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Nesta breve série de três artigos exploramos as características do crescimento da oferta de crédito nos últimos seis anos, enfatizando o papel dos bancos públicos que tiveram a liderança no processo expansão e o impacto fiscal.

O ponto inicial é a identificação que ocorreu um crescimento acentuado na oferta de crédito na economia brasileira entre março de 2007 a junho de 2015. Em números, o nível de crédito passou de 30,7 para 54,47% do PIB, representando um salto de cerca de 24 pontos percentuais[1]. A expansão apresentou uma distribuição proporcional entre pessoa jurídica (16,7% em 2007 para 28,8% em 2015) e física (14% em 2007 para 25,7% em 2014) (gráfico 1).

Gráfico 1 – Oferta de crédito: março/2007 – junho/2015 (em % do PIB)

oferta de credito total 2007-2015

Fonte: dados do BACEN e elaboração do autor

A mensuração em termos de participação no PIB permite identificar a importância do crédito no funcionamento da economia, reduzindo os efeitos da distorção provocada pela variação de preços ao longo do tempo e capaz de permitir comparações entre diferentes períodos e países.

Na comparação internacional, o Brasil é um caso intermediário (gráfico 2). Entre os países latino-americanos está na frente do México (19,40%) e próximo do Chile (69%). No entanto, distante da Coreia (98%) e da China (124,4%) que possuem uma estrutura produtiva e de consumo mais entrelaçada com o setor financeiro, apesar de serem países em desenvolvimento. Ao mesmo tempo também distante de países desenvolvidos como Alemanha (100,5%) e França (114,3%) que possuem maior tradição, institucionalização e entrelaçamento entre setor financeiro e real.

Gráfico 2 – Crédito para o setor privado: média 2011-2013 e países selecionados (em % do PIB)

comparacao internacional

Fonte: dados do Banco Mundial (2015) e elaboração do autor

Nota: discrepâncias em relação ao Banco Central ocorrem devido à metodologia de ajuste feito pelo Banco Mundial e os períodos diferentes.

O endividamento em si não é ruim. Ao contrário. Ao longo da história os países desenvolvidos e de industrialização recente apresentaram crescimento do endividamento como comum e necessário para acelerar os ciclos de consumo e investimento, também para captação e alocação de poupança. Além contribuir para melhor nível de consumo, distribuição de renda e bem-estar da sociedade.

Os benefícios estariam fortemente relacionados ao chamado “desenvolvimento financeiro” através de estruturas institucionais, relações entre os agentes e regulação do estado que impulsionem o florescimento do mercado de capitais, produtos financeiros, relações de débito e crédito. No aspecto do crédito, as implicações seriam redução de custos dos empréstimos, alargamento dos prazos de vencimento, redução de riscos e melhor regulação, maior competição entre as instituições financeiras que contribuíram contribuiriam para reduzir as margens de ganhos para um mercado competitivo.

O como promover esse processo sem criar distorções negativas é um ponto central de debate sobre o tema, especialmente nos países que estão em processo de desenvolvimento e montando sua estrutura financeira[2]. Por exemplo, a instabilidade financeira e evidências da formação de bolhas no mercado acionário e de crédito chinês podem ser atribuídas, em parte, a dificuldade de desenhar mecanismos regulatórios e de intervenção adequados às particularidades daquele país[3]. Enquanto na Alemanha e França as estruturas condicionantes do sistema financeiro e de crédito são mais maduras, estáveis e integradas à economia.

Os sistemas financeiros modernos em países desenvolvidos ou em desenvolvimento possuem a participação do estado através da regulação e intervenção direta.

O papel de regulador visa garantir os direitos de propriedade que são fundamentais para o relacionamento entre os diversos agentes, resguardando e punindo as más práticas bancárias e financeiras[4]. Por exemplo, estabelecer restrições mínimas para análise de crédito e concessão de empréstimos, garantir a execução das punições em caso de insolvência. É claro que podem ser medidas falhas regulatórias e gerarem instabilidade e crises, assim demandando aprimoramento constante.

A intervenção direta ocorre através da imposição de crédito direcionado ou instituições públicas que possuem a tarefa de direcionar a oferta de crédito em condições subsidiadas (maior prazo e menores juros). O motivo é que a intervenção permite a estabilização da economia e utilizada como extensão da política econômica e de desenvolvimento. Por essas características, a capitalização e os fundos das instituições tendem ser originados de estruturas de poupança compulsória ou aportes dos governos.

No próximo artigo buscamos aprofundar a discussão sobre o papel dos bancos públicos no crescimento da oferta de crédito no caso brasileiro.

Notas

[1]A metodologia do banco central do Brasil – BC para estimar a participação da oferta de crédito no produto é dada pelo volume crédito no tempo t em relação ao produto corrente acumulado nos 12 meses anterior, multiplicando o resultado por 100,2.

[2] A discussão recente sobre a relação entre setor financeiro, estabilidade e crescimento nos mercados emergentes pode ser lido em Sahay et al. (2015)

[3] A discussão sobre a tensão na política financeira chinesa é discutida por autores como Deer (2015) e Sheng e Geng (2015). O tema é um dos grandes questões sobre o futuro da economia chinesa e o modelo de desenvolvimento a ser adotado.

[4] O debate sobre o papel do estado na regulação do setor financeiro é antiga. Por exemplo, as contribuições pelos modelos de micro regulação originado nos anos 1980s deram a Jean Tirole, o Nobel de Economia de 2014. No entanto, o tema retornou ao centro das atenções a partir da crise de 2007-08, quando demostrou falhas nas estruturas de incentivo e na fiscalização norte-americana. Para ver mais os princípios da regulação financeira atual recomendamos o trabalho de Charles Goodhart et al. (2009).

Referências

BANCO MUNDIAL. Global Financial development report 2015/2016. [S.l.]: [s.n.], 2015. Disponível em: < http://www.worldbank.org/en/publication/gfdr >. Acesso em: 03 setembro 2015.

DEER, L. China’s stock market crash reveals financial policy tensions. Institute for New Economic Thinking, 24 julho 2015. Disponivel em: < http://ineteconomics.org/ideas-papers/blog/chinas-stock-market-crash-reveals-financial-policy-tensions >. Acesso em: 03 setembro 2015.

GOODHART, C. et al. The fundamental principles of financial regulation, 2009. Disponivel em: < http://www.princeton.edu/~markus/research/papers/Geneva11.pdf >. Acesso em: 20 junho 2015.

SAHAY, R. et al. Rethinking financial deepening: stability and growth in emerging markets. IMF Staff Discussion Note, maio 2015. Disponível em: < https://www.imf.org/external/pubs/ft/sdn/2015/sdn1508.pdf >. Acesso em: 13 junho 2015.

SHENG, A.; GENG, X. China in the debt-defaltion trap. Project Syndicate, 24 setembro 2015. Disponivel em: < http://www.project-syndicate.org/commentary/china-debt-deflation-trap-by-andrew-sheng-and-xiao-geng-2015-09 >. Acesso em: 25 setembro 2015.

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