Na década de 1970, a OPEP era mais coerente e praticamente monopolizava a produção mundial de petróleo e gás. A dependência do mundo os incentivou a elevarem o preço dos combustíveis, incorporando motivações política devido aos conflitos no oriente médio e a necessidade de mais recursos, sendo o que foi denominado posteriormente de “choques do petróleo”.

Inicialmente, o impacto nos países consumidores foi o racionamento de combustível, elevação dos custos de produção e aceleração inflacionária. Ao mesmo tempo motivou a introdução de medidas legais e regulatórias que reduzissem o consumo de petrolíferos. Por exemplo, estabelecer como novo limite de velocidade mais baixo, incentivo ao uso de combustíveis alternativos como carvão, etanol e o transporte público.

Na época os efeitos foram tão negativos que aparentavam anteceder o colapso econômico e político da civilização. O cenário desenhado indicava algo parecido ao retratado em Mad Max. Nesse mundo pós-apocalíptico, o único deus é o “V8”, o carro uma arma e meio de sobrevivência para buscar água e combustível[1].

Mas não aconteceu. E por que não aconteceu?

Nas décadas seguintes o preço e fluxo do petróleo foram normalizados. Já nos anos 1980s preço foi reduzido pela instabilidade no oriente médio, a exportação de petróleo como forma de Irã e Iraque financiarem sua guerra, a necessidade de proteção e suporte norte-americano pela Arábia Saudita. Mais tarde, o impacto positivo foi entrada da Rússia e ex-republicas soviéticas como fornecedores, afastadas das determinações da OPEP e utilizando as exportações de petróleo e gás para financiar a restruturação pós-comunismo.

Na década de 2000s, as sucessivas guerras no oriente médio e instabilidades levaram o petróleo novamente a passar dos 100 dólares o barril. No entanto, o efeito foi reduzido sobre a economia mundial em relação aos anos 1970s. As fontes dessa mudança podem ser atribuídas: busca por novas fontes para obter combustíveis; incentivo a tecnologias e produtos mais eficientes; e outras fontes de energia.

As buscas de novas formas de obter combustíveis estavam presentes nos 1970s como, por exemplo, o uso de etanol e biodiesel. No Brasil ocorreu através do “Proálcool” que no auge permitiu que a maioria da frota de veículos de passeio utilizar o etanol, presente em modelos específicos para caminhões e locomotivas. Nos EUA, o etanol ganhou impulso nos anos 1990s durante o governo Clinton, cujos beneficiados eram os produtores de milho, possuindo como justificativa a redução de emissões e da dependência de importações de petróleo. Ao mesmo tempo motivando um avanço da exploração off-shore com custos sensivelmente mais onerosos nas regiões do golfo do México, costa brasileira, mar do norte e Alasca.

A grande revolução na área acabou sendo o gás e petróleo extraído do xisto. Por que utiliza uma matéria rica ao redor do mundo, permite uma produção local e próxima dos consumidores. A viabilidade se deu através do programa do governo Bush e complementado com Obama, construindo a possibilidade de curto e médio prazo tornar os EUA autossuficientes em petróleo e gás. Em paralelo, criando um mercado nacional institucionalizado e regulamentado, preservando relações mais próximas entre produtores e consumidores. Também refletindo na redução de custos e viabilizando indústrias intensivas em energia como, por exemplo, cerâmica[2].

Outros países avançaram na viabilização do xisto como fonte de petrolíferos, em destaque Canadá, Europa, China e Rússia indicando uma mudança estrutural na relação entre produtores e consumidores. Apesar dos questionamentos relacionados a questão ambiental, mesmo da viabilidade técnica de longo prazo.[3]

A elevação da eficiência energética reduziu a demanda por petrolíferos e as emissões de poluentes. O aspecto mais presente na indústria automobilística que foi incentivada a direcionar o desenvolvimento para motores, veículos e projetos mais eficientes. Os reflexos estão na redução do tamanho dos motores, introdução do gerenciamento eletrônico, uso de novos materiais como alumínio, componentes como turbo, auxílios de sistemas de recuperação e energia e motores elétricos. No presente popularizando o uso de carros elétricos, mais baratos, eficientes e com menor custo de manutenção.[4]

A viabilização econômica e técnica de fontes alternativas é uma realidade. Se tornando um grande negócio. Hoje o principal elemento é o barateamento da energia solar em relação à captação e que permitem uma produção descentralizada[5]. Outro ponto é o avanço das tecnologias de armazenamento de energia que impulsionam uma nova gama de produtos e serviços, redesenhando a matriz energética e seu uso para transporte.

O que ocorrerá no futuro não é possível dizer com precisão. No entanto, ao que parece estamos vivendo uma longa transição do mundo baseado no petróleo para outro bem menos dependente. Um sinal parece ser a manutenção ou queda no consumo de combustíveis nos países desenvolvidos, especialmente os que mais utilizam fontes alternativas e legislação ambiental mais dura[6]. Além do crescimento de uso de energias alternativas como um grande negócio. Do outro lado, também é observado que o combustível mais barato incentivou uma nova onda de vendas de SUVs nos EUA, mas com motores mais eficientes que consomem menos do que seus antecessores dos anos 1990s. Já que a legislação ambiental também se tornou mais dura.

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[1] Os filmes do Mad Max são um universo distópico que pinçam elementos da sociedade contemporânea.  O carro é um desses elementos.  A citação do “V8 GOD” é por ser o maior símbolo da indústria automobilística e do sucesso do capitalismo nas décadas de 1950 e 1960. Mas também eram motores grandes, poluidores e beberrões servindo para compensar a ineficiência do projeto dos carros e energético com brutalidade. Pouco a ver com os V8 atuais que são muito mais eficientes e menores, incorporando tecnologias para reduzir consumo e emissões de poluentes. Por exemplo, os V8 que equipam o Ford Mustang chegam a fazer 8,6 km/l, mas a tendência é que o modelo passe a ter um v6 turbo ecoboost devido às restrições ambientais, especialmente da Califórnia. Na europa, o motor v8 turbo equipam os carros principais das montadoras como Mercedes-Benz C63 AMG e BMW M5 que conseguem unir desempenho, economia e eficiência.

[2] Recentemente, petroleiras norte-americanas exportaram para Venezuela < http://internacional.elpais.com/internacional/2016/02/03/america/1454519527_294311.html >

[3] As questões ambientais relacionadas ao fracking < http://www.bbc.com/news/uk-14432401 >

[4] Existe um grande incentivo na legislação e tributário para que as montadoras passem a investir em carros elétricos.  Modelo populares ao redor do mundo como VW Golf, Ford Fusion, Honda Civic e outros possuem opções de motores turbo de baixa cilindrada como padrão, adicionando sistemas híbridos e versões totalmente elétricas. Outros modelos como tesla S, Nissan Leaf, BMW i3 e, futuramente, o Porsche Mission E <http://www.porsche.com/microsite/mission-e/international.aspx >. O sedan médio da Tesla S foi um sucesso mundial e inaugurou um novo padrão do que é um carro elétrico que pode ter conforto, desempenho, autonomia elevada e ser bonito. Mais no site da companhia < https://www.teslamotors.com/ >

[5]A sensação atual é o barateamento da energia solar e novas formas de armazenamento, motivando programas governamentais nos EUA, China e outros países. Por exemplo, as baterias tesla para armazenas energia em casa, algo similar ao usado nos carros da tesla <  https://www.teslamotors.com/powerwall >

[6]O anuário estático da OPEP revela a queda no consumo, especialmente em países desenvolvimento. Indicando que a relação entre crescimento e consumo de petróleo tenha mudado.  < http://www.opec.org/opec_web/static_files_project/media/downloads/publications/ASB2015.pdf >

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