No dia 29 de janeiro foi anunciado que o banco central japonês passaria a adotar taxas de juros negativas. Não causa surpresa. Esse é um dos aspectos da política econômica do primeiro ministro Shinzo Abe, chamada de “abeconomics” cujo objetivo é retomar o crescimento da economia japonesa, baseado no estimulo fiscal, monetário e reformas estruturais.

O panorama da economia japonesa é de um país com elevada renda e bem distribuída, desenvolvimento produtivo e tecnológico avançado, baixo desemprego (em torno de 3%), inflação e juros próximos à zero[i]. Nesse cenário maior problema é o baixo crescimento, já que outros indicadores aparecem extremamente positivos.

A divida pública ultrapassou os 200% em 2010 e atingiu 230% em 2014 como resultado das políticas de incentivo fiscal. O governo japonês não possui dificuldades em rolar a divida pública em um ambiente de juros zero ou negativos em termos reais. Portanto, não há problema de sustentabilidade da dívida pública ou da política fiscal.

A taxa de juros base negativa não afeta as condições de sustentabilidade da dívida pública em razão da elevada poupança. Ao contrário. Os juros negativos são encarados como uma forma de incentivar que o setor privado direcionar recursos para consumo e investimento em busca de maior rentabilidade.

Então, quais os motivos que levam a “abeconomics” não funcionar? A resposta elenca duas linhas que podem ser complementares.

A primeira “a la” krugman e “abeconomis” é de que o problema estão nas políticas macroeconômicas ruins que criam a armadilha de baixo crescimento e deflação. Portanto, a solução está em alterar para políticas mais comprometidas com crescimento, incentivo ao setor privado, impulsionar mais gastos públicos, especialmente em infraestrutura. Somados a reformas estruturais e política monetária expansionista[ii].

A segunda de que o problema esteja na cabeça do japonês sobre organização social e integração do individuo, relação com dinheiro, consumo para satisfazer suas necessidades e papel da poupança. Podendo ser resumida nas perguntas: o cidadão japonês médio vê a necessidade de elevar o consumo? Existem oportunidades de investimento na economia japonesa? Será que eles respondem positivamente aos estímulos fiscal e monetária na esfera  macroeconômica?

Se a primeira alternativa for correta. Então, melhores politicas econômicas vão funcionar e levar o Japão novamente ao crescimento. Não parece o caso pelo aparente fracasso da “abeconomics”.

Se a segunda alternativa for correta, existe a possibilidade de o Japão estar condenado a ter baixa inflação e crescimento. O que não é ruim em si. Os outros indicadores de nível de emprego, distribuição e renda, sociais, sustentabilidade fiscal e da dívida públicas são extremamente favoráveis.

Os dois possíveis canais para explicar o baixo crescimento e ineficácia dos estímulos.

O japonês médio pode estar feliz com seu nível de consumo em que as mudanças ocorrem por fatores tecnológicos e culturais, mas sem grandes solavancos ao longo do tempo. Uma característica acentuada pela melhor distribuição de renda que leva a ter uma baixa parcela da população que poderia ser incorporada ao mercado formal e de consumo.

As empresas não veem oportunidades de investimento além da manutenção da infraestrutura existem, atividades de pesquisa & desenvolvimento, produção de bens mais sofisticados para exportação. Assim, nem mesmo o crescimento mais forte da economia mundial impulsionaria a economia japonesa. Já que os investimentos migrariam para outros países com menores custos ou com maior potencial de mercado.

Outro problema é que a sociedade japonesa é proporcionalmente muito mais fechada que outros países desenvolvidos ocidentais[iii]. Incluindo na cultura organizacional, forma de trabalho das empresas, possibilidade de inserção de estrangeiros na sociedade, especialmente em postos de comando e burocracia estatal. Assim, agravando o problema demográfico do envelhecimento da população, as condições desfavoráveis da geografia e localização, reduzindo as oportunidades de crescimento.

O Japão acaba sendo um caso muito particular. A diferença para países europeus (Alemanha, Suécia, Suíça, Canadá, por exemplo) é maior recepção e integração de imigrantes, integração com vizinhos menos desenvolvidos que acaba abastecendo uma dinâmica que coloca o crescimento como importante para incorporar a população e abrir oportunidades para novos investimentos. Além de uma cultura diferente mais afável ao consumo, possibilidades de explorar novos mercados para atender novas necessidades e demandas[iv].

—–

Duas referências para entender como funciona a sociedade e economia japonesa

Um dos primeiros livros que li sobre economia japonesa em relação ao desenvolvimento financeiro e produtivo. Depois de uma grande introdução sobre a organização das finanças e empresas japonesas, o livro apresenta uma comparação com a organização alemã, anglo-saxã e de países em desenvolvimento. É uma discussão comparativa que permite entender como funciona cada país.

AOKI, Masahiko; PATRICK, Hugh. (1995).The Japanese Main Bank System: Its Relevance for Developing and Transforming Economies Disponível na amazon. Com < http://www.amazon.com/Japanese-Main-Bank-System-Transforming/dp/0198288999/ref=sr_1_7?s=books&ie=UTF8&qid=1455091184&sr=1-7 >

A governança corporativa e modo de pensar na firma japonesa. A firma e governança corporativa são importantes por que incorporam o modo de pensar da estrutura social, instituições, relações de trabalho e papel do estado.

AOKI, Masahiko; JACKSON, Gregory; MIYAJIMA, Hideaki. (2007). Corporate Governance in Japan: Institutional Change and Organizational Diversity. Disponível na amazona.com < http://www.amazon.com/Corporate-Governance-Japan-Institutional-Organizational/dp/0199284520/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1455090849&sr=1-1  >

[i] Dados sobre a economia japonesa < http://pt.tradingeconomics.com/japan/government-debt-to-gdp >

[ii] Por exemplo, o artigo recente do Paul Krugman < http://www.nytimes.com/2015/09/11/opinion/paul-krugman-japans-economy-crippled-by-caution.html?_r=0 > ou < http://www.nytimes.com/2014/11/03/opinion/paul-krugman-business-vs-economics.html >

[iii] Um breve podcast sobre o japão antigo, mas que possui elementos para entender a cultura japonesa atual < http://deviante.com.br/podcasts/scicast/scicast-119-japao-antigo/ >

[iv] Exemplo da Alemanha e um contingente elevado de estrangeiros que são cidadãos < http://www.dw.com/pt/estrangeiros-representam-10-da-popula%C3%A7%C3%A3o-alem%C3%A3/a-18319781 >

Anúncios