Quem acompanha os grandes jornais ou os principais blogueiros do país deparou-se com a mudança nos comentaristas que cederam seus espaços para mulheres das mais diferentes origens para falar sobre a situação vulnerável que a mulher ainda se encontra no Brasil. Essa iniciativa faz parte do movimento #AgoraéquesaoElas idealizado por Manoela Milklos em reação ao projeto de lei que tramita na Câmara dos Deputados com o objetivo de dificultar o aborto em caso de estupro e o fornecimento da pílula do dia seguinte na rede pública de saúde, representando um retrocesso em relação aos direitos das mulheres.

Ao ver o movimento me sensibilizei com a causa, afinal qualquer mulher já sofreu algum tipo de assédio ou se sentiu vulnerável no Brasil. Comentando sobre o movimento em minha sala de aula em uma universidade de São Paulo, acabei me deparando com alguns comentários machistas por parte de um dos alunos, o que prontamente, gerou protestos por parte do restante da turma, principalmente pelas meninas que se posicionaram de forma contundente contra os comentários. Esse episódio provocou em mim sensações contraditórias: um certo espanto por um universitário de cerca de 19 anos ter pensamentos machistas em pleno século XXI, o que demonstra que ainda há muito por fazer; e uma alegria ao ver que as meninas não acham esse comportamento “normal” ou aceitável, demonstrando que as mulheres estão, cada vez mais, cientes de sua condição e dispostas a lutar contra o preconceito sofrido.

Ao final da discussão, uma aluna me fez uma pergunta muito interessante: quantas teóricas de relações internacionais existiriam no mesmo patamar dos principais nomes da área, como Robert Keohane, Joseph Nye, Alexander Wendt, Nicholas Onuf ou Keneth Waltz, responsáveis pelas linhas mestras e os grandes debates da disciplina de Relações Internacionais. Tentando puxar pela memória só consegui lembrar, com muito esforço de três autoras: Lisa Martin, Helen Milner e Mary Kaldor, sendo que essas duas últimas fazem parte de subáreas de Relações Internacionais, como Análise de Política Externa, não sendo, portanto, autoras de teoria.

Também fiz essa mesma pergunta a alguns outros colegas da área e sempre todos tiveram a mesma dificuldade em lembrar nomes femininos, o que demonstra que uma disciplina como Relações Internacionais que possui um discurso inclusivo, de defesa dos direitos humanos e, portanto, de igualdade de gênero, na prática, não o faz. Isso seria mais um reflexo da situação da mulher no ambiente internacional, já que, conforme alguns textos publicados como parte desse projto, até hoje não tivemos uma secretáriA-geral na ONU, temos pouquíssimas ministras das relações exteriores ou embaixadoras nas grandes organizações internacionais, sendo relegados às mulheres o papel apenas da implementação da política externa dos países, deixando-as distantes de participar da formulação da política exterior.

Convido os leitores desse blog a fazerem a mesma indagação em suas áreas de atuação: quantas mulheres seriam responsáveis pelos principais trabalhos e pesquisa da mesma?

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