Tags

, , , , , , ,

Por César Martins Guimarães

Não vou tratar dos argumentos jurídicos pró e contra o impeachment por dois motivos: o primeiro é que essa não é a minha praia; o segundo é por estar convencido de que, em termos sociológicos, eles são completamente irrelevantes. Irrelevantes porque, de fato, duvido que alguém tenha se posicionado pró ou contra o impeachment a partir das tecnicidades jurídicas que passaram a ser debatidas ou que essa reflexão influenciará de alguma maneira a decisão do Congresso ou mesmo do STF sobre o tema.

3_Impeachment_Cesar_Guim_DILMA

Essa não é uma das guerras travadas no momento, pois ela só seria possível em um Estado Democrático de Direito e esse não é o caso. Acredito que estamos vivenciando quatro outras guerras:

  1. Guerra de facções criminosas. Aqui o paradigma é a guerra por pontos de tráfico. No caso em questão são pontos de corrupção (estatais, ministérios, secretarias etc.). Considerando que o Estado é, historicamente, um instrumento de extorsão econômica, quem controla o Estado controla os meios de enriquecimento. A fragilidade dos mecanismos de controle social do Estado e o próprio processo eleitoral, com seus sistemas de financiamento de campanhas, tornam a corrupção um traço endêmico do modelo político; a regra e não a exceção. O domínio dos pontos de corrupção é fator estratégico para a chegada e manutenção do poder.

Obviamente essa não é a única guerra travada. Conheço pessoas honestíssimas que defendem as duas teses. Nenhuma delas perderá ou passará a ter acesso a pontos de corrupção de acordo com o resultado do processo de impeachment.

  1. Guerra identitária (petistas x antipetistas): Aqui o paradigma é o da guerra de torcidas organizadas. Seu time é o melhor e isso é uma questão de fé. Se você toma um gol, a culpa é do juiz ladrão. Se o juiz rouba para o seu time, tudo bem. Se seu zagueiro toma chapéu, caneta e cai de bunda no chão, ele não é digno de vestir a camisa do seu time: vaia o cara toda a vez que ele pega na bola e tá resolvido. O problema é o cara, não seu time. Os adversários são os idiotas e pernas-de-pau, os nossos são os inteligentes e craques.

Essa também não é a única guerra. Conheço pessoas nos dois campos que não são petistas nem antipetistas. Pessoas brilhantes e idiotas também habitam ambos os lados.

  1. Guerra distributiva: Aqui o paradigma é o da luta de classes. Essa diz respeito a quem come a fatia maior do bolo ou, em outros termos, qual modelo de política econômica (fiscal, de renda, cambial, monetária etc.) deve ser adotado. É a que opõe, de um lado, a FIESP e do outro a CUT, o MST e o MTST.
  2. Guerra cultural: Aqui o paradigma é o maio/68 na França. O “Monitor do debate político no meio digital” da USP tem traçado relações interessantes sobre essa guerra. A posição que você tem acerca de certos temas culturais parece ser um bom preditor sobre o lado que você está. Não vai dar 100% de acerto, mas, mesmo assim, parece um preditor bastante confiável. Temas como Direitos Humanos (principalmente das minorias como mulheres, negros, LGBTs, estrangeiros etc.), liberação do porte de armas, descriminalização das drogas, laicidade do Estado e do ensino, governo militar ou monárquico e outros temas quentes do momento colocam um divisor nessa guerra, como os estudos científicos do grupo tem demonstrado.

Se essa minha percepção estiver correta, o resultado da votação só resolveria – temporária e precariamente – a primeira guerra e acirraria todas as demais.

Assim, a solução da crise política estaria longe de ser alcançada, qualquer que seja o resultado. Essa avaliação é bastante diferente da que tenho ouvido de ambos os lados. Talvez porque eu seja mais cético quanto às possibilidades de resolução desses conflitos no âmbito institucional.

Os desdobramentos da solução institucional (ou travestida de institucional e essa avaliação dependerá de seu lado ter ganhado ou perdido) são difíceis de prever, mas acredito que se abrirão duas novas guerras que serão um desafio para o governo que daí emergirá: no nível interno do governo uma disputa pelos espólios, no nível externo uma oposição sistemática e ainda mais raivosa. São desdobramentos que apontam para um acirramento da crise de governabilidade. Como nos mostra a História, as guerras não produzem derrotados conformados.

César Martins Guimarães é Bacharel em Administração (EAESP-FGV), Mestre em Administração na área de Recursos Humanos (FEA-USP), Doutor em Psicologia na área de Psicologia Social (IP-USP) e professor do Centro Universitário FECAP.

Anúncios