Tags

, , , , , , , ,

Finalmente fui assistir ao polêmico filme “A Grande Aposta”. Sem focar os excessos luxuosos e libidinosos dos financistas caricaturados em O Lobo de Wall Street, o filme vale muito a pena pela didática com que revela os bastidores do mundo financeiro.

Todavia, pode ser difícil acompanhar a narrativa, caso o espectador não esteja antenado na interminável discussão na mídia e na academia sobre as causas da crise de 2008. No livro de Michael Lewis, como é esperado, há uma riqueza muito maior de detalhes de reuniões, diálogos, históricos das personagens e seus conflitos pessoais e familiares, algo que o filme consegue desvendar magistralmente ainda que de forma bastante abreviada.

Por isso, preparei este post para auxiliar no preparo do leitor para poder se deliciar com a qualidade narrativa do filme e não ficar detido no incontornável jargão financista que o longa carrega (se você gosta de usar filmes para aprender sobre economia, segue uma lista preparada aqui em outra ocasião).

A ideia do filme é contar como um pequeno conjunto de investidores antecipou o derretimento do mercado imobiliário americano e apostou contra as hipotecas imobiliárias, consideradas à época um investimento livre de risco. Para tanto, pequenos fundos de investimento incitaram os grandes bancos (dentre eles, Goldman Sachs, Merrill Lynch e Deustsche Bank) a criar instrumentos financeiros que permitissem gerar rendas financeiras a partir da inadimplência de contratos de crédito imobiliário que literalmente explodiram na esteira da crise das empresas pontocom e do 11 de setembro de 2001.

O castelo de cartas começou a desmoronar em 2007 e culminou seu poder destrutivo em setembro de 2008, com a quebra do banco Lehman Brothers. A história do filme retrata quem previu, apostou contra e enriqueceu rapidamente quando o mercado imobiliário derreteu. No link a seguir, você pode assistir ao trailer de “A grande aposta”.

Já havia lido o livro de Michael Lewis, The Big Short (traduzido par ao português pela editora Best Business como A jogada do Século), em que se baseia o roteiro deste imperdível longa-metragem que conta com grande elenco. Christian Bale, Brad Pitt e Ryan Gosling estão excelentes, como sempre. Porém, Steve Carrell está simplesmente estonteante no papel do personagem fictício Mark Baum, que não figura no livro de Michal Lewis.

A sacada mais criativa dos roteiristas e do diretor foi utilizar personagens do mundo cinematográfico, “pop” e acadêmico, como Margot Robbie explicando os CDOs (a loira que arrasa com o coração de Jordan Belford, personagem de Leonardo DiCaprio em O Lobo de Wall Street) e a dobradinha Selena Gomez e Richard Thaler, professor da Universidade de Chicago, para explicar os verbetes de forma didática, repleta de metáforas ilustrativas.

images

Para quem gosta de spoilers, segue a resenha de Vinicius Torres Freire publicado na Folha de S.Paulo. Você também pode refletir sobre algumas lições de Investimento que o filme permite extrair.

Por fim, não estraga nada a experiência ler sobre as personagens do filme (quem é real e quem foi “inventado” pelos roteiristas) e, abaixo, você encontra um guia para entender o “economês” utilizado no filme, preparado pela revista Isto É Dinheiro.

Bom filme e boa semana a todos e a todas!

Crise de 2008 – De proporções globais, sua origem ocorre nos EUA com uma elevação artificial, manipulada, dos preços dos imóveis. A chamada bolha imobiliária levou os preços dos imóveis às alturas e depois ao chão, e foi precipitada pela falência do tradicional banco de investimentos americano Lehman Brothers, fundado em 1850. Em efeito dominó quebraram no processo também conhecido como “crise dos subprimes”. Em outubro de 2008, a Alemanha, a França, a Áustria, os Países Baixos e a Itália anunciaram pacotes que somavam 1,17 trilhão de euros em ajuda ao seus sistemas financeiros.

Derivativos – Entender o fio da meada do filme é antes de tudo compreender o que são os tais derivativos. Derivativo é um contrato no qual se estabelecem pagamentos que serão feitos no futuro por alguém.  Esse, digamos, compromisso é calculado com base no valor assumido por algum indexador.  Pode ser o preço de algum bem, de uma ação, câmbio, taxas de juros entre outros. No filme todo o enredo é pontuado pelos derivativos.

Título de Crédito Hipotecário ou Letra Hipotecária – É um papel lastreado em crédito imobiliário, aplicações geralmente de médio e longo prazo. Servem para que os bancos possam oferecer financiamento imobiliário a seus clientes. Para captarem recursos, lançam esses títulos ao público cujo rendimento é baseado nos próprios empréstimos cedidos pelos bancos.

A pirâmide de dominó (Triple A-Double B) – Em um determinado momento do filme um dos protagonistas, tentando vender seu peixe, monta uma pirâmide de dominó para explicar o inexplicável. Como transformar os chamados créditos podres, tóxicos como se dizia na época, em papéis rentáveis e bons. Há uma classificação que as agências de risco fazem (Standard & Poors, Moody´s, Fitch) para avaliar se um investimento é bom ou não. A maior – e melhor – classificação é dada a nota AAA+, o triple A. Os títulos do Tesouro americano têm essa classificação. A medida que o risco de que o tomador do  papel aumento (na prática o risco de levar um calote), esta nota vai baixando. Os papéis de hipoteca citados em “A Grande Aposta” são duplo B (BB). Mas, na estratégia traçada pelos especuladores, podem render um bom dinheiro a quem se arriscar.

Subprime – As hipotecas de alto risco, conhecidas como subprime, eram empréstimos concedidos a clientes que não tinham boa avaliação de crédito nos EUA. Ou seja, pessoas que, antes, não conseguiam financiamento para casa própria. Como os juros americanos estavam em patamar muito baixo (em 2003, a taxa anual era só de 1%) e a economia vinha crescendo com força, os bancos passaram a atender esses clientes em busca de retornos maiores.

Credit Default Swap (CDS) – Muito citado no filme, é um instrumento financeiro geralmente negociado por investidores no mercado de renda fixa (obrigações) para especular ou fazer uma espécie de seguro caso uma empresa não pague a sua dívida. Uma forma de papel negociado no mercado financeiro para o chamado risco de crédito. Já no início do filme há referências importantes do CDS, quando se tenta vender esses papéis aos fundos de investimento.

CDO (Collateralized Debt Obligation – Obrigação de Dívida Colateralizada) – Instrumento bastante sofisticado e também muito citado no filme. Imagine que alguém tome um empréstimo e dê como garantia um ativo qualquer. Aí vem a parte complicada: quem fez o empréstimo vende o direito de receber os juros e o dinheiro do empréstimo em algum momento no futuro. Com a venda, há um repasse da dívida que está garantida pelo ativo dado de garantia. Daí o nome de dívida colateralizada.

Operar comprado ou vendido – Uma expressão também muito usada no filme, refere-se à aposta que os especuladores fazem sobre alta ou baixa dos papéis. Na prática significa assumir posições fortes, que no jargão é descrita como alavancagem, de se apostar na alta de algum papel (operar comprado), ou na baixa (operar vendido) em algum momento no futuro.

 

 

Anúncios