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Nós mulheres somos a maioria. Mas isso não significa que ocupamos a maior parte dos espaços, especialmente os que concedem destaque, os espaços públicos.

As mulheres, historicamente, ficaram sujeitas ao âmbito doméstico, privado e, por conseguinte, as opiniões e ideias femininas receberam pouco eco. Ou ainda, quem duvidaria de que algumas das ideias geniais que mudaram os paradigmas da humanidade foram, na verdade, gestadas por mulheres e apropriadas por homens, na medida em que eles sim sempre ocuparam os espaços públicos?

No que diz respeito especificamente ao meu campo de atuação, a Economia, essa desigualdade de inserção e de influência é ainda gritante. É claro que, nos últimos anos – pelo menos comparando a minha geração de graduação, por volta de 2001, com a geração atual para a qual leciono – o número de mulheres economistas aumentou. Creio ser esse um fenômeno não apenas do Brasil, mas do mundo inteiro. As mulheres têm cada vez mais ocupado espaços que antes eram tipicamente masculinos, tal como as Ciências Econômicas. Num futuro muito próximo (tomara!), esse processo certamente se refletirá nas referências bibliográficas que guiam os cursos de Economia, incrementando a participação feminina nelas.

Mas se olharmos hoje para as principais referências consolidadas na Economia, há pouquíssimas mulheres que ganharam papel real de destaque. No meu esforço de memória, sem recorrer ao google ou a colegas da área, três nomes me vieram à mente: Joan Robinson, Rosa Luxemburgo e Maria Conceição Tavares. Muito pouco, não? Outro exemplo feminino mais recente é o de Deirdre McClosckey, importante pensadora na área de Metodologia. E interessantíssima, na medida em que, além do feminino, traz consigo outra bandeira, a das transgêneros.

Se adicionarmos a perspectiva de raça à perspectiva de gênero, o quadro fica ainda mais desigual. Se no Brasil somos em maioria mulheres e se a maioria das mulheres no Brasil constitui-se de negras, onde estão elas?

A Economia contém em si um instrumento muito poderoso para influenciar os rumos da vida das pessoas. Apoderar-se da Economia, portanto, é um passo crucial a ser dado para corrigir as desvantagens históricas que as mulheres têm com relação aos homens e que as mulheres negras têm com relação às mulheres brancas. Ninguém melhor do que aquelas que sofrem os problemas na pele para analisar e pensar soluções para superá-los. Nesse sentido, influenciar a Economia por dentro, buscando construir teorias, abordagens e instrumentos mais adequados a problemas tão específicos e enraizados, mostra-se como um caminho potencialmente revolucionário de mudança.

O empoderamento feminino e a superação definitiva do machismo, da misoginia, e das diversas formas de assédio que deles procedem, passam por esse processo de ocupação dos espaços públicos, no âmbito acadêmico, no setor público e no mercado privado. Ocupemos, então, definitiva e visceralmente, as Ciências Econômicas!

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