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Por Alexandre Andrada

Dilma Rousseff deve ser afastada da Presidência da República.

Deve no sentido de “é necessário” e também no de “é provável”.

Não necessariamente por conta das chamadas “pedaladas fiscais”, escapa-me das competências a certeza se tal procedimento caracteriza ou não a prática dolosa de crime de responsabilidade.

Dilma Rousseff

Brazil’s President Dilma Rousseff attends a meeting on state land issues, at Planalto presidential palace in Brasilia, Brazil, Friday, April 15, 2016. The lower chamber of Brazil’s Congress began a debate on whether to impeach Rousseff, a question that underscores deep polarization in Latin America’s largest country and most powerful economy. The crucial vote is slated for Sunday. (AP Photo/Eraldo Peres)

Mas se Miguel Reale Jr. e Hélio Bicudo acreditam que sim, deve haver base jurídica para tal raciocínio.

Miguel Reale Jr. é um dos maiores juristas do país. Mas o fato de ser próximo ao PSDB, pode colocar seu julgamento sob suspeição.

Mas aí entra Hélio Bicudo, que além de jurista de peso foi um dos fundadores do PT, trabalhou na gestão Erundina, foi deputado federal pelo partido, foi vice-prefeito novamente na gestão Marta… Bicudo só saiu do PT em 2005, quando do escândalo do mensalão.

Chamá-lo de golpista ou supor que um homem com sua inteligência e cabelos brancos é um fantoche nas mãos de malandros é castigar a inteligência alheia.

A verdade é que o PT abusou da sorte.

Não caiu antes não por falta de material jurídico, mas por ausência do clima político necessário para tal evento.

Agora – com os cenários político e econômico favoráveis à queda – cairá pelo conjunto da obra.

No mensalão o crime de responsabilidade era evidente. A Casa Civil, entidade sob o comando direto do Presidente Lula, colocou o Congresso de joelhos, comprando-o com dinheiro desviado do Banco do Brasil.

O governo Lula transformou os antigos 300 picaretas em 300 prostitutos.

Interferir na independência dos poderes é criminoso, é golpe!

Duda Mendonça confessou ter sido pago via caixa-dois no exterior, também com dinheiro sujo.

Uso de dinheiro de corrupção para pagar campanhas políticas é golpe!

O Ministro da Fazenda usou a presidência da Caixa Econômica para violar o sigilo bancário de um caseiro que ousou dizer a verdade, apontando as relações entre Palocci e outros picaretas de Ribeirão Preto.

Usar o aparato estatal para perseguir, intimidar e humilhar um cidadão desprotegido é golpe!

O mensalão só foi descoberto por conta da ação individual de Roberto Jefferson, que não aceitou ser rifado sozinho. Não fosse seu sentido torto de honra, é possível que ainda hoje Zé Dirceu – aquele bandido reincidente – caminhasse por aí de cabeça em pé, exalando o perfume enjoativo da arrogância de outrora.

O mensalão destroçou de tal modo a linha sucessória petista, que Lula se viu obrigado a inventar uma candidata do nada. Soprou-lhe a vida política nas narinas e a fez presidente.

Deviam ter aprendido com os erros, mas mentiram tanto para sua militância de que o julgamento do mensalão fora uma armação da imprensa golpista, que acabaram nessa história inventada para doutrinar idiotas.

Se não erraram, podiam continuar fazendo o que faziam antes.

E continuaram.

Dinheiro da Petrobras desviado de modo religioso para comprar almas e mentes.

João Santana e uns empreiteiros já admitiram que o dinheiro da campanha de 2010 e 2014 era fruto de desvios.

Até as doações oficiais – confessaram – eram o mero estorno de dinheiro roubado.

Roubar é golpe!

Mentir é golpe!

E como mentiu a sra. Rousseff.

Bastou vencer as eleições para que ela mostrasse a magnitude do estelionato praticado contra o povo brasileiro.

Estelionato financiado com crime de responsabilidade fiscal e desvio de dinheiro público.

Ganhar eleições assim é puro golpe!

Delcídio Amaral foi pego em flagrante tentando comprara o silêncio e sugerindo uma rota de fuga para uma testemunha central da lava-jato.

Crer que ele fazia isso por conta própria, sem as ordens ou anuência da Presidente e dos líderes do PT é crer em contos de fadas.

Obstruir a justiça, atrapalhar as investigações, corromper testemunhas e oferecer rotas de fuga é coisa de mafiosos.

É golpe!

A delação de Delcídio colocou o bode na sala de Dilma.

O ex-líder do governo afirma que Dilma e Cardoso agiam para obstruir as investigações e liberar empreiteiros presos, pressionando e indicando juízes.

Disse que a indicação de Cerveró para a diretoria da Petrobrás contou com a participação direta de Dilma.

Disse que Dilma tinha total conhecimento e, portanto, dolo na picaretagem da refinaria de Pasadena. Tudo isso é coisa de gangster, de batedores-de-carteiras.

A divulgação do grampo pelo juiz Sérgio Moro no qual a presidente da República se comporta como chefe de uma facção criminosa, enviando um termo de posse de emergência para evitar uma possível prisão de Lula, é coisa de uma baixeza monstruosa.

Usar o cargo para evitar a prisão de um amigo é desvio de função, é moralmente subterrâneo, é crime e é golpe.

O PT encontrou no Judiciário um adversário que não pode ser silenciado com ameaças e dossiês, nem com as tradicionais malas de dinheiro para financiar campanha ou luxos pessoais. Encontrou na Câmara dos Deputados um presidente de moral tão flexível quanto o da tropa de choque petista.

Os líderes petistas são os narcisos às avessas, que odeiam tudo o que é espelho.

Brizola alertava que Lula era daquelas figuras que pisam no pescoço da própria mãe em nome dos seus objetivos. Cunha pisa no pescoço da mãe, da avó…

Em briga de bandidos, ninguém é inocente.

Dilma – diz-se – não é uma pessoa de fácil trato. Falta-lhe o carisma de Lula.

Dilma cultivou inimizades, semeou ofensas.

Além disso, cercou-se de pessoas intragáveis, como José Eduardo Cardoso e Aloízio Mercadante.

Pessoas notadamente detestadas por 11 entre cada 10 parlamentares não-petistas.

Agora com a economia em colapso e com muitos dos aliados sendo um pote até aqui de mágoa, chegou a hora da revanche.

É certo que a corrupção não irá acabar com a saída do PT.

Mas, pelo menos, seremos roubados por ladrões descansados.

Um dia ainda enforcaremos o último ladrão com as tripas do último hipócrita.

Enquanto esse dia não chega, que venham os novos ladrões.

Alexandre Andrada é Doutor em Economia do Desenvolvimento pela FEA-USP e Professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB).

* O autor gentilmente cedeu ao blog a permissão para reprodução do artigo originalmente publicado no HuffPost Brasil em 15/04/2016.

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