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Nos últimos dias, a imprensa nacional tem divulgado que o senador José Serra seria o ministro das relações exteriores em um provável governo Michel Temer. Como forma de convencer José Serra – que preferia um ministério de maior projeção, como o do Planejamento ou da Saúde – o vice-presidente teria prometido “turbinar” o Ministério das Relações Exteriores (MRE) com um fusão com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), temática que sempre atraiu as atenções de Serra em seus pronunciamentos no Senado ou durante a sua campanha eleitoral à presidência da República.

Com essa possibilidade, surge a pergunta: como seria a gestão José Serra no Itamaraty? O político seria bem aceito pela burocracia que, desde o governo FHC, não tem um ministro que não faça parte da carreira diplomática?

Sobre o primeiro ponto, conforme colocado por alguns diplomatas e sabido por aqueles que acompanham o Itamaraty, o relacionamento da presidenta Dilma com a casa de Rio Branco não é dos mais amistosos – tanto que em seus 5 anos teve 3 ministros diferentes, ao contrário de seu antecessor, que manteve Celso Amorim como chanceler durante os seus oito anos de governo. Essa relação delicada talvez explique a postura do Itamaraty em se distanciar do debate sobre o fato de o impeachment ser ou não um golpe e, portanto, abandonado a defesa de Dilma no plano internacional, preferindo uma posição mais institucional (para maiores informações, vale a leitura de texto publicado na Carta Capital por Maria Regina Soares de Lima e Letícia Pinheiro nessa semana).

Portanto, muitos diplomatas tem divulgado, de maneira reservada, que pior que está a situação não ficará e que, talvez, com um ministro que goza da confiança e da proximidade com o futuro presidente, o Itamaraty possa recuperar o seu prestígio no Executivo e talvez sofrer menos cortes do que tem sofrido nos últimos anos do governo Dilma, o que tem feito com que ocorra atrasos nas contribuições anuais a organismos internacionais e nos benefícios de diplomatas no exterior, gerando um certo constrangimento aos mesmos.
Um segundo ponto seria a possível “fusão” do Itamaraty com MDIC, criado exatamente para separar a questões de defesa e promoção comercial dos outros assuntos relativos à política externa, visando, portanto, fornecer um caráter mais pragmático à política comercial.

Do ponto de vista temporal, fica claro que essa fusão não será completada em um eventual governo Temer que durará cerca de dois anos. Isso ocorre porque as duas burocracias tem carreiras diferentes e também trabalham de forma diferente. O MDIC devido ao seu caráter técnico e de defesa dos interesses do empresariado brasileiro possui uma relação muito mais próxima a esses grupos de interesses do que o Itamaraty, ainda fortemente insulado.

Em entrevista à Revista Istoé, durante a sua campanha presidencial, José Serra afirmou que uma das maiores dificuldades brasileiras em termos de comércio internacional seria a falta de centralização da área de comércio exterior, o que apontaria que o senador seria favorável a esse ministério turbinado, apesar de saber que do ponto de vista institucional e temporal seja difícil de ser concluído em sua gestão. Portanto, isso poderia ser apenas uma forma de encontrada por Michel Temer, conforme dito por alguns interlocutores, de convencer Serra a aceitar a posição de chanceler, já que o em seus pronunciamentos e em sua campanha presidencial o tema comercial sempre esteve presente.
Mas quais seriam as mudanças a serem promovidas por José Serra à frente da casa de Rio Branco?

Primeiro ponto a deixar claro é que não há tempo hábil para uma guinada na política externa brasileira, conforme apontam alguns analistas. O que deve ser feitos por Serra serão ajustes na política exterior do País para se adaptar a novos tempos em que o Brasil agora tem outros desafios no plano internacional, já que passa por uma crise econômica e institucional séria. As dificuldades econômicas não são exclusividade brasileira, os outros BRICs também enfrentam problemas, o que aponta um cenário muito menos receptivo aos países em desenvolvimento, diferente do que ocorria principalmente no governo Lula em que foi gestada a política de aproximação com os países em desenvolvimento de maneira a tornar o Brasil um líder entre os países do Sul.

Nesse sentido, devido tanto aos constrangimentos externos quanto internos, ocorrerá naturalmente um arrefecimento nas relações Sul-Sul, com o fechamento de postos em alguns países da África e da Ásia que, segundo o futuro ministro, teriam produzido poucos resultados concretos em termos de comércio – principal ponto para o senador em relação à política exterior.

Essa mudança também contribuiria para o ajuste fiscal necessário nas contas nacionais ao “enxugar” os gastos e, possivelmente, diminuiria os atrasos nos benefícios dos diplomatas, agradando, portanto, boa parte da corporação.

Outra mudança que deverá ocorrer será no âmbito regional. Os tucanos, não apenas José Serra, são fortes críticos da política regional brasileira de aliança com governos de esquerda de países como a Venezuela e a Bolívia. Nesse sentido, haverá um relativo afastamento em relação a esses países é uma aproximação maior com o Chile e a Argentina, países com governos menos ideologizados é mais competitivos do ponto de vista comercial.

Regionalmente, teme-se que Serra coloque em prática o sempre defendeu em seus pronunciamentos: dar um passo atrás no Mercosul para que volte a ser uma área de livre comércio e posso dar maior liberdade ao Brasil para firmar acordos bilaterais de comércio. Essa mudança também requereria tempo – algo que Serra não tem muito -, já que seriam necessárias negociações complexas tanto no âmbito doméstico (com os envolvidos no comércio regional) quanto regional com outros países, podendo, portanto, gerar inimigos desnecessários em um momento em que o governo necessitará de apoio.

Ademais, há que se ressaltar que a Argentina, com a mudança de governo ocorrida, não é mais uma ameaça ao processo de liberalização comercial na região.
Portanto, devido ao tempo e às condições atuais, a política externa em uma eventual gestão Serra deverá ser marcada pela tentativa de restauração da credibilidade internacional brasileira, ao procurar demonstrar que o processo de impeachment da presidente teria ocorrido de maneira legal. Essa defesa poderá ajudar na atração de os investimentos externo necessários à superação da crise econômica e à sustentação do próprio governo e do próprio ministro no poder.

A gestão Serra não significa, portanto, uma guinada na política externa, mas talvez uma correção de rumos, até porque a política exterior não é muito propensa, historicamente, a guinadas.

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