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Meu afastamento do blog se deve a excesso de trabalho em outras frentes. Porém, muita gente tem me perguntado sobre o motivo de tanto estardalhaço em volta da decisão de manter a SELIC em 14,25% tomada ontem pelo Banco Central.

Vai uma breve nota explicando minha visão sobre as reações do mercado, uma extensão de uma participação num debate pelo facebook.

O problema não foi ter deixado a taxa inalterada, mas ter insinuado anteriormente que iria elevar e, na véspera da reunião começar a indicar o oposto, a partir da revisão das projeções de (de)crescimento feitas pelo FMI (que prevê piora da atividade econômica) e da conversa do presidente do Bacen Alexandre Tombini com a Presidente da República no dia anterior.

O mercado receia que o Bacen esteja sendo cooptado pela presidente, abandonando o seu mandato de controlar os preços. O problema é, portanto, a súbita mudança de opinião e o que isso significa para o futuro.

A reação dos agentes de mercado (financeiro) se apoia na leitura de que a inflação tem três causas (entre parênteses, o diagnóstico do próprio mercado):  (1) excesso demanda (considerada inativa), (2) choque de oferta (aceita-se a elevação dos administrados como principal causa) e (3) expectativas inflacionárias (este sim o principal componente-problema, pois é o único que o Bacen ainda controla).

A partir da interpretação “teórica” que o mercado faz sobre a “adequada” política monetária, ao abdicar de elevar a taxa de juros, o Bacen sinaliza que “não cuidará da inflação” com a rapidez e o vigor necessário. As expectativas inflacionárias cuidariam de carregar essa inflação passada para frente, reanimando o repasse descontrolado de preços (chamamos de “inércia inflacionária). No passado, aprendemos que se este elemento se descontrola, a política monetária de taxa de juros perde ainda mais sua eficácia.

Por isso, ao meu ver, houve tanto rebuliço sobre a não elevação, muito embora parcela substancial do mercado acredite que o impacto real dos juros sobre os preços é praticamente inexistente nesse nível de taxa de juros. Mesmo assim, a ideia era subir os juros para ancorar as expectativas, tarefa que a recessão também já está fazendo, em meu ver, de forma bem mais eficaz.

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