas do governo é fundamental para a manutenção desse crédito.

A ideia é simples: agentes econômicos tomam decisões baseadas em informações disponíveis em cada momento, dentre as quais figuram prioritárias as ações anunciadas de política econômica. Os credores incorporam suas perspectivas em seus cálculos econômicos.

Contas desajustadas sugerem, aos olhos dos credores estrangeiros, incapacidade gerencial do governo e, com esta, aflora a possibilidade de nossa moeda degenerar num processo hiperinflacionário. Cresce o preço que cobram pelo seu rico dinheirinho emprestado, o chamado risco-país que infla a taxa de juros que cobram de nós.

Se tal risco aumentar demais, regras internacionais obrigam grandes fundos de investimento a retirar seu dinheiro do país, para proteger seus patrimônios de possíveis riscos de calote (mais sobre este assunto em outro post futuro).

A tabela abaixo mostra a difícil tarefa de enxugar os gastos no Brasil. Como o mercado financeiro foca sua atenção na penúltima linha – “Resultado Primário” do Governo – mesmo que se consigam cortar alguns gastos, a arrecadação não cresce o bastante em tempos de estagnação econômica. Basta conferir a evolução da receita líquida (receita bruta menos transferências diretas às famílias) e das despesas totais na linha abaixo.

Captura de Tela 2015-09-06 às 05.12.27

Dados até julho/2015

A cada hesitação do governo em anunciar metas fiscais consideradas “críveis” pelo mercado, tal percepção negativa de risco ganha vigor e o espectro da perda de grau de investimento volta com força na imprensa.

Um ajuste fiscal que demonstre compromisso do governo em enxugar os gastos correntes e aprimorar a qualidade da gestão, espera-se, aumenta a confiança no futuro e, alega-se, induz os empresários a destravarem os investimentos que trazem de volta os áureos tempos de aumento de emprego, de renda e bem-estar econômico.

Daí a ideia de uma “contração expansionista”, um futuro mais brilhante à custa da dor da correção no presente. Porém, se cortar gastos no Brasil é difícil, vejam como é ainda mais complicado manter a arrecadação. O resultado primário desce de escada e a dívida interna sobe de elevador (espera-se que ela atinja 66% ao final de 2015, em seu conceito bruto).
Captura de Tela 2015-09-06 às 05.07.52 Captura de Tela 2015-09-06 às 05.08.37Enfim, eis a tarefa do ministro Levy: tentar manter o pano seco ao enxugar gelo. O entrevero do Executivo com o Congresso retarda o ajuste fiscal e deixa a economia agonizando, o que leva a uma arrecadação titubeante.

O governo reage tentando encontrar novas formas de arrecadação, elevando alguns impostos e tentando (re)criar outros, o que piora ainda mais a perspectiva dos empresários, por elevar os custos da produção e encarecer o consumo. Popularidade do governo em queda torna ainda mais distante a resolução do problema e reforça a resistência a qualquer medida nova.

Fugidio é este ajuste.

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