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Acabou de sair o Relatório Focus do Banco Central. Você sabia que existia esta publicação? Entende a sua importância? Vou tentar explicar de uma forma simples.

O Banco Central consulta mensalmente o “mercado” para saber as percepções quanto a inflação e taxa de juros para os dois anos seguintes. Colhem-se as opiniões de vários bancos, corretoras, consultorias e outros agentes de mercado que têm departamentos econômicos ou economistas profissionais.

Trata-se, portanto, de uma leitura especializada e, supõe-se, bem informada sobre a economia. O relatório pode ser encontrado neste link. Todavia, uma nota ao final do relatório deixa bem claro o caráter estritamente consultivo da pesquisa, isto é, não afeta as decisões da instituição:

O conteúdo deste documento é informativo. Não restringe as ações de política monetária e cambial do Banco Central do Brasil.

O termo “mediana” indica o valor que divide o grupo de consultados em duas metades iguais. Note como, no caso do IPCA, na segunda e na terceira coluna da tabela abaixo, em 30 de novembro de 2015, 6,65% era a inflação prevista até o final de 2016 que separava os mais otimistas (que previam uma inflação mais baixa) dos mais pessimistas quanto ao comportamento dos preços. Em 31 de dezembro, este valor subiu ligeiramente para 6,87%.

Na sexta-feira passada, dia 29 de janeiro de 2016, a mediana havia pulado para 7,26%, função de algumas elevações de preços programadas (energia elétrica e alguns tributos) e da decisão do Copom do último dia 20 de janeiro, em que a SELIC foi mantida em 14,25% ao ano.

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Veja, agora, como os eventos ocorridos no mês de janeiro afetaram a previsão da inflação para 2017, que pulou de 5,20% (em 31/12/2015) para 5,80% (em 29/01/2016).

(A parte inferior da tabela acima mostra a evolução trimestral da pesquisa; isto é, em 31 de julho de 2015, a mediana do mercado indica que os agentes previam uma inflação de 5,40% para 2016 e 4,70% até o final de 2017).

Ainda na tabela acima, na coluna da direita, podemos ver como evoluiu a percepção do mercado quanto à reação esperada da taxa de juros. Compare a evolução da segunda e terceira colunas com a da terceira.

Em tese, se a inflação esperada sobe, os agentes antecipam que o Banco Central elevará a taxa de juros para combatê-la. (Sugestão: Se você tiver dúvidas sobre o que foi dito neste parágrafo ou não entendeu nada, leia este post).

Observe que esta percepção se manteve até 31/12/2015: a taxa de juros acompanhava a expectativa de uma inflação crescente (se você acompanhar a parte debaixo da tabela, fica ainda mais evidente como o mercado previa que o Bacen reagisse ao aumento da inflação).

Em 29/01/2016, isso muda. A despeito da elevação das previsões da inflação para 2016 e 2017, a taxa de juros esperada em janeiro de 2017, em vez de subir, acaba caindo. São duas as explicações: (1) o Banco Central perdeu a credibilidade e o mercado não acredita que ele fará o que for necessário para conter a inflação, o que exige, pela regra, que ele suba a taxa de juros até a inflação ceder (mais sobre isso aqui); e (2) o mercado concorda com o Bacen em que a elevação dos juros tem um efeito cada vez menor sobre a inflação, não valendo a pena insistir no instrumento (leia um breve post sobre isso aqui).

Por fim, segue uma breve explicação sobre os gráficos das distribuições de opiniões do mercado. Uma distribuição mostra, no eixo y, a porcentagem dos consultados (frequência relativa) que deu cada um dos valores para a taxa SELIC em janeiro de 2017 (eixo x). As porcentagens vão sendo acumuladas, conforme vamos caminhando da esquerda para a direita no eixo x, de forma que o total deve somar 100%, isto é, todos os agentes consultados.

Usando a linha amarela, podemos ver que quase ninguém acreditava em 30/11/2015 que a selim em 2017 seria 10,5% (note que no eixo y, o valor é próximo a zero). Ao aumentar o valor esperado da SELIC, uma proporção maior de agentes vai confirmando suas previsões. Quando chegamos em 13,75%, atingimos uma frequência de respostas que acumula 50% dos consultados, ou seja, a mediana (vide a primeira linha da 4a. coluna da tabela acima).

A linha amarela mostra dois grandes grupos que se juntaram em percepções diferentes: os picos de 12,5% e outro, mais denso ainda, e, 14,5% (chamados isso em estatística de uma distribuição bi-modal, pois parece haver duas “modas”, ou seja, dois valores mais repetidos dentro de uma distribuição).

Note como o mercado vai abandonando essa divergência e concentra-se em 14,75% em 31/12/2015 (linha vermelha) e, por fim, a grande parte do mercado agora acredita que a taxa SELIC estará em 14,25% em janeiro de 2017 (observe a altura do pico da linha tracejada em vermelho-escuro indicando, no eixo y, uma maior concentração de respostas correspondente a este valor no eixo x). (Sugestão: como treino, faça o mesmo exercício de leitura no gráfico inferior da figura abaixo e tente interpretar o significado econômico)

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Usando o roteiro exposto acima, o relatório Focus indica que, para 2016, o mercado está prevendo uma inflação mais alta, a partir dos dados de janeiro de 2016, muito embora com mais discordância entre os agentes (veja como a distribuição com linha tracejada fica mais “gordinha” no lado esquerdo do pico do que do lado direto, o que mostra maior frequência de consultados que acredita em inflação maior em 2016).

Para efeito de comparação,perceba que em novembro e dezembro (linhas amarela e vermelha), o pico das distribuições (a mediana) fico praticamente estável. Compare esta evolução com aquela do gráfico inferior esquerdo da figura abaixo, para notar como o mercado vai lentamente deslocando sua percepção rumo a taxas de inflação mais elevadas.

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Para 2017, podemos observar nos gráficos à direita da figura acima, que o mercado vai também revendo para cima a inflação esperada, com picos mais à direita (na linha tracejada vermelha) do que aqueles observados nas linhas amarela e vermelha que indicam pesquisas anteriores.

Ufa… este foi um post denso, eu sei! Mas, agora você está mais pronta(o) para ler estas publicações e formar sua própria opinião e ler o que se diz por aí na imprensa e nas redes sociais.

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