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Eu não gosto da Presidente nem do governo dela. Não tem problema se você gosta ou não dela. O assunto aqui é outro. Não vou defender os argumentos de um lado nem do outro, mas colocar uma dúvida em meio a tanta certeza.

Não nos enganemos. Neste tema, estamos todos tentando andar reto numa escuridão em que o chão e as paredes se movem constantemente. Eu sei que você é honesto em suas intenções e deseja o melhor para o Brasil. Este é o meu pressuposto em qualquer discussão. Por isso, lá vai!

Serão semanas difíceis pela frente, se a votação de amanhã passar e couber ao Senado a decisão sobre o afastamento da Presidente Dilma Roussef do Palácio do Planalto. Qual gangorra desvairada, a balança dos votos oscila e deixou tonto qualquer um que se dedicou a entender as forças ocultas que moveram as decisões de deputados federais à véspera da histórica votação.

Eu sou a favor do impeachment de corruptos; bem, e da cura do câncer também. E você? Gosta da ideia de poder remover um político eleito quando ele não representa os seus interesses e a sua visão de mundo? Eu também.

Agora, a pergunta-chave: impeachment de quem? Eu consigo pensar em no mínimo 513 pessoas – em especial o presidente destas – que deveriam ser afastadas do cargo antes da Presidente Dilma. Eles estão dos dois lados, mas acredito ser pior o pecado do pregador como notou a imprensa internacional (sendo justo com a História: esta é a causa dominante da raiva contra o PT, por ter sido a esperança de moralização da política brasileira para muitos. Outro articulista já deixou isso bem claro aqui no blog).

Deputados de oposição e situação se manifestam no plenário

Brasília – Deputados de Oposição fazem manifestação no Plenário da Câmara e se misturam a manifestação de deputados da situação.governista (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Mas, tudo bem, você quer que ela caia para cuidar dos outros depois. Eu entendo sua angústia. Mas, se você me permite, quero lhe confessar um receio: estamos buscando no impeachment algo que ele não pode nos dar.

O impeachment é instrumento das democracias contra a corrupção pessoal do mandatário-mor da nação. É como os anticorpos (ou os medicamentos) que atacam invasores que atentam contra a saúde do corpo institucional.

Porém, quando os anticorpos atacam o próprio organismo em sua adequada função, sem motivos reais que o justifiquem (voltaremos a este assunto, certamente), a medicina dá o nome de doença autoimune. No caso da política, tal inadequação pode tornar-se uma autoimunidade institucional, qual uma diabetes ou esclerose múltipla do Estado.

Um detalhe: esse tipo de doença institucional, como na medicina, não vai embora. Se não for prevenida, uma vez iniciada, ela não pode ser curada, apenas administrada.

Veja, eu não gosto do meu cérebro (e muitos hão de concordar!). Ele é muito incompetente (sei que muitos adversários políticos apoiarão esta ideia!), mas não desejo que meus anticorpos o ataquem. Se já é ruim sem impedimentos inflamatórios, imaginem se o próprio corpo o rejeitar!!

Surpreendem-me (mas nem tanto) as manifestações convictas dos defensores do impeachment da presidente. Corretamente pautadas pela rejeição à corrupção e amparados em racionalizações hermeticamente formuladas, lembram-me as reações de pessoas que não “acreditam” no diabetes e, sob o efeito da emoção, lançam-se sobre alimentos refinadamente açucarados. Elas dizem: prefiro viver pouco, mas feliz! No fim, acabam vivendo muito e um tanto desconfortavelmente! Quem já tentou convencer alguma delas a maneirar na sobremesa, sabe como é fácil ganhar um inimigo!

É difícil lutar contra o magnetismo das soluções fulminantes: prazer imediato, emoção acalmada… mas à custa de um longo prazo empenhado, vendido baratinho por uma recompensa imerecida. É sempre arriscado: pode dar certo, pode dar errado! (leia mais sobre isso aqui).

O quê? – poderá o leitor pensar – então, você está comparando minha posição política a uma doença? É claro que não. Tenha paciência comigo, por favor. Como disse, o assunto é complicado e nos confunde facilmente.

Veja, ser a favor do impeachment não é posição política, mas uma decisão sobre o uso de um “medicamento”. A “doença” é o que resulta do uso desregrado de “medicamentos”. Trata-se de um vício, uma potencial dependência “socioquímica” em que corremos o risco de cair, como sociedade, se não refletirmos muito bem sobre a tentação que ora assalta a nação.

Eu sei, eu sei. Você sabe diferenciar as coisas e é forte o suficiente para usar apenas uma vez… só desta vez! E mais, você poderá reagir, a verdadeira diabetes é a ocupação petista que o Estado sofre há 14 anos, que inchou o Estado e engordou os bolsos dos corruptos. Eu sei, Eu sei. Não discordo.

O ponto que quero salientar é que o impeachment é para proteger a instituição da Presidência da República, não a Dilma ou qualquer ocupante eleito. Como disse certo Ministro do Supremo Tribunal Federal: o chicote muda de mão.

Por fim, para reforçar a metáfora acima, quem rejeita, como eu, a aprovação do uso da “pílula do câncer”, deveria aplicar o mesmo método para o uso do impeachment. Ambos são “medicamentos” cujos vendedores prometem o que não podem entregar: a salvação contra doenças graves e letais, seja para o corpo, seja para a democracia.

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